Um mundo rico: como chegamos até aqui?

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No meu último texto aqui no blog da Guide, eu disse que o Brasil construiu, nos últimos anos, as bases para se tornar um país rico. Confesso que esse tipo de tema muito me encanta como economista e, ultimamente, tenho ido em busca da literatura que explica porque alguns países conseguiram ficar invejavelmente ricos enquanto outros, na melhor das hipóteses, se tornaram apenas países da classe média global (Brasil incluso). Apesar de alguns países terem ficado muito mais ricos que outros, o mundo ficou bem mais rico e se livrou da pobreza miserável que nos atormentou por milhares de anos.

O gráfico abaixo mostra que nós, humanidade, sempre fomos muito pobres por muito tempo. Mas alguma coisa aconteceu na virada do século XVIII para o XIX que foi o início do domínio da energia do vapor que gerou a primeira revolução industrial. Depois disso, a riqueza do mundo, que vinha estagnada desde do início da história, cresceu exponencialmente.

grafico que expressa a relação de tempo com o PIB global

Mas o que fez o mundo ficar rico na virada do século XIX para o XX? Capital? Ideias? Conhecimento? Aumento do comércio global?

Umas das possíveis explicações vem de Deirdre McCloskey, uma Phd. em economia pela universidade de Harvard, que propôs uma ideia radicalmente diferente para explicar como a sociedade moderna ficou tão rica. Antes mesmo de entrar nas minúcias de suas ideias expostas em uma coleção de 3 livros (A série batizada de a Trilogia Burguesa), vale a pena refletir sobre a própria vida da autora. Mccloskey, antes de ser Deirdre, era Donald. McCloskey foi professor da Universidade de Chicago por mais de 10 de anos, cristão, casado e pai de dois filhos. Até que, após a separação, decidiu que iria seguir a sua verdadeira identidade, o que o levaria a se tornar Deirdre. 

A traumática transformação está narrada no livro Crossing. O que torna a figura de McCloskey mais interessante, afinal de contas ela é uma liberal, acredita no livre mercado e fez grandes contribuições a tradicional teoria econômica.

Um dos grandes problemas da profissão de economista acadêmico é rigidez das ideias. Economistas escolhem um conjunto de crenças no começo de sua carreira e, na maioria das vezes, as perseguem por anos a finco até a morte. 

Mas McCloskey decidiu ignorar suas crenças iniciais, e fez mais uma transição, agora no campo das ideias. Ela propôs em mais de 2.000 páginas, divididas em 3 livros, que não foi o crescimento do comércio exterior, a acumulação de recursos (poupança), investimentos, imperialismo, escravidão ou até mesmo o desenvolvimento de melhores direitos de propriedades, que fizeram o mundo ficar rico. 

Para ela foram as ideias.  Ela afirma que a teoria econômica e todas as suas ramificações não conseguem explicar o mundo moderno, mas as ideias podem. 

A mudança veio de uma revolução lenta, iniciada pela ascensão das classes burguesas (comerciantes e pequenos empresários). Essas classes promoveram virtudes e vícios que levaram a uma visão positiva dos europeus sobre comerciantes e inovadores. A burguesia passou acreditar nessa visão de mundo incremental, de que novas ideias poderiam gerar grandes lucros e trazer maiores confortos a sociedades. Ideias que permitiram a construção da base do conhecimento que levou aos motores a vapor, e, mais do que isso, que permitiram a sua ampla utilização e aceitação.

McCloskey também acredita que a nobreza e o clero deixaram de ser a única classe com “respeitabilidade” e que esses burgueses começaram a ser percebidos como um grupo respeitável, que o sucesso comercial poderia alçar pessoas comuns ao mesmo nível de um nobre, algo até então impensável para os padrões da época. O espírito de igualdade e dignidade para todos precedeu a revolução industrial.

Imagem com a ordem: igualdade, dignidade - tecnologia e informações - o grande enriquecimento

Então ela descobriu que, nos dois séculos depois de 1800, os bens e serviços disponíveis para uma pessoa de renda média na Suécia ou em Taiwan subiu por um fator de 30 ou 100. Não é 100%, entenda. Um fator de 100 (a maior estimativa) representa um aumento de 10.000%. Já um fator de 30 (a menor estimativa) representa 2.900%. McCloskey chama esse fenômeno de “O Grande Enriquecimento”.

Porém, as ideias de McCloskey não são unanimidade na economia pois são extremamente complicadas de serem testadas empiricamente usando dados e modelos estatísticos (uma premissa inviolável para os economistas), além dela ir contra a tradicional teoria que tenta explicar o grande enriquecimento do mundo. Mas na verdade, tal controvérsia sobre os motivos, indicam que nunca existiu uma ideia matadora capaz de explicar como o mundo chegou até aqui, mas sim um conjunto amplo delas que com certeza abarca as teorias de McCloskey. 

Mas o que importa é que algo, ou um conjunto de “algos”, nos forneceu as bases para o bizarro e exponencial crescimento econômico que o mundo viveu nos últimos 200 anos. O gráfico do começo do texto é, na falta de adjetivos, chocante. Desde que os humanos começaram a ser organizar em sociedades de trocas e produção, sempre foram pobres. Em em menos de 300 anos se tornaram incrivelmente prósperos. 

Os 3 livros valem bastante a pena, mas infelizmente ainda não estão disponíveis em português. A linguagem é acessível para os não economistas, mas a leitura pode ser um tanto quanto cansativa no sentido de que a autora vai e volta e às vezes até mesmo se perde em longas digressões. Para quem se interessar, a autora mantém um rico blog onde é possível encontrar seus artigos e ideias. 

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