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Olho nos juros do Tio Sam em 2022

Tempo de leitura: 7 minutos

Quando o mundo passa por um evento tão diferente do esperado quanto uma pandemia, muito do que parecia óbvio parece sumir de vista. Para evitar um virtual congelamento de transações globalmente, a ideia dos bancos centrais de todo canto foi injetar liquidez na economia. Como bem sabemos, períodos extraordinários demandam medidas extraordinárias.

Porém, tal qual aqui no Brasil, antes da pandemia já existiam outros problemas relevantes a serem lidados, sobretudo quando o assunto é a política monetária no mundo. E, sim, o banco central da economia mais relevante do planeta não fica de fora dessa.

Uma normalização que nunca chega

A crise global de 2008 arrastou o mundo para um movimento de injeção de liquidez. Esse aumento ficou focado aos locais em que as restrições poderiam causar problemas mais severos, como nos EUA, em que um banco centenário (o Lehman Brothers) havia acabado de ir à falência justamente por ter zerado sua possibilidade de se manter em pé.

Naquela época, um pacote imenso de cerca de US$700 bilhões foi assinado pelo então governo Bush e efetivado por seu sucessor, Barack Obama. Neste pacote houve sustentação para diversos setores para além do bancário, como o de seguros e até o de automóveis.

O impacto daquela crise foi tão grande que ela, até hoje, apenas foi comparável ao crash de 1929. O receio de que a economia não conseguiria se sustentar foi tamanho que a ideia foi a de seguir fornecendo sustentação, por meio do FED, de maneira contínua e mais alongada. Ficou na cabeça quando é que começaria a ocorrer o tal de tapering.

Mas o que é tapering?

Tapering é, de maneira geral, a redução desse incentivo feito aos mercados por meio de compras de títulos realizadas pelo banco central – no caso, o dos Estados Unidos. Evitando que mercados ficassem sem compradores para determinados títulos, o FED passou a comprá-los para tirá-los de circulação, o que resultava em aumento de seu próprio balanço.

Para se ter uma ideia do tamanho desse impacto ao balanço do FED, pouco antes da crise de 2008 se iniciar seu balanço era de cerca de US$850 e US$900 bilhões. Em 2010, com uma injeção imensa de dinheiro em função da crise, ele rumou para US$2,3 trilhões. O ápice desse movimento de aquisições se deu ao final de 2014, quando o total de ativos chegava a cerca de US$4,5 trilhões.

Entre o final de 2014 e o primeiro trimestre de 2017 o valor total dos ativos permaneceu quase no mesmo patamar e, logo em seguida, o FED começou um programa de redistribuição desses ativos ao mercado, o que durou até mais ou menos setembro de 2019, quando o balanço já chegava a aproximados US$3,75 trilhões.

Efeito pandemia: balanço cresce enormemente

Entre setembro de 2019 e março de 2020 praticamente todos os esforços de redução do tamanho do balanço haviam sido revertidos: estávamos de volta a US$4,25 trilhões. Chegamos então ao momento de uma subida vertiginosa e quase inacreditável, que fica mais fácil de ser visualizada no gráfico do próprio FED:

Gráfico crescente
Número total de assets do Banco Central Americano

O aumento que você verifica no gráfico acima de cerca de US$4,1 trilhões a US$7,15 trilhões demorou três meses para ocorrer. Houve uma leve redução para US$6,95 trilhões em julho, mas tornou a subir paulatinamente e hoje já supera US$8,65 trilhões. Os números são tão elevados que podem até provocar vertigem em alguns leitores – e é normal, também provoca em quem aqui vos escreve.

Tá, e qual a problemática disso?

Segundo a teoria macroeconômica da moeda mais tradicional, quando se aumenta a oferta de moeda na economia, os preços sobem. Trazendo para o bom português: se há mais dinheiro na praça, há mais inflação também.

Durante um certo período de tempo entre a crise de 2008 e o pré-pandemia, uma teoria que buscava chamar a atenção para que um fenômeno estava ocorrendo: a economia global estava inundada em crédito dos bancos centrais e nem por isso a inflação agora era um problema. Teríamos chegado ao paraíso perfeito em que ampliar a oferta de moeda não muda os preços?

Sendo a economia uma ciência aberta e passível de mudanças ao longo do tempo em muitos de seus dogmas, é possível afirmar que talvez seja muito cedo para cravar que esse mundo ideal aconteça. Até porque, com os EUA registrando 6,8% de inflação ao consumidor – a maior inflação do tipo em 40 anos -, fica difícil defender que a forte ampliação da liquidez teve efeitos nulos sobre isso.

A grande dificuldade agora é observar o que acontece no caminho de volta disso tudo, sobretudo em relação a quando ele começa, quanto tempo irá durar e o que significará para a liquidez global em seguida.

O que o FED sinalizou?

São dois os pontos de atenção: o encerramento do programa de compras de ativos (que aumentam o balanço) e o aumento da taxa de juros (que reduzem mais diretamente a oferta de moeda encarecendo o custo do dinheiro).

Em relação ao primeiro ponto, o FED sinalizou que a redução das compras feitas atualmente deve fazer com que até o primeiro trimestre de 2022 (logo ali) a autoridade monetária dos EUA não compre mais ativos. Sobre o segundo, analistas preveem, por mensagens do próprio banco central, que aumentos devem ocorrer a partir do meio do ano, podendo ser dois ou até três dentro de 2022.

Esses dois movimentos significam para o resto do mundo que a festa da liquidez está chegando ao fim, diferentemente do que aconteceu em outras tentativas de redução desse mar em todo o globo.

O que pode fazer o FED mudar de ideia?

Atualmente o maior vetor de ação para que o FED acelere o fim do programa de compras e suba os juros em 2022 é a inflação: com uma meta que é de 2%, já citamos anteriormente que hoje o observado em 12 meses é quase três vezes e meia isso. Em itens mais impactantes, no mesmo período, tivemos uma alta de mais de 30% no grupo de energia e ligeiramente superior a 6% nos alimentícios, como podemos ver neste gráfico do US Bureau of Labor Statistics:

Gráfico em barra colorido em que todos os itens estão entre 0 e 10 e energia está acima de 30
Gráfico da inflação nos últimos 12 meses

Assim sendo, uma inflação persistente pode manter o ritmo do FED em seguir com seus planos de enxugamento da liquidez.

O que pode colocar um freio nessa ideia está dividido em duas possibilidades: a de uma queda brusca na inflação (que sinalize que a economia entrará em recessão) e a mudança da meta de inflação ao consumidor por lá para 3% ao ano.

É possível observar que, com os dados que temos hoje, as duas têm possibilidade baixa, dado que a previsão para o PIB em 2022 nos EUA é de pelo menos 3% e a mudança no centro da meta seria vista com muitos maus olhos pelo mercado de lá (quase como uma leniência autorizada para a inflação).

Saída não trivial: apertem os cintos

Tal qual um evento que chacoalha as estruturas, como iniciamos falando neste artigo, a saída de medidas tomadas para que ele pudesse ser contido também são não triviais. O que se pode esperar com uma redução brusca da liquidez pode ser mais difuso do que a maioria das previsões pode apontar.

Em todo caso, podemos esperar que essa movimentação faça com que ocorra uma verdadeira corrida para ativos mais seguros ou que estejam em países que ofereçam maior segurança e a liquidez deixe de estar em todos os lugares.

Com uma analogia festiva, dado que nos aproximamos das festas de fim de ano: imagine uma pirâmide de taças de cristal que recebe uma quantidade indefinida de champanhe; as taças superiores receberão sua parte, derramarão para as da faixa central e o líquido chegará até as que estão na base; quando esse líquido parar, ficarão “garantidos” apenas os que estiverem mais para cima e, quanto mais para baixo, menor a chance de receber um gole.

Sabe aquela importância que todo economista sério no Brasil fala há muitos anos de se arrumar a casa, tanto do lado fiscal quanto monetário? Pode ser que, em um momento não trivial (e que deve demorar anos, talvez até décadas para ser finalizado), quem deixou para arrumar o telhado quando a tempestade chegou pare de ver estrelas e comece a sentir as gotas caindo.

Vai dar tempo da Casa Brasil se salvar dessa tempestade? Vale seguir acompanhando as cenas dessa não trivial novela chamada Redução de Liquidez Global.

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