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Política monetária não é mágica

Tempo de leitura: 5 minutos

Iniciamos no Brasil o ano de 2021 com 2% de taxa básica, a Selic. Em decisão recente, vimos o Comitê de Política Monetária aumentar essa taxa a 9,25%. Esse aumento de quase cinco vezes dentro do mesmo ano é histórico e aponta para um fato que não podemos jamais esquecer: política monetária faz diferença, mas não faz o trabalho sozinho.

Existe uma anedota que diz que a melhor maneira de saber onde as expectativas econômicas do Brasil não vão estar no final de um ano é olhando para o primeiro Boletim Focus do mesmo ano, tamanha a diferença que se vai encontrar. Olhando especificamente para a inflação e para os juros, é assustador o que vimos depois: previam-se de IPCA cerca de 3,35% e de Selic 3,25%. Terminaremos o ano com um IPCA em dois dígitos e a Selic de 9,25% já mencionada.

Entre discussões sobre o Banco Central ter atrasado para subir juros ou não, choques de preços ao produtor terem sido repassados (já que o IGP-M chegou a superar 30% em 12 meses nesse período), câmbio tendo pressionado e aspectos fiscais que não andaram como se esperava, chegamos a uma pergunta importante neste fim de período: quão eficaz é a política monetária?

Efeitos demoram a chegar e também a sair

Mesmo diante de uma elevação tão considerável nos juros há quem pense que nada disso esteja adiantando, levando em consideração que a inflação segue em elevação. Mas não se pode esquecer que os efeitos de aumento de juros são mais alongados do que inicialmente se espera.

Para não ficar no economês, vamos a um exemplo bastante direto, o do setor imobiliário. Quem, em janeiro de 2021, procurou um financiamento de longo prazo para um imóvel, pode ter encontrado alguma taxa que beirava os sete ou até oito por cento ao ano, com uma Selic de 2%. Quem em janeiro de 2022 tiver a mesma ideia, a não ser que consiga algum subsídio ou oportunidade muito boa do tipo, dificilmente encontrará o mesmo tipo de financiamento sem uma taxa em dois dígitos, talvez até no dobro do valor de um ano antes.

Esse exemplo serve para lembrar que, não, os juros não afetam o curtíssimo prazo porque eles vão sendo incluídos no custo do dinheiro conforme vão sendo elevados a quem vai utilizar o dinheiro alheio (via empréstimo ou financiamento) nesse período. Ou, mais diretamente: ninguém vai chegar ao sortudo de janeiro de 2021 e dar a má notícia que o azarado de janeiro de 2022 irá receber.

A conta entre subida e descida dos ativos reais

Com uma quantidade maciça de dinheiro na economia global, você já leu ou ouviu por aí que esse dinheiro todo circulando vai para os ativos reais, como os imóveis e tudo aquilo que se possa comprar ou vender na economia real. De fato, esse movimento tem acontecido e é fácil perceber, basta olhar justamente o preço subindo de imóveis, carros e até mesmo itens como relógios, bolsas e jóias.

Porém, lembre-se daquela conta clássica das aulas de matemática financeira: o valor presente de algo é o valor futuro daquilo descontado a alguma taxa de juros. Nem é preciso pegar o papel e a caneta para a seguinte conclusão: se por um lado o valor de hoje aumenta porque o valor futuro tem aumentado (já que os ativos reais têm ganhado cada vez mais destaque, como citamos agora pouco), por outro lado os juros subindo fazem com que se aumente esse desconto do dinheiro ao longo do tempo. A valorização ao longo do tempo vem para os ativos em que o primeiro lado é preponderante ao segundo.

O problema é quando exageros acontecem e a correção pode ser dolorosa. Veículos populares a oitenta mil reais (tendo entrado o mesmo ano com valores pelo menos vinte mil reais abaixo disso) são um desses exageros: o que vai acontecer quando as pessoas pararem para pensar que vale mais a pena segurar os veículos atuais do que trocar por novos é pouco trivial para quem produz carros – mas provavelmente será uma queda sensível na produção acompanhada de um preço que deve variar muito pouco por um período mais esticado de tempo.

O que nos reserva 2022?

A notável alta de juros que verificamos em 2021 deve ser bem mais suavizada no próximo ano: diversas previsões, também no Boletim Focus, sinalizam que a chamada taxa terminal (aquela que fecha o ciclo de subida da Selic) deve estar entre 11,5% e 12%. Como bem discutimos anteriormente, é bom lembrar que essa é a visão atual, não a que necessariamente acontecerá, sobretudo em um ano em que os riscos eleitorais e fiscais seguirão assombrando os mercados.

Porém, algo inverso ao que verificamos ao início de 2021 pode acontecer: o efeito dos juros sobre a economia real (desacelerando-a) podem ser tão notáveis que os reclames anteriores de “sobe logo esses juros porque a inflação tá batendo na porta” virarão “vocês subiram demais os juros e agora teremos recessão”.

Aprendizado para o futuro

No fim das contas, fica uma grande lição para a autoridade monetária brasileira: o compromisso de um Banco Central é com sua missão principal de longo prazo (no caso brasileiro é a estabilidade dos preços), não com as pressões de curto prazo. E não se trata de ignorar alertas de que há fogo na floresta, mas ruídos que te levam a pensar que isso realmente está acontecendo sem estar.

Infelizmente, o retorno à credibilidade demora mais do que a perda dela – muito, muito mais. Até que isso torne a acontecer e a palavra do Banco Central volte a ter peso, provavelmente teremos os juros em um patamar superior ao que poderíamos e desejaríamos ter, o que vai encarecer o custo do dinheiro e, consequentemente, endurecer a economia.

Ser firme não significa ser ignorante ao que se passa, mas ter a certeza de que as decisões que são tomadas hoje têm objetivos claros amanhã. Ou, se quiser um caso bastante ilustrativo, fazer como Ilan Goldfajn fez e contou em seu episódio do podcast Casa das Garças.

Comunicação com o mercado é uma necessidade que traz a autoridade monetária para o mundo real, mas jamais pode ser confundida com submissão ou mesmo consulta direta do que fazer. E o motivo é bastante simples de entender: vivemos os resultados em 2020 de uma queda nos juros mais alongada do que se sustentava, em 2021 uma alta colossal e em 2022 diversos questionamentos sobre essa alta ter sido necessária ou superior ao que se precisava de verdade.

Resta saber se, ao final do próximo ano, haverá algum aprendizado ou o Banco Central esperará o próximo Boletim Focus para ver o que fará na próxima reunião.

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