O Brasil na fila do pão da crise turca

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Os ativos brasileiros vêm sofrendo certo estresse na última semana, principalmente o câmbio. Mais uma crise de países emergentes parece a começar a se delinear no horizonte das finanças globais. Mas o Brasil fica só com os efeitos colaterais ou pode ser contagiado? Quem é o Brasil na fila do pão dessa crise turca?

De todos os países emergentes que vêm sofrendo com a crise recente, o Brasil é de longe o mais sólido. Nossos fundamentos econômicos nos colocam numa posição relativamente robusta para navegar uma possível crise global de emergentes.

Não estamos dizendo que o Brasil não tem problemas macroeconômicos, inclusive tem dos mais graves – o desequilíbrio fiscal -, porém, o país não depende de recursos externos para se financiar. Um contágio que leve à uma crise cambial ou de balanço de pagamentos, como está acontecendo com a Turquia agora, é algo muito distante.

Fato é que, mesmo com seus ativos sofrendo reflexos da crise turca, a resiliência externa brasileira fica nítida, inclusive com a Bolsa fechando no terreno positivo e a moeda desvalorizando bem menos que as demais.  Note que o CDS, o principal indicador de risco, embicou apenas, enquanto de Argentina e Turquia esticaram fortemente.

A boa saúde tupiniquim vem de posição externa robusta que o país tem. Tal robustez advém de 3 fatores:

1) Nosso nível de reservas internacionais é bastante elevado;

2) O endividamento externo (tanto privado quanto público) é baixo; e, para completar,

3) A necessidade de recursos vindos do exterior (o déficit em conta corrente) é baixa, em proporção do PIB, e tem caído nos últimos anos.

No primeiro fator, nossas reservas internacionais são bastante abundantes e existe amplo espaço para que o Banco Central atue no mercado de câmbio de forma a mitigar a volatilidade de nossa moeda. A dívida externa bruta (empresas mais governo) é de US$314bi, enquanto as nossas reservas são de US$380bi. Dessa dívida, apenas US$58bi é de curto prazo, enquanto o restante (US$255bi) é de longo prazo. Logo, a posição de endividamento é muito confortável dado o enorme colchão de liquidez (reservas) que o país tem.

Do lado da defesa do câmbio, o Banco Central pode fazer contratos de swaps. Como já fez com certa intensidade ao longo deste ano. Apesar do estoque deste instrumento ter subido de forma significativa, ainda existe amplo espaço para ampliação em caso de um novo estresse cambial, se considerarmos como limite o estoque usado em 2015, que foi o maior da história, como mostra o gráfico abaixo. No momento os estoques estão em R$67,5bi, mas em 2015 ultrapassou os R$110bi.

Focando no ponto 2), temos um endividamento externo bastante baixo, principalmente quando comparamos com Turquia e Argentina. Basta olharmos nos dados do BIS – Bank of International Settlements, onde podemos encontrar os dados do estoque de crédito das três economias, qual a origem do recurso e se ele foi captado no mercado interno em moeda nacional ou no mercado externo com moeda estrangeira. Turquia e Argentina financiam suas economias, em grande parte, com recursos externos, enquanto de todo o estoque de crédito em circulação na economia brasileira, apenas 13% vem de fora. Os recursos externos são muito mais um complemento para o Brasil do que uma fonte primária.

Além do fato de Argentina e Turquia terem suas economias, como um todo, sedentas por crédito externo, seus governos também dependem de financiamento lá de fora. A Argentina tem uma posição mais dramática, com 70% da dívida pública em dólar. A Turquia tem 38% do endividamento em dólar e o Brasil tem apenas 3%. Importante ressaltar que a dívida turca e Argentina são de curto prazo, enquanto a brasileira, além de pequena, é de completamente de longo prazo.

O ponto 3, é interligado com o ponto 2. Todo investimento vem da poupança. Essa é uma identidade básica da macroeconomia, porém a poupança pode vir tanto de dentro do país, quanto de fora. Essa poupança que vem de fora é igual ao déficit em transações correntes.

Na comparação dos três países, o Brasil de longe é o mais saudável nesse quesito. Em partes por causa da grave crise de 2015 e 2016, que reduziu fortemente as nossas importações. Argentina e Turquia possuem as piores condições, ambas rodam com déficits em transações correntes, acima dos 5% do PIB, para 2018, segundo previsões do FMI. Enquanto o Brasil deve fechar o ano com um déficit de -1,5% do PIB, e no último dado do Banco Central esse número está em no acumulado em 12 meses em -0,70% do PIB.

O gráfico abaixo mostra que o Brasil ajustou fortemente o seu déficit em transações correntes, nos últimos anos, enquanto Argentina e Turquia não o fizeram na mesma intensidade. Na época de solidez econômica, a Turquia chegou a rodar com um déficit de -8,97% do PIB, um grande apetite por capital externo.

Apenas para mostrar o quão saudável o país está, enquanto o déficit em transações é de -0.70%, entrou no país nos últimos 12 meses, via investimento externo direto, recursos da ordem de 3,25% do PIB, ou seja, 4,6 vezes mais recursos que os necessários. O que acaba tornando a posição externa bastante robusta.

O Brasil é sólido do ponto de vista das contas externas. É bastante improvável que o país sofra um contágio da crise pelos mesmos canais que Turquia e Argentina passaram e estão passando. Porém, como já dito, é importante ressaltar que o nosso problema é dentro de casa e fiscal.

Porém, em um momento de estresse global, o investidor já desconfiado com o Brasil, por causa do fiscal, pode aí sim migrar para posições mais defensivas, prejudicando o preço dos ativos por aqui.

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