Cotações por TradingView

Por que você devia prestar atenção na política Covid Zero na China

Tempo de leitura: 5 minutos

Provavelmente você que abriu este artigo deve estar pensando: “com esse baixo número de casos e mortes pela covid-19, por qual motivo esse pessoal do Terraço está trazendo esse assunto de novo aqui? Não é praticamente um problema resolvido?”.

Bem, se você estiver pensando no cenário brasileiro, talvez seja o caso. Mas existem pontos diretamente relacionados ao resto do mundo que demandam muito mais atenção.

E se tem um ponto que demanda essa atenção de maneira bastante direta, esse ponto é a China.

O que é a política Covid Zero chinesa?

O nome é bastante direto, mas o efeito prático não deixa de ser impressionante: a partir dessa política, áreas da China que tiverem casos identificados passam a entrar em lockdown. E não seria um lockdown misto que permite que algumas atividades sigam ocorrendo, é um fechamento tão severo que as pessoas passam a receber mantimentos pelo governo de maneira direta. Literalmente a comida e os remédios chegam em porções individuais para as pessoas.

Não falamos aqui de uma cidade ou outra, mas de regiões muito populosas como Shangai (com mais de 25 milhões de pessoas e um centro financeiro enorme), em que a partir do momento em que casos são identificados ninguém mais pode sair de casa.

A justificativa principal alegada pelo gigante asiático para uma política tão extrema mesmo diante de um avanço considerável da vacinação no mundo todo seguida de uma forte queda de casos e mortes se dá pela baixa vacinação doméstica em idosos. Diante dessa vulnerabilidade, a China opta por uma medida que pode soar extrema para o resto do mundo, mas aos olhos dos tomadores de decisão chineses faz sentido de ser colocada em prática.

Como essa política afeta o mundo?

Podemos separar os efeitos dessas medidas em três extensões: a economia chinesa em si, as relações logísticas com o resto do mundo e como isso já traz efeitos no curto prazo.

Economia chinesa: PMI caindo

Olhando diretamente a economia chinesa, uma proxy que pode ser utilizada é o PMI. Essa sigla traz em um número o quanto as empresas de manufaturas estão se movimentando, e o número é formado entre os seguintes itens: 30% de novas ordens, 25% de produção, 20% de geração de empregos, 15% do tempo de entrega dos produtos e 10% de novos itens adquiridos para o estoque. Quanto este índice está acima de 50, significa que o mercado está se expandindo em relação ao mês anterior, mas se estiver abaixo disso, está contraindo.

No pior momento da pandemia, que coincidiu também com o pior número já registrado no PMI desde 2011, o número era de 40,30. Os dados mais recentes mostram esse número em 46 (que, olhando os últimos vinte e cinco anos, é um número que só foi superado justamente pelo pior momento da pandemia).

Em bom português: o setor industrial da China está contraindo neste momento.

Cadeias globais: 2020 de novo?

Quando olhamos as cadeias globais de suprimentos, vamos voltar um pouco ao que vimos acontecer no ápice do susto com a pandemia, ainda no primeiro semestre de 2020. Ninguém sabia de verdade o que se passava e, por isso, tudo parou, fechou de uma hora para a outra. O efeito, alguns trimestres depois, foi de verificarmos que algumas cadeias ficaram desbalanceadas.

Imagine a seguinte situação: um produto que precisa de algumas peças vindas da China, outras da África do Sul, alguns dos Estados Unidos e é montado na Zona Franca de Manaus. Se qualquer um desses pontos que suprem essa produção parar, toda a montagem no ponto final também ficará parada.

Se isso parecia algo superado (ou ao menos que estávamos no caminho de superar), observe com atenção a imagem abaixo, que foi apresentada em 08 de maio de 2022 no Twitter:

Lembra de tudo aquilo que vivemos em 2020 a respeito de paralisação de cadeias e que estava apresentando efeitos até os dias atuais?

Ainda não sabemos em qual magnitude, mas, sim, infelizmente vamos viver tudo aquilo novamente.

Já está acontecendo agora

Na semana passada a montadora Volkswagen anunciou férias coletivas para 2,5 mil funcionários em sua unidade de São Bernardo do Campo. O motivo? Por falta de semicondutores não é possível seguir com a produção dos automóveis.

Pare para pensar em quantas cadeias nesse exato momento estão com dificuldades presentes ou muito próximas de ocorrer justamente em função desse fechamento praticado agora na China.

Lições aprendidas – ou nem tanto

Um dos grandes aspectos que teoricamente ficaram de lição do que observamos na pandemia iniciada em 2020 e que nos acompanha até hoje é que a concentração de investimentos industriais majoritariamente em uma região do mundo pode não ser a melhor escolha.

Sim, o mundo delegou à China nas últimas décadas a missão de ser a fábrica global. Basicamente tudo que é produzido hoje em dia passa, em alguma etapa, por solo chinês, direta ou indiretamente. Essa escolha provavelmente aconteceu porque o resto do mundo não tinha tanto interesse assim em lidar com as externalidades de um ambiente mais poluído e gerador de resíduos. “Melhor deixar isso lá na Ásia do que por aqui”, muitas empresas e governos pensaram por muito tempo.

Porém, dado que a possibilidade de existirem problemas como esses (de novas pandemias) não é desprezível e que o sistema de informações da China costuma ser no mínimo questionável e pouco verificável, a vantagem de manter as estruturas econômicas industriais com a concentração que observamos nas últimas décadas faz cada vez menos sentido.

O que podemos esperar, mesmo que demore um certo período de tempo para acontecer, é que investimentos produtivos sejam desconcentrados da potência asiática. Porque, convenhamos: se 2020 não foi o suficiente para deixar claro sobre como essa concentração é perigosa (ainda mais onde informações podem gerar desconfiança em magnitude tão forte quanto lá), certamente 2022 trará ensinamentos ainda mais dolorosos.

A inflação temporária mais permanente em muitas décadas vai seguir adiante. E, independente de você confiar ou não nas razões da China, essa inflação tem e ainda terá muita relação justamente com a política Covid Zero praticada lá.

Relacionados

O limbo decisório da Petrobras

Em menos de 40 dias tivemos duas trocas de presidência na Petrobras. O motivo, como muito se especula, é a política [...]

Terraco Econômico - 25/05/2022

A diferença fundamental entre ruídos e mudanças estruturais nas projeções econômicas

Todas as pessoas que já passaram por qualquer processo de terapia sabem de uma coisa importante: mais do que preocuparmo-nos com [...]

Terraco Econômico - 23/05/2022

Dividendos x juros sobre capital próprio: o que são e como compor a carteira com eles?

A negociação de ações está entre as possibilidades de investimento para quem visa obter ganhos na bolsa de valores. No entanto, [...]

Guide Investimentos - 20/05/2022
Logo o guia financeiro

Entrar

Como deseja continuar?

Abra sua conta

Preencha os campos abaixo
ou use uma das opções