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O empreendedorismo de Lords of Chaos

Tempo de leitura: 5 minutos

Imagine que alguém decida ofertar um novo tipo de produto no mercado, que possua as seguintes características: assustador, sujo e de qualidade duvidosa. Imaginou? Agora, vamos imaginar que esse produto seja uma música, por exemplo. Uma música que seja blasfema, repulsiva, nojenta e de baixa qualidade. Seria uma boa ideia ofertá-la no mercado musical?

Há dois textos bem interessantes sobre esse tipo de discussão, um deles tratando sobre o grande sucesso, dentro do seu nicho de mercado, da banda Cannibal Corpse e um segundo texto, escrito nesse mesmo espaço semanal do Guia Financeiro, que aborda sobre o lucrativo e bizarro submundo mostrado no filme 8 mm. Mas hoje, o nosso objetivo é ultrapassar qualquer limite, já que vamos falar do filme que retrata a banda mais polêmica e extrema da história: Lords of Chaos.

Lords Of Chaos é um filme de 2018 que, tirando algumas polêmicas sobre a real autenticidade dos fatos, retrata como foi a vida dos membros da banda norueguesa de black metal Mayhem. O principal personagem do filme é o guitarrista Øystein Aarseth, mais conhecido como Euronymous, membro fundador da banda e o “líder” de um “movimento” intitulado como black circle.

Euronymous, o empreendedor

Um empreendedor é aquele que consegue ver uma determinada carência no mercado, alguma necessidade que precisa ser atendida. Para Euronymous, o mercado musical precisava de bandas “malvadas”, dado que as bandas de metal da sua época eram “boazinhas” demais, preocupadas mais em retratar festas, bebedeiras e orgias do que em impressionar e causar medo no público.

A partir dessa carência identificada no mercado musical de sua época, Euronymous procurou montar uma banda que fosse reconhecida pelos seus atos hediondos e pela sua brutalidade extrema. Para isso, se propôs a construir todo um marketing que fizesse com que os membros da banda fossem reconhecidos como satanistas, senhores do caos e destruidores de mundos (termos utilizados pelo próprio Euronymous). O importante era chocar, não importava a maneira, nem que fosse a partir de boatos.

O primeiro vocalista da banda, Per Yngve Ohlin, mais conhecido como Dead, cometeu suicídio atirando com uma espingarda em sua própria cabeça. Euronymous, a primeira pessoa a chegar na cena do suicídio, ao invés de chamar imediatamente a polícia ou o pronto socorro, acabou tirando uma foto do corpo. Essa foto, do cadáver de Dead, acabou se tornando uma capa de CD do Mayhem. Mas, antes mesmo desse CD, Euronymous fez questão de espalhar inúmeros boatos fantasiosos a respeito do episódio, um deles é que ele teria cometido canibalismo e utilizado pedaços do crânio de Dead para fazer um amuleto.

No filme, é deixado muito claro que todos os boatos espalhados por Euronymous eram falsos, com o único e exclusivo intuito de chocar o público. Para ele, o Mayhem deveria ser odiado e temido ao máximo, pois isso atrairia a atenção de um número cada vez maior de pessoas dispostas a comprar CDs e acompanhar a banda em futuras turnês pelo mundo.

Mas Euronymous sabia que uma empresa – uma banda para ser mais específico – não prosperava apenas com base em boatos macabros e, numa época anterior às redes sociais (importante lembrar que estamos falando de uma história da década de 1990) era necessário ter um quartel general físico. Com base nisso, ele abriu uma loja chamada Helvete. A Helvete foi uma loja dedicada a música extrema e pesada, um lugar para divulgar os trabalhos do Mayhem, além de ser um ponto de encontro com os consumidores (no mercado da música são carinhosamente chamados de fãs).

Em Lords of Chaos, as ideias empreendedoras de Euronymous são bem mostradas, tornando-o um empreendedor ousado, inovador e disposto a fazer de tudo – pelo menos em termos de marketing – para ter fama e dinheiro.

Entre bens e males

Na teoria do consumidor, as preferências são monotônicas, com os indivíduos sempre preferindo consumir mais do que menos. Então, no caso de um indivíduo ser indiferente entre duas cestas de bens, ele vai preferir a cesta que possui o maior número de bens.

Não obstante ao pressuposto da monotonicidade, há bens que ao invés de aumentarem a utilidade do consumidor, acabam reduzindo. Esses bens podem ser chamados de males. Um exemplo de mal é a poluição, dado que quanto mais poluição menor é a utilidade. Outro exemplo de mal, no sentido microeconômico, pode ser a música do Mayhem, dado que esta possui características que em tese reduziriam a utilidade do consumidor (pelos motivos já descritos ao longo do texto).

Mas, de alguma forma, devido em grande parte à aleatoriedade do comportamento do consumidor, Euronymous conseguiu formar um nicho específico de fãs (consumidores) para o Mayhem. Esses fãs possuem preferências monotônicas para um conjunto de coisas que no geral reduzem a utilidade dos indivíduos. Isso pode ser representado na figura abaixo, em que ouvir Mayhem seria o Bem 1. Quanto maior o consumo do Bem 1 (ouvir Mayhem), maior será a utilidade dos indivíduos.

gráfico do bem 2 x bem 1
Fonte: Roberto Guena.

Lords of Chaos, um filme para empreendedores?

Lords of Chaos definitivamente não é um filme feito stricto sensu para inspirar empreendedores, dado que o seu grande objetivo é outro: explicar melhor algumas histórias misteriosas e levantar algumas polêmicas sobre o Mayhem.

Não obstante, é inegável que o filme ensina boas lições. Isso é devido ao enfoque da história não estar na vida de um metaleiro maluco, mas na vida de um jovem empreendedor disposto a ir até às últimas consequências e a cometer – ou pelo menos dizer que cometeu – atos extremos, possibilitando boas aprendizagens. Chocar pessoas é uma forma de atrair a atenção delas, transformando-as em ávidas consumidoras. Além disso, identificar uma carência no mercado, e a partir disso fazer o que ninguém ainda fez, é uma ótima maneira de se destacar.

Euronymous fez tudo isso com a banda Mayhem, como é tão bem mostrado em Lords of Chaos, mostrando que bons empreendedores conseguem enxergar grandes oportunidades até mesmo dentro do mal.

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