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Você trabalharia na Netflix?

Tempo de leitura: 6 minutos

Seguindo a sequência desta coluna de indicações, dessa vez vamos falar um pouco sobre o livro A Regra é Não Ter Regras: A Netflix e a Cultura da Reinvenção, escrito por Reed Hastings (CEO e fundador da empresa) e Erin Meyer (uma das maiores pensadoras do mundo dos negócios na atualidade). A obra é dividida em dez capítulos que apresentam uma espécie de guia para que você possa (ao menos tentar) mudar os processos de sua empresa para que ela passe a funcionar como a Netflix.

Para quem não conhece a empresa, o livro faz uma certa apresentação dos porquês dela ser diferente em relação a suas concorrentes diretas e também o mercado empresarial como um todo: nela todos estão o tempo todo ligados a um universo que envolve liberdade e responsabilidade de modo que podem tomar decisões de maneira ampla e não necessariamente ligadas a hierarquias internas. Sim, você pode discordar do seu chefe e até apertar botões que custarão milhões de dólares caso essa seja a melhor decisão possível para o negócio.

Mas nem tudo são flores: irmã siamesa da liberdade é a responsabilidade e, caso as duas não andem de mãos dadas, o resultado que você encontrará por lá chama-se “uma generosa rescisão”.

O que é combinado não sai caro

Antes de ler este livro e querer chegar como Platão recém saído da caverna em sua empresa, saiba de uma coisa importante e que costuma ser esquecida: negócios são formados por pessoas e, no fim do dia, a cultura de qualquer local de trabalho está diretamente ligada a como essas pessoas agem, reagem e se portam no dia a dia.

Dentro dos passos do “guia” colocado para quem quer percorrer esse caminho, fala-se muito sobre como as pessoas que chegam e que ali estão precisam estar plenamente conscientes e preparadas para um ambiente de trabalho em que, se por um lado os resultados não precisam ser robustos e imediatos no curto prazo, a capacidade de receber, compreender e também conceder feedbacks precisa estar a mais afiada possível.

Uma das ocasiões contadas no livro, ainda no início da empresa, envolve a decisão difícil após um momento de crise em que seria preciso demitir pessoas para que a conta fechasse. Nesta situação, que não é desejável a nenhum negócio (sobretudo em virtude de alguma crise), ficou o aprendizado de que apenas os melhores deveriam ficar na empresa. E esse aprendizado passou a balizar todas as decisões dali em diante: a chamada manutenção de densidade de talento importa muito para a Netflix.

Indo bem diretamente dos manuais de boas práticas de negócios (que de vez em quando sinalizam que quem os escreveu nunca teve um negócio tamanha a facilidade que descrevem as mudanças “que ninguém faz porque não quer”) para a realidade, essa cultura significa literalmente que você pode, caso não esteja entregando resultados tão excepcionais quanto seus superiores pensarem, chegar em uma manhã e encontrar a carta de demissão esperando por sua assinatura. É frisado em diversos momentos que isso não acontece sem que muito feedback tenha sido dado antes – mas acontece mesmo assim.

Sem política de gastos e férias: pense no business

Visando que o negócio foque apenas no que o faça ser cada dia mais relevante, na Netflix foram abolidas políticas que a maioria dos negócios passa um tempo razoável do departamento de Recursos Humanos pensando e avaliando ao longo dos anos: a de férias e a de gastos em deslocamentos pela empresa. Sim: estando na Netflix as férias não têm prazo nem duração máxima, e você não vai precisar ficar buscando alguém para justificar os gastos em uma viagem de negócios.

Mas o outro lado da política de liberdade, como já apresentado, é a responsabilidade: não é possível que você tire férias que atrapalhem o resto do seu time e, mesmo não havendo uma conferência ou um departamento que fique filtrando esses gastos, o que eventualmente for considerado má ideia pode te encaminhar para sua própria “generosa rescisão”.

A ideia, levando em conta que há uma densidade de talento (apenas os melhores dentre os melhores ficam) e uma política de feedbacks o tempo todo, que o bom senso enfim impere e, de fato, somente as melhores decisões tenham espaço ali dentro.

Maturidade e instabilidade: quem vai encarar?

O futuro do trabalho no mundo todo encaminha-se para ser baseado por entregas e produtividade, não mais pelo “horário comercial” em si. Isso pode parecer tão libertador quanto aprisionador, a depender do nível de maturidade com o qual você encara os negócios dos quais faz parte.

Sendo você alguém que depende de rotinas bem estruturadas, horários específicos e verdadeiros “disjuntores mentais” que indicam quando ligar e quando desligar de certas atividades, essa mudança que é cada vez maior vai te assustar um tanto. Porém, se seu caso é o de quem não vê problemas em entregar produtividade em horários alternativos porque sabe que terá mais tempo para si mesmo caso foque nisso, aparentemente esse novo momento será magnífico.

A grande dificuldade é que, embutido nesse pensamento de liberdade com responsabilidade que o livro traz como sendo a pedra fundamental da cultura empresarial na Netflix, está também uma visão de que você deveria, paradoxalmente, entregar-se ao máximo a um negócio que, mais rapidamente do que você imagina, poderia não precisar mais contar contigo – simplesmente pelo fato de que há mais gente muito mais adequada e produtiva do que você ali. E, convenhamos: é muito mais fácil encontrar negócios em que você pode ser demitido por motivos que nem conhece direito (ou não teve a capacidade de discernir como deveria) do que aqueles em que todas as informações sobre os processos e como você se adequa a eles estão tão disponíveis assim.

O guia apresentado por este livro de fato é possível de ser colocado em prática, mas parte de um pressuposto tão alinhado que, na prática, vale você buscar executá-lo em times pequenos dos quais você tenha confiança elevada em praticamente todas as pessoas ou, melhor ainda, caso seja possível começar um negócio do zero. Isso porque existem ali mudanças sugeridas tão relevantes que alguns locais de trabalho simplesmente não teriam interesse nem ofereceriam apoio real a elas.

É possível que, ao final dessa leitura, você caia em uma das duas caixas de pensamento: “que sonho trabalhar para um lugar desses ou construir um ambiente assim” ou “isso só acontece onde o dinheiro é tão abundante que outras coisas ficam de lado, como os controles do que se passa no dia a dia”. Qualquer que seja o caso, trata-se de uma obra que faz muito pensar sobre o futuro do trabalho e quão preparados estamos a essa transformação galopante.

Provavelmente, os empregos da forma como conhecemos um dia vão acabar – mas o trabalho, aquele resultado que move o mundo, este sempre estará em transformação. Seja para trabalhar na Netflix hoje ou mesmo transformar o negócio onde você trabalha (ou que você é dono), será que já existe preparação suficiente? Esse baita livro vai certamente te fazer coçar a cabeça sobre questões como essa.

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