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O fator Moro em 2022

Tempo de leitura: 7 minutos

Provavelmente, mesmo ainda em novembro de 2021, já estamos no clima pré-eleições do ano que vem. Bolsonaro seguiu em palanque desde que entrou, Lula faz até circuito internacional para falar como quem não quer nada sobre como o Brasil poderia ser melhor e, mais recentemente, o amado por uns e odiado por outros Sergio Moro, tendo se filiado a um partido, parece ter entrado de vez no jogo. Mas, o que essa novidade muda para 2022?

População contra a corrupção abraça seu discurso

Ainda que 2018 possa ter passado essa impressão, nenhum candidato que se preze irá abraçar um discurso monotemático se quiser conquistar os votos de uma parte relevante da população. Porém, é inegável admitir que o que fez Moro entrar e sair do cargo de ministro de Bolsonaro continua a mobilizar um certo grupo da população: a bandeira do combate à corrupção.

De sua entrada como ministro até o momento atual muita coisa aconteceu, inclusive um desmantelar amplo da operação Lava Jato, o que mudou o foco que uma parte da população tinha sobre ele porque, dentre outros aspectos, foram apresentados diversos pontos que apontavam para uma certa suspeição dele em ter julgados casos – em especial os que envolviam o ex-presidente Lula, algo inclusive confirmado pelo STF.

Independente de tudo que aconteceu nesse meio tempo, a população que segue confiante em Moro tem como mote que este jamais abandonou sua missão de lutar contra esse problema que conhecemos de velha data por aqui, algo supostamente reforçado por seu discurso de saída, no qual apontou que o fazia por ter sofrido pressões que dariam a entender que seus esforços seriam em vão – ou, mais diretamente, que seu chefe teria direcionado mudanças na Polícia Federal para acobertar investigações sobre os seus.

Bolsonaro perde base

Tendo como bandeiras a luta contra a corrupção e a economia liberal, representadas nas figuras de Sergio Moro e Paulo Guedes respectivamente, Bolsonaro viu uma parte de sua base de apoio declinar logo que o superministro Moro pediu para sair, mesmo que ainda exista quem compre a tese de que a economia liberal esteja logo por vir (quem sabe na semana que vem).

A quem ficou desamparado após sua saída, Moro sinaliza oferecer não só uma nova esperança de que o combate à corrupção (que teoricamente ficou parado) siga adiante como também outros aspectos prometidos anteriormente e não entregues voltem para o foco. Se por um lado Bolsonaro tendo acabado com a Lava Jato – como ele mesmo afirmou, dando a entender que não seria preciso investigar nada, porque nada seria encontrado – pode significar que uma das duas grandes missões foi abandonada, por outro, não será trivial um resgate disso por Moro sem uma movimentação grande das instituições (o que não é a coisa mais rápida do mundo).

Com uma das grandes missões prometidas em 2018 alçando voo solitário, uma parte do grupo que colocou Bolsonaro lá pode agora pensar que seria uma boa ideia substituí-lo por alguém que tenha “melhor capacidade de colocar em prática”. Em uma comparação que eventualmente irrite alguns dos leitores, seria quase como a “troca” de Lula por Dilma após o segundo mandato do petista: “ela parece ser uma versão sofisticada e mais bem engendrada dele” – pode parecer surreal, mas realmente esse pensamento circundava o Brasil nos idos de 2010.

O que Moro vai oferecer?

Em seu discurso de filiação ao Podemos, Moro elencou todos os seus motivos, não apenas para ter saído do governo, do que o motivava a entrar para a política – ainda que categoricamente tenha afirmado antes que não seria jamais candidato. Apontou diversos motivos, mas circundou fortemente o tema da corrupção, por exemplo ao dizer que o Brasil não aguenta mais “Mensalão” nem “rachadinhas”, ou mesmo que não usará o poder para benefício próprio, o que mostra diretamente como tenta logo de cara se distanciar de Lula e Bolsonaro.

O reforço de que seria a corrupção o pior problema do Brasil acende um certo alerta: essa preocupação será mais preponderante do que toda e qualquer outra mudança necessária ou foi apenas um jeito bastante direto de lembrar qual seria o modo pelo qual ele se diferencia dos dois que dominam (até agora) o cenário eleitoral para 2022?

Independente do caso, a figura de Moro balança o cenário eleitoral: nas primeiras pesquisas que já o colocam no páreo, apesar de ser o terceiro com a maior rejeição (47% não votariam nele), também está agora em terceiro lugar nas intenções de voto (com 11% considerando Lula e Bolsonaro na disputa e 18% sem o segundo disputando). Isso é bem relevante, levando em conta que Moro já se encontra na frente de outros candidatos que buscam ocupar a terceira via (como João Doria e Ciro Gomes).

Pesquisa eleitoral mede o presente e, em se tratando do Brasil, tanta coisa pode acontecer entre o atual momento em que você lê este artigo e o período eleitoral de 2022 que seria heresia afirmar que já temos alguma confirmação do todo. Mas não é possível dizer que a presença de Moro sinaliza ser irrelevante no cenário, caso ele concorra. Caberá a ele se posicionar para além do campo da luta contra a corrupção e verificar como seus planos por exemplo para a economia serão.

Aliás, falando em economia, Moro parece estar estreitando laços com Affonso Celso Pastore, que é um famoso e respeitável economista.

Oposição a Lula: será que se sustenta?

Se tem uma coisa que parte dos brasileiros deve ter pensado quando ficou sabendo que Moro entraria para a política é: “já pensou em como será um debate entre Lula e o juiz que o colocou atrás das grades?”. De novo vale levar em consideração que o cenário é bem diferente hoje do que o que tínhamos três anos atrás: a operação que levou o ex-juiz, ex-ministro e potencial presidenciável ao olho do furacão virou poeira, há literalmente suspeição chancelada pelo STF a respeito da atuação dele no julgamento contra o ex-presidente e a associação com Bolsonaro (ainda que tendo virado uma despedida amarga) continua lhe rendendo os frutos de quem seria apenas mais um representante bolsonarista disputando o centro das atenções.

Será importante verificar não apenas como Moro pretende se colocar em posição diferente de Bolsonaro como também qual será a argumentação, seja em propagandas eleitorais ou mesmo em debates ao vivo, para sustentar que sua atuação em relação a Lula não foi insuspeita. Conseguindo transpor essas duas elevadas barreiras de maneira satisfatória (e tendo em si um plano que realmente faça algum sentido em outras áreas), ele poderá ter chances maiores do que o que se imagina no cenário atual.

Não desistir será fundamental

Dentro do campo de estudos da negociação, um aspecto é tido como muito importante: ao tomar uma decisão que mude muito o meio pelo qual você está jogando (o que pode ser por exemplo bater em retirada), caso você mesmo não sustente sua argumentação, acompanhará de maneira muito direta um derretimento de sua própria credibilidade.

Moro ainda nem declarou oficialmente que pretende ser candidato à presidência, mas já deu sinalizações fortes o suficiente de que é isso que irá fazer. Imaginando um cenário em que, após todo esse espetáculo de atenções, a decisão seja a de “esperar mais um pouquinho”, dificilmente quem está apostando todas as fichas hoje nele esperará mais quatro anos (ou sabe-se lá quanto tempo) para poder escolhê-lo nas urnas.

Novamente cabe o importante adendo de que estarmos há pouco menos de um ano do pleito eleitoral de 2022 significa que muita coisa ainda vai acontecer daqui até lá influenciando todo esse cenário. Mas, desde já cabe apontar: decidindo mesmo ir até o final com sua missão de concorrer ao cargo máximo do poder executivo federal, Moro é tudo, menos coadjuvante no processo – e, sim, pode surpreender a muitos dos que acham hoje até risível tal possibilidade.

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