O “levantador” Guedes

Fora o esforço – imperfeito, é verdade – de aprovar reformas econômicas de suma importância, outra característica consensual acerca do governo Bolsonaro é a presença dos “levantadores”. Levantador, que no vôlei é uma posição de jogo, no jargão popular do mundo da política pode ser o indivíduo que propicia um “bom ataque” ao adversário.

 

Desde o início, o que não faltou no governo Bolsonaro foram bons levantadores – no sentido político do termo – que, com frases mal colocadas, “fora de contexto” e estapafúrdias tentaram de todas as formas municiar argumentações de crítica ao governo, vindas de adversários políticos e a até mesmo de “bolsonaristas raiz”. Para citar alguns exemplos, basta recorrer a algumas falas da Ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, do Ministro da Educação, Abraham Weintraub, e claro, também do próprio Presidente Jair Bolsonaro. Mas no dia 12/02/2020 um levantador diferente entrou em ação: o Ministro da Economia Paulo Guedes.

 

Em um evento, Guedes disparou que “o dólar mais alto é bom para todo mundo e que, com a moeda americana mais baixa, “todo mundo” estava indo para a Disney, inclusive empregada doméstica”. O dólar acabou valorizando, batendo R$4,35, resultado positivo – ao menos segundo a ótica do ministro. É que com a moeda brasileira mais desvalorizada em relação à moeda americana, alguns produtos brasileiros, em tese, acabariam ganhando em competitividade. A indústria brasileira também, em teoria, muito contraditória por sinal, também se beneficiaria. Por outro lado, quem perde são os consumidores brasileiros, uma perda que é geral, não ficando restrita aos que costumam ir a Disney. Perde com essa desvalorização quem consome qualquer tipo de importado. O trigo do pão de cada dia, por exemplo, é majoritariamente importado.

 

Mas muito além da questão técnica que envolva os potenciais benefícios e/ou malefícios de uma valorização do dólar, o grande erro de Guedes foi o de taxar uma determinada classe trabalhadora como não merecedora de algo, que nesse caso é a viagem para a Disney. Mesmo que o ministro não tenha tido essa intenção, o seu discurso foi elitista e retrógrado, carregado com o velho preconceito de quem “é pobre deve reconhecer o seu lugar”. Esse tipo de fala levanta a bola não apenas para a oposição, mas para qualquer cidadão brasileiro, bolsonarista ou não.

 

Essa política baseada em frases de “levantadores” geralmente é contraposta com uma opinião: “pelo menos a economia está indo bem”. Não entrando no mérito do que significa a economia ir bem (apenas lembrando que a recuperação segue bastante aquém do que muitos empolgados previram), é preciso lembrar que não precisaria haver necessariamente uma troca entre termos uma boa economia e um corpo de Ministros de Estado que saiba ter filtro no que fala publicamente. Ou, mais diretamente: onde foi que o Brasil escolheu que teria ou uma economia no rumo certo ou representantes máximos do Executivo que não falassem tanta bobagem?

 

Diferentemente do caso de Roberto Alvim, em que o absurdo foi tão alarmante que causou a sumária demissão em menos de 12 horas, as chances de que algo nessa direção ocorram com Paulo Guedes tendem a zero. Talvez porque “foi só uma fala” e “ao menos os planos da economia estão indo no caminho certo”. Mas fica o questionamento: até quando vai ser suficiente utilizar o caminho da economia como subterfúgio para tantas frases que não precisavam ter sido ditas?

 

Não sabemos se o Presidente da República pensa sobre isso e, cá pra nós, é possível que isso tudo seja estratégia. Ainda assim trata-se de estratégia perigosa, porque se nem o fio de confiança sustentar – leia-se: se a economia seguir em lenta recuperação e não alçar os voos mais agressivos que Guedes tanto fala e a baleia harpoada seguir quase imóvel -, é difícil imaginar o que sustentaria este governo.

 

Segue um encarecido pedido ao Ministro da Economia: foque nos planos das reformas (a administrativa já é “na semana que vem” desde pelo menos novembro do ano passado) e deixe a comunicação, institucionalmente falando, a quem o faz com o que importa para a população de verdade. Ou então apenas siga municiando a oposição ao governo com tais “levantamentos”. A escolha é do senhor.

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