O fogo queima a imagem do Brasil perante o mundo

Os dados a respeito das queimadas no Brasil, verificados pelo INPE, indicam com certa precisão onde temos esses eventos ocorrendo em nosso país e em alguns países vizinhos. O meio como esses dados são divulgados já provocou anteriormente a exoneração de um Diretor do órgão, após embate entre o que fora divulgado e a visão do Presidente sobre a questão. Esse assunto parece não ter saído da pauta desde que entrou de maneira mais contundente no ano passado.

Olhando diretamente aos dados específicos do número de focos detectados – por medição realizada via satélite -, de junho de 1998 a setembro de 2020 temos basicamente duas maneiras de olhar a situação atual. Uma é verificar que de janeiro de 2019 até hoje, em termos de um olhar mensal, não temos nenhum mês batendo o recorde de focos (mesmo que não tenhamos nenhum mês sendo o mínimo da série histórica). Por outro lado, temos que o avanço ocorrido dentro do mesmo ano não é desprezível. Ou seja, a tendência não é nada boa.

De fato diversos aspectos podem estar relacionados a esse aumento das queimadas, mas, não temos agora o maior número delas em termos gerais. Elas têm aumentado e gerado preocupação, mas a situação realmente já foi pior nesse departamento. Assim sendo, chegamos ao ponto que foca este artigo: então como as queimadas podem impactar a economia? Podemos elencar três aspectos bastante diretos.

Economia de baixo carbono

Existem em vigor certos acordos que levam em consideração uma emissão mais baixa de gases do efeito estufa, como o Acordo de Paris. Por mais que estes acordos estejam sempre sendo questionados – e grandes players como os Estados Unidos, que são também grandes poluidores, estejam de saída -, as metas existentes precisam ser respeitadas.

O conjunto de metas estabelecidas nesses acordos considera a contribuição agregada do país no tocante aos gases do efeito estufa, não a emissão de uma empresa ou outra, embora cada ação individual seja bastante positiva. Inclusive, cabe apontar que a chamada economia circular, aquela que leva em conta um aproveitamento mais eficiente dos recursos e uma geração menor de resíduos, não só existe no Brasil como também ajuda na eficiência inclusive financeira de cada vez mais empresas.

Sobre esta ótica, as queimadas prejudicam pelo fato de contribuírem positivamente para o saldo anual de gases do efeito estufa. Estudo recente aponta que, no fim das contas, o mundo todo está entregando menos do que deveria em termos de reduzir a poluição. Ainda assim, não seria por este motivo que o Brasil poderia “esbanjar” e ir nessa direção de aumentar a poluição ao invés de contribuir com a redução dela.

Acordo Mercosul-UE

Um acordo que levou vinte anos em negociações pode ir pelo ralo. Mercosul e União Europeia, dois grandes blocos econômicos do mundo, têm se desentendido em relação a essa questão das queimadas. A França já se posicionou contrária ao acordo em função dos desmatamentos, e em pesquisa recente três a cada quatro europeus têm a mesma oposição.

O que pode certamente estar nas entrelinhas dessa oposição é um certo protecionismo existente na Europa, essa presença que inclusive no período pós-pandêmico discute-se que pode ficar ainda mais evidente. O agronegócio brasileiro é um dos mais eficientes do planeta e, de fato, podermos ter acesso a um mercado tão diversificado e rico quanto o europeu poderia prejudicar os agricultores de lá.

Qualquer que seja o caso, as queimadas poderão ter relação direta com a não concretização de um acordo que levou duas décadas para ter seu martelo batido e que poderia tirar o Brasil de seu status atual tão fechado.

A “boiada” das regulações ambientais

Já dizia aquela velha sabedoria popular: não basta ser honesto, tem de parecer honesto também. Unindo a essa verdadeira tempestade perfeita de críticas do mundo temos a atuação absolutamente questionável do atual Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Confrontado sobre as queimadas e os dados apresentados, o Ministro resume-se a apontar supostas perseguições internacionais – e aponta poucos caminhos de saída.

Não podemos ser ingênuos de acreditar que não existam pressões internacionais para que o agronegócio brasileiro não se posicione em mercados mais amplos como o Europeu, mas também seria no mínimo leviano imaginar que a melhor resposta a um problema é mostrar outro problema e não uma solução.

A cereja do bolo tem sido a postura do mandatário especialmente após a fatídica reunião ministerial gravada e amplamente divulgada meses atrás, em que diz que a ocasião da pandemia seria uma oportunidade de “passar a boiada” de desregulamentações ambientais. Inclusive, recentemente, com mais de 12% do Pantanal queimado, ele achou uma boa ideia publicar em suas redes sociais oficiais um curto vídeo andando… em um carro de boi.

Voltemos a ideia que iniciou este trecho do artigo: além de ser algo também tem de parecer. Com o mundo de olhos voltados para o descalabro das queimadas que ocorrem nesse momento em nosso país, não seria minimamente lógico imaginar que ele deveria mover esforços para esclarecer que há um mínimo controle no lugar de botar tudo na conta da “ideologia”?

É inegável apontar que a ação deste governo em relação ao tema ambiental, pautando-se mais pelo desvio das questões do que pelo apontamento ou encaminhamento de soluções, deixa a desejar e impacta toda a América Latina.

Mais ação, menos conversa fiada

Em um mundo onde a enxurrada de informações logo pode virar desinformação, muito do trabalho do atual Ministério do Meio Ambiente tem se focado em passar uma imagem de “não devemos nos preocupar” com algo que de fato deveria gerar preocupações, tanto em termos ambientais quanto econômicos.

É assustador parar para pensar no quanto um governo que veio, nas palavras de seu representante maior, para “mudar isso daí” reagir de forma tão lenta e cheia de meandros – o que demonstra que a vontade real seria mesmo de não fazer nada – diante de problemas tão graves.

Tal qual a política econômica que muito anuncia e pouco entrega de fato – com exceção neste caso à reforma previdenciária -, este reclamar diuturno no lugar de propor soluções já traz efeitos diretos. O Fundo Amazônia, mantido internacionalmente com objetivo de preservação de nosso maior bioma, já perdeu recursos (R$133 milhões da Noruega e R$155 milhões da Alemanha, só no ano passado) e essa perda pode ficar ainda maior. Afinal de contas, para quê serve doar recursos para preservação de algo que não está sendo preservado?

Outro ponto que deveria estar sendo levado em consideração é o efeito negativo sobre os investimentos. Se levássemos mais a sério a questão do desmatamento, poderíamos ver US$10 bilhões por ano a mais entrando em nosso país por meio de investimentos.

Como visto aqui, são diversos os pontos nos quais saímos prejudicados como país quando a preservação ambiental é relegada à discussão do sexo dos anjos – enquanto hectares seguem em chamas, junto de nossa credibilidade internacional. Apontar que a situação já esteve pior ou que o resto do mundo também não está tomando o cuidado devido – por exemplo dizendo que as queimadas brasileiras não são como as da California – não resolve os problemas. É preciso colocar na mesa os planos e agir.

Aparentemente podemos ver como em alguns (infelizmente, cada vez mais) aspectos, o que veio para mudar parece ter sido sair do status de planos ruins para entrar numa situação de apatia. Mudar, mudou, só fica difícil dizer o que é pior.

O agronegócio brasileiro se esforça há um tempo razoável para apresentar ao mundo que é produtivo sem ser danoso à natureza. Com o esforço monumental de incompetência demonstrado no período atual, literais décadas de esforço podem ir por água abaixo. Talvez seja essa a “mudança” pretendida. Só não será possível reclamar depois do leite derramado, ou melhor, da mata que desapareceu com o fogo.

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