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Ômicron e o real perigo das novas variantes

Tempo de leitura: 7 minutos

Tivemos na última sexta-feira, 26/11/2021, um evento que movimentou o mundo todo e deixou muita gente apreensiva, ou no mínimo nervosa e ansiosa. Não, não estamos falando da Black Friday, mas de uma nova variante dentro da atual pandemia, chamada de Ômicron, que chacoalhou os mercados no mundo todo de maneira que fez com que muitos de nós pensássemos: começou tudo outra vez?

Mais importante do que pensar sobre o que essa variante em específico significaria – e, lembre-se, você está em uma coluna de economia, política, negócios e belas indicações, não de medicina e saúde -, vale refletirmos sobre alguns pontos que ainda nos acompanharão pelos próximos tempos.

Vacinação provavelmente será anual… Em todo lugar?

Nós, brasileiros, temos há muitas décadas – na verdade, mais de dois séculos -, não só o conhecimento como também o hábito de que vacinas importam e resolvem muitos problemas. Só para se ter uma ideia, o símbolo máximo disso por aqui, conhecido como Zé Gotinha, é de 1986, quando tivemos naquela época uma grande campanha de vacinação em gotas contra a paralisia infantil. Assim sendo, falar em vacinação anual (tal qual vemos sobre a gripe, por exemplo) não será problema.

A mesma coisa não pode ser necessariamente dita sobre muitas outras partes do mundo, onde movimentos antivacina são, para além de histriônicas brigas de redes sociais, uma realidade que traz problemas concretos. Para se ter uma ideia, o episódio do início de novembro de 2021 do podcast Bloomberg Intelligence se debruçou sobre a possibilidade de uma vacinação anual pensando sobre como esses movimentos reagiriam – por exemplo, desacreditando os reais benefícios da vacina.

Em se tratando de uma doença que passa pelo ar, inclusive por quem está contaminado e sequer tem sintomas, a imunização, quanto mais ampla for, é a melhor das tratativas que podemos pensar atualmente. Felizmente existem remédios sendo trazidos e testados, como de Pfizer e Merck, mas ainda assim eles servirão para evitar o avanço da doença em cada pessoa. Imaginar que já tem remédio e portanto nenhum cuidado seria necessário é quase igual a ver uma casca de banana e ficar aliviado de tropeçar porque está próximo de um hospital (“pelo menos eu já resolvo tudo em uma tacada só”).

Não chame de pós algo que não acabou ainda

Vivemos uma pandemia. Isso você, leitor, já está plenamente consciente. O que ainda pode surpreender é o fato de que estejamos tratando como se não fosse essa a realidade e, no final, isso é muito perigoso. Não se trata de alarmismo, mas de lidar com a realidade: ainda não existe, nem da OMS e de nenhuma autoridade em saúde no mundo, algum direcionamento de que vencemos essa pandemia e ela estaria agora em estágio de endemia.

É importante relembrarmos isso porque, apesar de em alguns setores já termos visto uma normalidade completa – e é possível acompanhar diversos setores no The Normalcy Index da Economist -, essa está longe de ser a realidade, seja no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. Se não fosse esse o caso, não estaríamos vendo diferentes países, como a Alemanha, passando apuros, com internações nos maiores níveis desde o começo da pandemia.

Um péssimo hábito dos economistas (e, confie, temos lugar de fala nesse assunto, nós autores dos artigos que você lê nessa coluna também somos) é o de cravar certezas sobre o que não se pode ter certeza. A atual pandemia, infelizmente, ainda é um desses casos em que não é possível confirmar que algo acabou, simplesmente por ainda não ter acabado.

Variantes novas e o que impacta de verdade

Por mais que aqui você não esteja lendo um artigo sobre saúde, dois aspectos são importantíssimos de ficar de olho quando o assunto forem as novas variantes dessa pandemia: em primeiro lugar, se a transmissão é mais rápida ou menos rápida e, em segundo, se as vacinas atuais conseguem ou não oferecer proteção a isso. Novas variantes irão surgir enquanto o vírus circular pelo mundo, independente da magnitude em que ele o faça – e é essa a importância real de acelerarmos ao máximo a vacinação enquanto o que temos protege ao que existe.

Sobre o primeiro caso, se relaciona com a capacidade de atendimento hospitalar e eventual necessidade de expansão da rede para lidar com novas ondas da doença. É muito ruim pensar nisso, mas como o que vivemos não acabou, não podemos deixar de lado o cálculo triste de quanto tempo demoraria para expandir a rede hospitalar de campanha novamente, em caso de necessidade.

Em relação ao segundo, demanda ainda mais atenção: imaginando um cenário em que uma nova variante escape das vacinas atualmente disponíveis, levando em conta que os pacientes com ela não sejam devidamente isolados e acompanhados, é quase como se a maior corrida vacinal da história da humanidade (aproximadamente oito bilhões de doses aplicadas globalmente até o fim de novembro de 2021) começasse do zero novamente.

Sim, a Pfizer já afirmou que em 100 dias conseguiria produzir vacinas que abracem novas variantes. Mas, já parou para pensar que isso pode acontecer inúmeras vezes? Não seria mais negócio tentar a imunização com o que temos hoje e nos proteger do que existe hoje do que ficar torcendo para inúmeras reprogramações vacinais para nos protegerem do que ainda nem sabemos?

Antes de fugir para as montanhas ou cravar que nada vai acontecer, fique sempre de olho, quando o assunto forem novas variantes, nestes dois pontos.

O Brasil está seguro, mas se vacilar…

Quando a campanha de vacinação começou lá fora, na virada de novembro para dezembro de 2020, e tínhamos aqui na liderança do Executivo Federal alguém que sequer entendia a pressa em querer que a vacinação começasse, muitos de nós pensaram “o mundo vai sair mais rápido dessa situação do que a gente”. Hoje, quase entrando em dezembro de 2021, temos uma cobertura vacinal no Brasil superior ao que se tem nos EUA e em países ricos da Europa, inclusive com a terceira dose já acontecendo para todos os adultos. Sim, estamos muito mais seguros no fim de 2021 do que estávamos na mesma época em 2020.

Porém, nem tudo são flores. Pedimos desculpas de antemão pela insistência, mas, em se tratando de uma doença que passa pelo ar mesmo e é transmitida mesmo por quem sequer sabe que está com ela, não podemos baixar a guarda enquanto a situação não for razoavelmente encaminhada em parte relevante do mundo. Trata-se de uma doença que teve até agora mais de 260 milhões de casos e cerca de 5,2 milhões de mortes, segundo os dados coletados globalmente.

Em relação a isso, vale ficar atento ao que nosso país toma de decisão em relação a dois pontos em específico: a entrada no país de pessoas que venham de países onde os casos estão em alta e a política de testagem. Sobre o primeiro ponto, as fronteiras já estão sendo fechadas para alguns países da África (de onde vem essa nova variante), mas o acompanhamento não pode parar aí.

O que não tem diagnóstico não permite ação

Imagine a seguinte situação hipotética. Você, já vacinado com duas doses e nas proximidades de tomar a de reforço, levanta-se para trabalhar em uma segunda-feira e, antes de sair de casa, faz um teste rápido para o coronavírus. A depender do resultado encontrado, irá trabalhar normalmente ou avisará a empresa que nessa semana não poderá ir porque está contaminado e, dessa forma, por medida de segurança, não irá ao trabalho para não passar adiante a doença. Foi preciso pedir para que você imaginasse isso porque a realidade está infelizmente bem distante disso, certo? Caso você tenha feito alguma testagem, por qualquer que seja o motivo, dificilmente viu o preço deste teste ser inferior a algumas dezenas de reais.

Agora voltemos para a realidade. O Brasil realmente sabe quais são os casos que existem, ou seguimos testando apenas quem acaba parando no hospital ou é estritamente demandado a isso? Esse assunto tem estado em baixa ultimamente, graças aos números também baixos de casos e mortes pela doença – o que é muito positivo -, mas não pode ser deixado de lado.

Cuidado com o viés da certeza!

Não encare esse artigo como uma espécie de esticar da ressaca do fim de semana, mas como um alerta: chamar de “situação resolvida” o que ainda acontece sinaliza que iremos baixar a guarda perigosamente diante de avanços dessa situação ao redor do globo.

Ou, mais diretamente, como diz aquela clássica frase que faz (ao menos deveria fazer) refletir sobre as perigosas certezas da vida:

“O que nos causa problemas não é o que não sabemos, mas aquilo que temos certeza que é verdade.”Mark Twain  

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