Avaliando a recuperação econômica

Tempo de leitura: 4 minutos

Passados já praticamente cinco meses desde o início da crise da covid-19, nosso objetivo é traçar aqui, com base na ampla disponibilidade de dados divulgados até o momento, a trajetória de recuperação da economia brasileira.

Como bem se sabe, a crise do coronavírus, ao instituir um choque simultâneo de oferta e demanda com a implementação das medidas de distanciamento social, causou uma forte retração da atividade econômica. Tal retração teve impacto, nem sempre homogêneo, porém certamente negativo, que se refletiu sobre os diversos índices de atividade, confiança e expectativas dos agentes econômicos.

Situação Atual

Diversos índices apontam que o processo de recuperação econômica está de fato encaminhado. O setor industrial, varejista e de serviços, desde as últimas pesquisas divulgadas pelo IBGE, refletiram o impacto expansionista, porém técnico, do relaxamento das medidas de distanciamento social.

Ocorre que a retomada no nível de atividade tem tomado uma forma bastante heterogênea. Enquanto o setor industrial tem consistentemente registrando uma aceleração no ritmo de produção, o setor varejista, tanto no conceito ampliado (que contempla a venda de veículos e materiais de construção) quanto restrito, apresentou desaceleração, ao passo que o setor de serviços começou a registrar uma expansão da atividade pela primeira vez desde o início da crise apenas em junho.

Isto é, fica claro que a menor sensibilidade do setor industrial a variações do quadro sanitário o torna mais suscetível para sustentar uma retomada consistente. O varejo, mas principalmente os serviços, por depender de forma mais acentuada do contato social e da renda disponível, está sujeito a mais dificuldades para retornar aos níveis pré-crise. Em todos os setores aqui mencionados, os níveis de confiança também catalogaram altas de forma consistente.

Há de se pontuar que parte do arranco na atividade reflete, também, os extraordinários graus de estímulo monetário e fiscal proporcionados pelo Banco Central, Governo Federal e BNDES. Na esfera monetária, diversos programas creditícios — como o Pronampe, por exemplo —  foram vitais para suavizar o fluxo de crédito em direção à ponta final, ao passo que medidas de cunho fiscal como o auxílio emergencial e o financiamento da folha de pagamentos garantiram algum montante de renda para assegurar que a contração da atividade não fosse maior. Em virtude disto, todos os setores aqui mencionados catalogaram altas nos níveis de confiança dos agentes econômicos.

O mercado de trabalho, por sua vez, tem contando com uma dinâmica menos benigna. Desde o início da crise a taxa de desemprego tem se elevado em um pouco mais de um ponto percentual, ao ir de 12,10% em março para 13,30% na última leitura de junho. Esta alta “modesta” na taxa de desemprego, no entanto, obscura que tal resultado reflete, na verdade, um declínio na taxa de participação. Em outras palavras, a taxa de desemprego só não subiu mais porque uma série de indivíduos que perderam o trabalho simplesmente deixaram de buscar empregos, em muitos casos, por causa das medidas de isolamento social. O IFI (Instituto Fiscal Independente) estima que, mantida a taxa de participação verificada em junho de 2019 (62,1%) constante, o desemprego poderia ter atingido um estarrecedor patamar de 22,8% da força de trabalho. 

E agora?

Resta saber, entretanto, para onde vai a economia uma vez passado o efeito transitório da reabertura e dos estímulos econômicos. Para tanto, é esclarecedor olhar para a experiência americana, que reabriu mais cedo do que a economia brasileira. Por lá, índices de atividade já apontam para uma desaceleração da economia, refletindo a transitoriedade da reabertura. Mais importante do que isso, a meu ver, é a clara preponderância do estímulo fiscal em garantir a retomada. Desde que o pacote trilionário de gastos expirou no final do mês passado, diversos dados de alta frequência como gastos das famílias com cartão de crédito e oportunidades de trabalho perderam tração, indicando como a maior economia do mundo, por si só, não conseguirá andar sozinha.

Enquanto democratas e republicanos não chegarem a um acordo para prover mais estímulos este movimento de desaceleração deve continuar devido à deterioração verificada no mercado de trabalho, que também apresentou arrefecimento no processo de recuperação. A razão é clara:  uma elevada taxa de desemprego (10,2%) preconiza um menor nível de renda disponível para o consumo, além de manter a incerteza elevada, que por sua vez ocasiona um favoritismo em prol da formação de poupança, causando uma pressão adicional sobre o dispêndio das famílias.

Devido à similaridade do choque, não há por que esperar que aqui seja diferente. Pelo contrário, a desaceleração por aqui deve tomar uma forma mais acentuada em função da inflexibilidade que caracteriza o mercado de trabalho brasileiro. Aqui o mercado de trabalho não desfruta do mesmo dinamismo verificado lá fora, o que torna o processo de contratações e demissões menos sensível às condições macroeconômicas. Se acoplarmos a isso o fato de que o auxílio emergencial será reduzido (apostamos em uma redução pra R$ 300/mês), temos ainda mais razões para acreditar que o processo de recuperação, além de apresentar uma desaceleração, certamente será longo e duradouro.

Relacionados

Bolsonaro: economia formal se recupera enquanto informalidade está uma catástrofe

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou nesta terça-feira, 20, que a economia formal mostra sinais de recuperação enquanto a atividade [...]

Estadão - 20/04/2021

Foco da conversa é redução de desmatamento e não dinheiro, dizem EUA

O pedido de verba para financiar a proteção ambiental no Brasil tem sido colocado na mesa pelo governo Bolsonaro nas conversas [...]

Estadão - 20/04/2021

Biden diz que condenação de Chauvin pode ser passo para Justiça nos EUA

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, afirmou nesta terça-feira, 20, que a condenação do ex-policial Derek Chauvin pela morte de [...]

Estadão - 20/04/2021
Logo o guia financeiro

Entrar

Como deseja continuar?

Abra sua conta

Preencha os campos abaixo
ou use uma das opções