Para onde vai a inflação em 2021?

Tempo de leitura: 4 minutos

Como bem se sabe, a dinâmica dos preços locais tomou forma bastante surpreendente ao longo de 2020. Em consonância com a paralisação da atividade no início do ano, o IPCA – índice de inflação de referência – apresentou tendência baixista nos momentos mais agudos da crise para depois de acelerar de forma acentuada ao longo do segundo semestre do ano, em linha com o ininterrupto processo de reabertura econômica.

A forte – e inesperada – retomada da demanda doméstica, auxiliada por uma gama de estímulos monetário e fiscal, excedeu em muito a retomada da oferta, causou uma série de desequilíbrios ao longo das cadeias produtivas e criou pressões inflacionárias relevantes. A elevada cotação da taxa de câmbio, fruto de uma política monetária frouxa e uma política fiscal ineficaz, tem, a despeito de elevado nível de ociosidade, intensificado estas pressões, principalmente no que diz respeito à categoria de alimentos e bebidas, mas também em relação à alguns produtos industriais.

Há tempo, sabe-se que a inflação de preços é, em essência, resultado da pressão da demanda sobre a oferta e vice-versa e das expectativas inflacionárias dos agentes econômicos. Assim, para ter uma noção de que forma se comportará a inflação devemos formular hipóteses sobre o comportamento de ambos estes fatores. Em essência, queremos responder se existem mais fatores que forçariam os preços a acelerar (inflação) ou desacelerar (desinflação).

Comecemos pelo primeiro. Como exposto, a economia brasileira entre em 2021 com um desequilíbrio de preços ocasionado por um excesso de demanda sobre a oferta. Com isto, devemos indagar: este desequilíbrio tenderá a persistir?

Devido à retirada de diversos estímulos ficais, em específico, a extinção do auxílio emergencial, entendo que, já a partir do início do ano que vem, o excesso de demanda será encurtado. No limite, a volta à agenda de ajuste fiscal tende a ser contracionista a curto prazo e causa uma retração da demanda, aliviando a pressão sentida em um ambiente de oferta reduzida. A retirada de boa parte dos estímulos fiscais manifestará com maior clareza as pressões desinflacionarias providenciadas por uma economia que segue operando com capacidade ociosa, principalmente no que se refere ao estado de mercado de trabalho. Ainda, o contínuo e ininterrupto processo de reabertura, conjugada às altas recentes dos preços, também tendem a influenciar positivamente a retomada da oferta, criando pressão baixista adicional sob a queda de demanda.

Ou seja, em termos de interação entre oferta e demanda, acredito que a inflação terá um vetor baixista, contando com a dupla interação de redução de demanda com aumento de oferta em meio a um ambiente de elevada capacidade ociosa, especificamente, no setor de serviços.

Expectativas da inflação

Além de reagir ao próprio ambiente concreto da economia, as expectativas de inflação estão intimamente ligadas ao desenrolar da política fiscal. Isto é, reagem diretamente à elevação ou redução do risco fiscal. Quanto maior for o risco fiscal, seja pela insegurança em torno da manutenção do teto de gasto ou avanço das reformas estruturantes, mais as expectativas de inflação, assim como a inflação efetiva, tendem a acelerar. A variável de conexão é o câmbio. Incertezas fiscais, se persistentes, tendem a depreciar o real ante o dólar, criando terreno para que os produtos locais sofram um aumento de preços devido ao encarecimento de produtos e insumos importados. 

Se levado ao paroxismo, o risco fiscal pode nos levar a uma situação de dominância fiscal. Situação na qual, diante de pressões inflacionárias crescentes, a política monetária perde sua potência. Neste caso, aumentar a taxa de juro, na medida em que aumento o custo de financiamento do estado e com ele a probabilidade de default, deprecia a taxa de câmbio e acelera as expectativas de inflação e, portanto, a própria inflação. Entretanto, este não é o cenário básico. Para que isto ocorra, os formuladores de política fiscal teriam que abandonar o teto de gastos, rejeitar a disciplina fiscal e ignorar veementemente o processo de ajuste das finanças públicas. 

Acredito que, devido ao bom clima para aprovar medidas de ajuste no Congresso, as reformas fiscais ganharão tração ao longo do ano, reduzido o risco fiscal e colocando pressão baixista sobre as expectativas de inflação e a taxa de câmbio. Isto tende a criar mais espaço para as pressões desinflacionarias que ocorrerão na esfera da economia real.

Em suma, a despeito da aceleração recente da inflação, acredito em uma normalização do descompasso entre oferta e demanda decorrente da retirada dos estímulos fiscais e retomada da oferta em meio à alta de preços e continuidade no processo de reabertura. As expectativas de inflação tenderiam a cair com a queda do risco fiscal e da taxa de câmbio.

Relacionados

EUA: democratas enfrentam prazo cada vez mais curto para aprovar pacotes

O Partido Democrata ainda não chegou a um consenso sobre como reduzir o pacote de gastos que prevê recursos para expandir [...]

Estadão - 17/10/2021

'Se contivermos contágio da Evergrande, preveniremos risco sistêmico', Yi Gang

O presidente do Banco do Povo da China (PBoC, na sigla em inglês), Yi Gang, afirmou neste domingo que as autoridades [...]

Estadão - 17/10/2021

Ex-presidente americano Bill Clinton recebe alta após tratar infecção

Internado desde terça-feira, o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton recebeu alta neste domingo, 17, segundo Angel Ureña, seu porta-voz. Clinton [...]

Estadão - 17/10/2021
Logo o guia financeiro

Entrar

Como deseja continuar?

Abra sua conta

Preencha os campos abaixo
ou use uma das opções