O atual nível da Selic está errado?

Tempo de leitura: 5 minutos

Desde setembro – mas com menor vigor antes – diversos agentes de mercado têm constantemente salientado que o atual nível de 2% da taxa Selic está “errado”. Proponentes desta linha de argumentação tem levantado dois principais pontos.

Por que o atual nível da Selic está errado?

Por um lado, o atual nível da taxa básica de juros é incondizente com nosso quadro fiscal, já deteriorado antes da pandemia e fragilizado devido à geração de déficits primários historicamente elevados para combatê-la. Em termos práticos, argumentam que este nível historicamente baixo da taxa de juro tem causado uma severa disrupção no mercado de títulos públicos, complicando o já delicado processo de financiamento e rolagem da dívida pública do Tesouro Nacional.

O baixo rendimento das LTFs (títulos pós-fixados atrelados à taxa Selic) tem, diante da piora verificada no quadro fiscal, promovido a elevação de prêmios de risco, causando um forte deságio dos títulos. Em setembro, a LFT – o ativo considerado livre de risco – teve rendimento negativo.

Por outro, enunciam que a recente aceleração da inflação, impulsionada principalmente pela categoria de alimentos e bebidas, antecipa um risco inflacionário crescente. Assim sendo, para sanar os problemas identificados, seria necessário aumentar a taxa de juro.

Por mais que os pontos apresentados detenham algum nível de coerência e sentido lógico, são rapidamente desqualificados, pois não levam em conta os objetivos do Banco Central, assim como as diferentes ferramentas e parâmetros que norteiam a boa condução da política monetária aqui e mundo afora.

Os objetivos do Banco Central

Postulemos primeiro os objetivos do Banco Central. O intuito primordial do BC é – além de garantir o bom funcionamento do Sistema Financeiro Nacional por meio da regulamentação – ser o guardião da moeda nacional, garantindo a estabilidade dos preços na economia. Em outras palavras, o principal objetivo da autoridade é colocar a inflação efetiva na meta enunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Qualquer outra coisa está em segundo plano.

As ferramentas utilizadas pelo BC andam paralelamente aos objetivos, uma vez que este utiliza o primeiro para atingir o segundo. Dentro do arcabouçou de política monetária de qualquer Banco Central moderno – isto é, a partir dos anos de 1990 – consta uma “função de reação” que associa aumentos ou diminuições na taxa de juro à distância da inflação e das expectativas de inflação com relação à meta e do PIB com relação ao seu nível de pleno emprego.

Esta simples, porém poderosa, regra de decisão é utilizado por qualquer Banco Central moderno e deriva-se a partir da interrelação entra a Curva de Phillips (que descreve o comportamento da inflação em função do hiato do PIB), uma função de perdas do Banco Central e a curva IS (que descreve os diferentes equilíbrios de PIB e taxa de juros no mercado de bens e serviços).

Tecnicalidades a parte, o ponto é que a função de reação utilizado pelo Banco Central dita que, quando a inflação e as expectativas inflacionárias estão abaixo da meta, deve-se reduzir a taxa de juro mais do que proporcionalmente ao desvio verificado. Em palavras mais simples, se o Banco Central, a partir de suas projeções – fruto da sútil combinação entre arte e técnica –, antevê um cenário onde a inflação está abaixo da meta, o diagnóstico é claro: reduza a Selic.

Isto é o que de fato tem acontecido. Para diversos cenários de Selic, expectativas de inflação extraídas da Pesquisa Focus e taxa de câmbio, as projeções do BCB para o IPCA de 2020 e 2021 (o horizonte relevante para a política monetária) encontram-se abaixo das metas pré-estabelecidas. A crise da covid-19 somente acentuou este movimento, pois intensificou as pressões desinflacionarias que vinham se verificando há algum tempo e aumentou a capacidade ociosa da economia, em si outro fator que torna ainda mais provável o cenário de inflação abaixo da meta.

Com relação à recente aceleração do IPCA que, como mencionei, ocorreu principalmente em função da categoria dos alimentos, pontuo o que temos escrito em outros relatórios: é transitória e não altera as perspectivas de médio-longo prazo para a inflação, pois os núcleos continuam demasiadamente bem-comportados. Para que a aceleração dos alimentos siga em frente, seria necessária uma contínua depreciação do real e uma forte aceleração dos preços das commodities em âmbito internacional. As commodities já dão sinais de arrefecimento (a última leitura do Índice de Commodities do BCB, o IC-BR, mostrou forte desaceleração nos itens agropecuários) e a taxa de câmbio dificilmente acelerará além dos atuais níveis.

Claro, a combinação de um câmbio desvalorizado que retraiu a oferta doméstica e o impulso à demanda trazido pelo auxílio emergencial explicam o aumento dos preços. Mas esta alta eventualmente tornará a produção doméstica novamente atrativa, elevando a oferta, enquanto a redução do auxílio induzirá uma retração na demanda, normalizando os preços da categoria. Algo similar ocorreu no final do ano passado (a média móvel de três meses anualizada da categoria de inflação de alimentos marcou avanço de 22,5% em dezembro) e rapidamente se dissipou.

Agora, isto não quer dizer que o recente estresse observado no mercado de títulos públicos não deveria ser um ponto de atenção ou preocupação. Pelo contrário, deveria ser endereçado como de fato foi com a ação conjunta entre o Tesouro Nacional e o BCB, onde o segundo, ao limitar o montante de títulos vendidos em operações compromissadas, se adequou à estratégia de encurtamento da dívida do Tesouro e retirou um pouco de pressão do o mercado de juros futuros.

Mas argumentar que os males do mercado de títulos ocorrem em função do reduzido nível da Selic é colocar a culpa de um problema sobre alguém que literalmente não tem culpa. Não é culpa do Banco Central que a classe política instalada em Brasília, assim como o governo federal, não emite as sinalizações corretas quanto ao gerenciamento dos gastos públicos e andamento das reformas. É justamente por causa da enorme incompetência do governo e do Congresso em gerenciar apropriadamente as expectativas que a política monetária não está exercendo seu potencial máximo.

Como bem disserem Roberto Campos Neto, presidente do BC, e João Manoel Pinho de Mello, diretor do Sistema Financeiro e Resolução: a política monetária é o passageiro; o fiscal é o piloto. Há se entender que a raiz fundamental do problema está integralmente na política fiscal e não na política monetária.

Relacionados

Quanto rende 100 mil em fundos imobiliários?

Quando o assunto é ter uma renda passiva, os fundos de investimentos imobiliários são um dos ativos financeiros mais procurados pelos [...]

Syntax Finance - 21/10/2021

Estrangeiro eleva posição 'vendida' em taxa de juro

Os investidores estrangeiros aumentaram nesta quarta-feira, 20, suas posições aplicadas no mercado de juros, em termos líquidos. O estoque dos contratos [...]

Estadão - 21/10/2021

Dólar têm alta forte com tensão fiscal e exterior; mercado espera ação do BC

A tensão fiscal do País e o exterior negativo, com dólar e juros dos Treasuries em alta e bolsas em baixa, [...]

Estadão - 21/10/2021
Logo o guia financeiro

Entrar

Como deseja continuar?

Abra sua conta

Preencha os campos abaixo
ou use uma das opções