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Os desafios do COPOM no cenário atual

Se uma pessoa, por mais bem-intencionada que fosse, te falasse em meados de 2016 que em 4 anos teríamos uma taxa SELIC rodando a casa dos 3%, com a taxa real (desconsiderando a inflação) próxima a zero, você certamente não seria levado a sério. Naquele momento, os juros batiam o valor de 14% ao ano, gerando uma taxa real na ordem de 8%, elevando sobremaneira o pagamento de juros da dívida pública, encarecendo empréstimos na economia. Mas isso fazia a festa do poupador, que investia praticamente sem risco na renda fixa.

Passado um impeachment, um governo tampão e uma eleição extremamente polarizada, nos encontramos agora no olho de um furacão denominado Covid-19. Durante esse período, saímos de uma taxa de juros de dois dígitos, como comentado acima, para a faixa dos 3%, com uma nova redução encomendada para a próxima reunião do COPOM, sendo o consenso do mercado de mais 0,75 p.p, resultando em uma taxa final de 2,25% a.a. O gráfico abaixo fornece todo o histórico do sobe e desce da SELIC nos últimos 10 anos:

Fonte: https://bit.ly/3gzSIzE | Banco Central do Brasil. Elaboração: Terraço Econômico.
O gráfico pode ser reproduzido desde que colocada a fonte/elaboração.

Interessante destacar os momentos marcados no gráfico acima, respectivamente: (i) início do primeiro governo Dilma; (ii) início do segundo governo Dilma; (iii) afastamento de Dilma do governo, após votação da câmara de deputados; (iv) início do governo Bolsonaro e; (v) início dos casos de Covid-19 no Brasil. Fica evidente no gráfico acima como foi mal sucedida a redução da taxa de juros no primeiro mandato do governo Dilma, sob a égide de Alexandre Tombini. A taxa ficou próxima de 7%, mas logo subiu para o patamar de 14%, quando a inflação começou a mostrar descontrole (em 2015, o IPCA foi de dois dígitos, chegando a 10,7% no ano).

Desde então, os banqueiros centrais seguintes, Ilan Goldfajn e Roberto Campos Neto, têm tido êxito em ancorar as expectativas inflacionárias, o que dá maior flexibilidade na queda contínua dos juros. Há méritos indiscutíveis da melhoria da credibilidade do BC, mas não podemos deixar de mencionar o cenário adverso provocado pela pandemia de coronavírus, que praticamente travou a “roda” da economia em todo o mundo. Com isso, a maioria dos bancos centrais reduziram suas taxas, senão para zero, para bem próximo disso. No caso do Brasil, que roda com uma inflação na faixa dos 4% nos últimos anos, o juro nominal poderia ficar nesse patamar também.

Ocorre que a expectativa para a inflação em 2020 vem caindo a cada novo Boletim Focus, e agora está previsto para 1,5%, o que dá margem para novas quedas da SELIC. Isso, em tese, poderia reanimar a produção, mas na realidade, tem a missão de que o produto não caia tanto, uma vez que as previsões para 2020 para o PIB já sinalizam uma retração de 6%.

Por outro lado, o ponto não intuitivo dessa queda pronunciada de juros é o nosso lado fiscal. Você que lê esta coluna já sabe disso, mas não é demais relembrar: 2020, mesmo antes dos desembolsos adicionais em virtude do coronavírus, já teríamos o sétimo ano seguido em déficit primário. Termos chegado a essa situação com um fiscal tão danificado sinaliza fortemente que, com uma taxa de juros ainda menor (e juros reais próximos de zero ou até abaixo disso), há um risco real de que a rolagem da dívida não ocorra de maneira tão tranquila. O governo oficialmente nega que esse risco seja relevante, mas não se pode deixar de fora esse fator de dificuldade sobre as próximas decisões do COPOM.

Dessa forma, o grande desafio do Banco Central é manejar com destreza os juros para possibilitar uma retomada da economia no meio ou no final de 2020, mas sempre sem esquecer de sua razão de existir, do seu mandato, que é o de entregar a inflação na meta. Pelo que os dados mostram, essa tarefa está muito bem encaminhada, algo que possibilita o BC olhar para um horizonte mais longo e menos conservador.

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