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O efeito da quarentena no contexto político e a circularidade do governo durante a reabertura

Boa parte do país já vive sob medidas de quarenta a quase três meses. A sociedade brasileira, como no resto do mundo, continua enclausurada em domicílios sendo aos poucos desgastada pelo temor de contrair o vírus e pelas angústias econômicas. Isolados de familiares, amigos e colegas, a saúde mental não delonga na sua deterioração. Mesmo nos lugares onde a reabertura já foi iniciada, ainda existem restrições que impedem uma retomada à normalidade inerente a uma vida plena.

Tudo isso ocorre sem o alívio de tracionais válvulas de escape como o exercício físico, eventos esportivos e confraternizações sociais. A tecnologia, que deveria servir como uma janela para o mundo externo, agora fora do nosso alcance, aparenta exacerbar esse contexto com um dilúvio persistente de manchetes negativas e a interrupção da programação que mais alegra o telespectador.

Qual é o efeito desta realidade angustiante na política?

Mensurar os impactos e reflexos desta dinâmica no exercício da práxis política é uma tarefa complexa, mas sugerir uma correlação entre esta existência restritiva e o recente aumento de tensões políticas não nos aparenta ser um exagero.

As manifestações nos EUA – em grande parte pacíficas, mas com muitas ocorrências violentas – tiveram como estopim o assassinato de George Floyd. Isso é um fato incontestável. Porém, mesmo levando em conta as impactantes imagens que denunciaram a brutalidade policial ali registrada, é difícil imaginar que tais demonstrações tomariam a atual proporção e capilaridade sem o acúmulo de frustração causado pela quarentena. A divulgação do vídeo que trouxe à tona a injustiça sofrida por George Floyd rompeu uma barragem emocional incapaz de conter o agrupamento de tensões causadas pelo isolamento social. O evento serve como exemplar de como políticas de isolamento social podem engrandecer uma desavença social.

No Brasil, aos poucos, manifestações semelhantes ganham ímpeto. Pela primeira vez em meses havia mais aderentes a atos contra o governo nas ruas de Brasília do que apoiadores do presidente. O fato de Bolsonaro ter desaconselhado a participação dos seus apoiadores nas manifestações do fim de semana passado favoreceu esta dinâmica, mas ainda aconteceu por muitos partidos de esquerda e organizações extrapartidárias que se opõem ao presidente. O ressurgimento dos protestos antibolsonaristas não pode ser desconsiderado.

Os apoiadores mais árduos do presidente continuam frustrados com a atuação do Congresso, do STF e dos governadores, mas a sua impaciência agora tem companhia do outro lado do espectro ideológico. Há de se reconhecer que a atuação e as declarações do presidente durante a quarentena, que fomentavam ataques constitucionais e insistiam em impor uma abertura precoce da economia, aumentaram a polarização.  As pesquisas de aprovação do governo mostram uma alta vertiginosa da rejeição que comprova isto.

Este fervescente descontento que veio a afligir o meio político, pode ser um prenúncio de grande instabilidade. Os protestos de 2013 começaram com manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus na cidade de São Paulo e persistiram até a queda do governo Rousseff. Bolsonaro e sua equipe estão cientes desta crescente ameaça. Não é à toa que já se fala em uma expansão do Bolsa Família que incorpora e torna permanente o auxílio emergencial para trabalhadores informais – uma clara manobra populista para aclamar os ânimos de massas inquietas.

Um impeachment que tem como força motriz o clamor popular ainda parece uma possibilidade distante, mas o fim da quarentena pode vir a mudar isso. O impacto de meses de reclusão social, o aumento do desemprego e uma retomada econômica anêmica pode impulsionar a rejeição já expressiva do governo. Tudo isso ocorrerá em meio às eleições municipais que serviram como palanque para discursos contra e a favor do governo.

O impacto da quarentena neste contexto político ainda é um mistério

O retorno à normalidade pode apaziguar a insatisfação e migrar a atenção do público para os velhos prazeres da vida que antes tomávamos como certos. Também existe a possibilidade de que a sociedade brasileira saia da sua prisão domiciliar e se confronte com uma terra devastada pelo desemprego e saia às ruas pronta para externalizar a insatisfação que até então era engarrafada pelo temor da covid-19.

Esta transição que ocorre com o fim da quarentena requer muita preponderância e cautela do governo, tanto no âmbito da saúde pública como em todos os outros. As medidas pra fomentar a retomada econômica são essenciais, mas reduzir a temperatura dos embates institucionais e federativos para diminuir o crescente rol de inimigos também será primordial. Evitar deslizes como o vídeo da reunião ministerial e outras projeções de falas que o tornam sujeitos a críticas é uma tarefa imprescindível.

O retorno à normalidade que Bolsonaro tanto reivindica será um momento que define o mandato do presidente. Caso ele seja administrado com competência e serenidade, o processo poderá abrir o caminho para um fortalecimento que pavimenta uma via para a reeleição. Se for desastroso e turbulento, pode encurralar um presidente já rejeitado por quase metade do eleitorado. Cabe ao governo tomar os esforços necessário para imprimir sua marca sobre esta narrativa. Se a disfuncionalidade governista perdurar durante a reabertura, o resto de 2020 representará um desafio sem precedentes para o presidente.

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