O dilema das redes e a vida off-line

Seguindo a linha de indicações desta coluna às sextas-feiras, hoje traremos a você algo que talvez te prenderá a atenção mais do que vídeos de gatinhos ou do seu humorista favorito por horas. Bem, na verdade pouco mais de uma hora e meia. Mas são minutos bastante densos.

Hoje vamos falar do documentário cuja intenção é literalmente de chacoalhar as redes sociais: O Dilema das Redes.

O que a tecnologia faz de melhor…

É inegável que a tecnologia nos muda. Nos conecta. Permite literalmente que você esteja em contato com um amigo ou cliente do outro lado do mundo instantaneamente. Em tempos de pandemia e home office, permite que grandes eventos anteriormente exclusivos e para convidados seletos possam estar abertos a todos – tal qual a convenção da Berkshire Hathaway, em que Warren Buffet apresenta resultados de investimentos e visões sobre o que vem a seguir, que em 2020 teve transmissão online.

Através dela nunca estivemos tão confortáveis quanto agora. Precisa de ser transportado do ponto A ao ponto B? Em minutos pode ter um Uber na sua porta. Gostaria de comer daquele restaurante que você gosta no meio da semana mas não quer ir até ele? Peça um iFood, ou mesmo um Rappi, para ter parte daquela experiência com você em talvez menos de uma hora. Quer ver como estão parentes distantes? Abra o Facebook ou mesmo o Instagram. E pra falar com eles? Bem, temos o WhatsApp e o Telegram.

As possibilidades de negócios se ampliaram fortemente. O Terraço Econômico, feito por nós que escrevemos essa coluna, dificilmente existiria em uma época em que a internet não fosse uma ferramenta tão presente na vida das pessoas. Não porque os assuntos que abordamos não fossem interessantes, mas porque o meio de produzir tais conteúdos ficou cada vez mais acessível.

O que trinta anos atrás demandaria um estúdio caro de televisão, hoje demanda acesso a internet e notebooks – às vezes apenas smartphones.

Casamentos surgem. Grandes amizades de like minded people ocorrem com muito maior facilidade. Conexões entre pessoas que provavelmente nunca se conheceriam acontecem. E ficamos conectados assim o dia todo. O que nos faz pensar que…

…também nos deixa presos a ela!

Hoje, smartphones com sistema Android e iOS são 98% de todos os que existem – sendo que somos hoje em 3,8 bilhões de pessoas utilizando esses aparelhos ao redor do globo. Graças a essas duas informações lhe faremos uma pergunta bastante pontual: você já checou o contador de horas de tela do seu smartphone para ver quanto tempo você passa olhando para ele diariamente? A descoberta pode ser assustadora, especialmente quando se olha um período de tempo e se descobre o aumento do uso.

Não há como responder, mas, já parou pra pensar que isso pode ser mais tempo do que o que você dorme? Mais tempo do que você passa com seus pais? Com seus filhos?

Pois é. O documentário traz diversos especialistas que fizeram parte da “Matrix” que faz com que você – e eu – utilize essas ferramentas todas que chamamos de indispensáveis todos os dias.

Ah, mas e a praticidade?”. Ela importa. E ela vale muito, muito dinheiro. Aliás, é bom lembrar, tal qual disse a Economist em 2017: “dados são o novo petróleo”. O ativo mais valioso é justamente o que bilhões de pessoas entregam gratuitamente e espontaneamente todos os dias.

O que faz com que sejamos verdadeiros servos voluntários do que nasceu para nos dar alegria, conexão e vontade de viver?

No documentário vemos uma grande discussão sobre como as redes sociais tinham o objetivo inicial de realizar conexões mas, por interesses comerciais – o que a priori não tem nada de errado – acabam por tomar as decisões que tomaríamos, por nós mesmos.

Isso acontece, em termos práticos, porque a experiência que temos com os aplicativos que nos cercam é adaptada diariamente com nossas escolhas. Novamente nos deparamos com a dualidade entre a praticidade – “muito legal, o Spotify já sabe o que eu quero ouvir antes mesmo de abrir essa playlist que fez pra mim” – e a conexão sem sentido – “o que será que aconteceu pra tanta gente estar falando sobre a Terra ser plana em pleno 2020?”.

“Se concorda comigo, então está certo!”

Viés de confirmação é um termo na economia comportamental que significa, em termos práticos, que nós, seres-humanos, procuramos nos aproximar de quem concorda conosco, porque isso dá uma sensação maior de que não estamos ficando loucos – ou mesmo que estamos redondamente certos.

Isso acontece na vida, mas é potencializado pelas redes sociais.

O meio como isso acontece parece um caminho sem volta: os algoritmos das redes sociais colocam em contato direto pessoas que acreditam em coisas parecidas, sejam elas astronomia, vídeos de gatinhos ou teorias conspiratórias. São as bolhas da internet.

Algo que parece ser apenas a reunião de pessoas que pensam parecido sobre alguns aspectos da vida – tal qual tínhamos nas saudosas comunidades do Orkut ou nos fóruns de jogos do UOL – passa, assim, a se tornar potencialmente perigoso. Isso porque a quantidade de pessoas pensando sobre “como o mundo está totalmente de cabeça pra baixo” e “como somos enganados o tempo todo” aumenta exponencialmente. Toda e qualquer verdade, até a científica, é questionada. Viraliza aquele que coloca em cheque o que se acredita. E algoritmo atrás de algoritmo, temos a luz das atenções sobre o que gera um verdadeiro desagregar de pessoas. Curiosamente, o completo oposto do que as redes sociais vieram criar.

O fenômeno “desfiz amizades pelo voto dado na última eleição”, por exemplo, tem relação direta com esse fenômeno totalmente novo. Aos poucos ficamos cada vez mais acostumados a estarmos em bolhas nas quais ninguém discorda de ninguém. E, quando isso ocorre, sentimo-nos mais sensíveis – afinal, quem pode discordar do que eu falo?

Esse fenômeno, pelo que os integrantes do documentário – dentre eles está por exemplo o co-criador do Like do Facebook – afirmam, não passa de uma externalidade negativa, ou seja, um resultado não esperado de uma ação. Ainda assim, o problema está entre nós e não parece caminhar em uma direção sustentável ou mesmo mentalmente saudável. O que fazer então?

O copo vazio: não depende só de nós

É apresentado no documentário que as estratégias desenhadas para nós usuários (e que literalmente comandam nossas vidas, dentro e fora das redes) dependem estritamente de pessoas que passam seus dias pensando em como nos manter mais tempo conectados dentro das redes. E, por este motivo, a solução para uma mudança neste cenário teria necessariamente partir de quem desenvolve tais tecnologias.

A maior dificuldade está então envolvida com o modelo de negócio das Big Techs: seria possível sair desse círculo vicioso em que o usuário quer mais e mais tempo de tela e ainda assim ser lucrativo, rentável? Como fazer com que os usuários forneçam o almoço grátis de dados de uma maneira que não envolva deixá-los alheios às próprias vidas?

Outro grande gargalo é o aspecto regulatório. Deveriam as empresas regularem a si mesmas, dado que sua atuação é global? Cada país deveria regular sua própria rede (o Brasil por exemplo tem o Marco Civil da Internet)? Essas perguntas são muito complexas e geralmente podem parecer resumidas a “os governos não gostam que tenhamos empresas tão grandes”. Mas não se engane: essa questão de como tais empresas estão em nossas vidas importa para muito além desse aspecto puramente empresarial.

O copo cheio: podemos mudar aos poucos

Um conselho dado de forma unânime no documentário é: desative suas notificações. Sabe aquele momento em que você pega no celular e em um piscar de olhos meia hora foi embora? Provavelmente o gatilho de todo aquele tempo moído veio de uma notificação. Seu cérebro aos poucos vai se tornando cada vez mais desatento em função disso, quase como o efeito de uma droga. Reduzir ao máximo as chances dessas armadilhas pode ajudar.

Outro amigo da gestão do tempo nessa era da chuva de informação e desinformação é a técnica pomodoro: definir tempo para as atividades que você vai desempenhar. E o truque aqui é fazer o complementar do que diz essa técnica: defina períodos do seu dia para não utilizar essas ferramentas (como, por exemplo, decidir a quanto tempo de dormir você vai desligar todos os seus equipamentos eletrônicos que levaria para a cama).

Temos ainda um meio mais radical que, por motivos pouco comerciais, talvez você nunca tenha ouvido falar. Se hoje temos tão popularizados os smartphones, que tal ter um dumbphone? Uma opção vendida lá fora em o Light Phone, que permite pouquíssimas funções, quase como aquele celular que você teve no início dos anos 2000, bem diferente dos de hoje.

Não importa o que, mas faça algo

Não é possível mensurar qual o impacto deste artigo sobre o leitor, dado que ele levanta alguns questionamentos e indica o documentário. Mas, a respeito do documentário em si, é difícil imaginar que não tenha efeito sobre você, especialmente no caso de trabalhar mergulhado em informações de curtíssimo prazo, como a maioria de todos nós faz hoje em dia.

Mudar esse hábito não é fácil. Mas o que é impossível de fato é retomar o tempo que passamos perdendo rolando telas para baixo infinitamente.

Seriam este artigo e o documentário indicado capazes de te fazer deletar todas as redes sociais? Sinceramente, não é nem essa a intenção. Como bem iniciamos esse artigo, esse mundo além de integrador parece ser um caminho sem volta. Mas tudo que indicamos aqui é que seja feita uma reflexão sobre o uso das redes.

O que livros como 1984, filmes como Matrix e séries como Black Mirror dão a entender que é um futuro assustador, na verdade é o presente. Por mais que pareça que não tomamos mais decisão alguma, é possível sim quebrar o ciclo que nos prende a esses vícios.

Dê o primeiro passo. 

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