Quem ganha com as tensões comerciais?

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Se olharmos os dados da indústria dos EUA e da China, não há dúvidas: nos últimos meses, o setor americano tem sofrido muito mais do que o chinês. Para isto, basta ver os índices gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês), por exemplo. Este índice, baseado numa ampla pesquisa com empresas destes países, é uma espécie de termômetro da situação econômica e também dá pistas sobre aquilo que podemos esperar para os próximos meses. Acima dos 50 pontos, indica expansão à frente. Abaixo, o índice aponta exatamente o contrário. No caso dos EUA, o PMI do setor industrial está abaixo de 50 desde o mês de agosto. A queda desde o início de 2018 é brutal: naquele momento, estava acima dos 60 pontos. Na China, por outro lado, o PMI pouco tem se alterado nos últimos meses (embora venha há algum tempo oscilando próximo dos 50 pontos). As evidências sobre os danos à economia dos EUA não param por aí: um recente paper de economistas de Harvard, Chicago e do FED de Boston também concluiu que os estragos são grandes. Mas qual é a direção disso tudo?

Ao contrário do que disse via Twitter, o presidente Donald Trump, em março de 2018, as tensões comerciais não são boas e nem fáceis de ganhar. Naquele momento, a primeira rodada de tarifas sobre produtos chineses ainda não havia saído do papel. Passados mais de 18 meses, vimos mais tensão entre os países, alguns poucos momentos de esperança, mas insignificantes avanços concretos. No contexto atual, alguém consegue imaginar um cenário de mínima cooperação duradoura entre EUA e China? Difícil. Aliás, se olharmos numa perspectiva de médio prazo, parece que temos caminhado no sentido contrário à da cooperação internacional no período mais recente. E isto não se restringe aos EUA e à China. Com os líderes atuais, há espaço para maior otimismo na relação entre os países? Sobre este assunto, é também interessante escutar a opinião — um tanto negativa — do historiador Yuval Noah Harari, que esteve esta semana no programa Roda Viva, por exemplo. Segundo ele, estamos num período excepcionalmente pacífico no mundo, mas temos caminhado na contramão nos últimos anos. Num olhar mais prático, e mais ligado aos “mercados”, o jornalista Martin Wolf, do Financial Times, também abordou nesta semana, e com bastante ceticismo, a perspectiva de cooperação entre EUA e China. “Poderia ser muito melhor”.

Apesar destas perspectivas, os mercados têm sido impulsionados com as notícias mais favoráveis nas últimas semanas. Investidores esperam que os EUA voltem atrás, e que a ameaça de 15% em tarifas sobre US$156 bilhões em importações chinesas não saia do papel neste próximo mês de dezembro. Isto, é claro, tem sido positivo para as ações do índice S&P 500. Na Europa, o menor risco de tarifas americanas também contribuiu para a excelente performance do setor de autopeças, por exemplo. Desde o início de outubro, enquanto o índice Stoxx 600 subiu aproximados 8% (um número já bastante expressivo!), este setor subiu o dobro disto. Mas basta o noticiário mudar um pouco para que as bolsas recuem, é claro. Vimos isto nesta quarta-feira (13), por exemplo. Embora quedas bruscas possam ser consideradas “normais”, após ganhos de grande magnitude, concordo com a avaliação de Mike Mackenzie, do Financial Times: “Os mercados estão enviando uma mensagem clara no momento: reverter as tarifas como parte de qualquer acordo comercial China-EUA é essencial para manter o apetite ao risco”. É possível manter o fluxo de notícias positivo?

Em suma: no curtíssimo prazo, os mercados internacionais seguem num ótimo momento, e nas últimas semanas as perspectivas de acordo comercial entre EUA e China ajudaram às bolsas de EUA e Europa. Mas isto não quer dizer que estes países estejam ganhando com esta disputa, nem que estejamos muito próximos de acordos duradouros. Dados e estudos mostram que, nos últimos meses, há mais perdas do que ganhos (especialmente no caso dos EUA). E, numa perspectiva de mais longo prazo, ainda é muito difícil acreditar em uma maior cooperação internacional. Os mercados vão continuar atentos aos desdobramentos comerciais, podem continuar a subir no curtíssimo prazo, mas a relação risco-retorno para os próximos 12-24 meses não parece muito melhor do que era há poucos meses.

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