Não podemos perder a capacidade de reconhecer absurdos

Provavelmente o maior assunto da semana anterior foi o vídeo do agora ex-Secretário da Cultura, Roberto Alvim, em que o anúncio de um programa de premiação artística no Brasil tinha um conjunto de aspectos que fazia ser o próprio anúncio o último ponto importante. Música sombria, olhar dos filmes do Stanley Kubric, citação muito próxima de outra emitida por quem disseminou a propaganda nazista (e até posições de todos os itens muito parecida com a de uma foto deste mesmo personagem sombrio) …. Não faltaram motivos para questionar a permanência de Alvim no cargo.

O vídeo foi amplamente criticado – nacional e internacionalmente -, as repercussões foram diversas e em menos de doze horas após a publicação já tínhamos a demissão do Secretário. Segundo alguns, porque Bolsonaro se sensibilizou com o absurdo. Segundo outros, porque é bem assessorado juridicamente – já que seria possivelmente encaixada uma omissão neste caso como crime de responsabilidade.

Qualquer que seja o motivo, ainda assim tivemos uma sequência de questionamentos sobre como aquela ação talvez tenha sido exagerada demais, que se tratava apenas de um conjunto de coincidências (como o próprio ex-Secretário afirmou, ao dizer inclusive que concorda com a frase apesar de sua origem). Para alguns, no fundo, nada demais aconteceu.

Alguns pontos poderiam ser levantados sobre essa questão, para além do fato de que essa série de “coincidências” tornaram a situação de fato absolutamente insustentável.

Em primeiro lugar, é sempre importante relembrar que, sim, deve haver liberdade absoluta de discurso. A fala, a opinião, por mais que possa irritar, causar descontentamento e discórdia, não pode ser cerceada – sob o risco de, amanhã, quem apoiar o cerceamento ter sua vez de ser cerceado. Porém, a partir do momento que sua fala representar algo maior do que meramente sua opinião, por exemplo sendo ela porta-voz de alguma instituição (neste caso, o direcionamento da cultura por parte do governo no Brasil), há de se pensar na responsabilidade daquilo. Provavelmente nosso Presidente não pensa assim, mas não deixa de fazer sentido.

Como segundo ponto, não podemos nos esquecer qual foi a promessa feita por Bolsonaro durante a campanha e reafirmada em seu discurso de posse: nosso país estaria finalmente livre de amarras ideológicas. Estar livre dessas amarras significa que o Estado vai deixar de intervir de acordo com o que imagina ou que o direcionamento central vai ser simplesmente oposto ao que se tinha anteriormente? Independente da resposta que o governo tenha, querer colocar algo tão livre quanto a arte como sendo “heroica e nacional, (…) imperativa, (…) ou não será nada” é, aos olhos de qualquer um que queira entender, um direcionamento bastante evidente.

Como terceira observação, nunca podemos perder a régua que distingue o “deixa isso pra lá” do que são os verdadeiros absurdos. Esqueça as comparações rasteiras sobre qual regime foi pior, o nazismo ou o comunismo; pare de pensar se quem defende um desses não tem moral para falar do outro; e, por favor, pare com a “contagem de mortos” que supostamente justificaria a existência de um como maldade e do outro como compensação. O que é absurdo, que é fora do razoável de uma maneira inquestionável, deve estar nas memórias de todos para que simplesmente não torne a acontecer, não porque deveria servir de base para justificar a próxima atrocidade humana que se seguir.

Uma mudança realmente robusta em nosso país passa não só pela guinada econômica que temos observado desde Temer e agora vemos com Bolsonaro. O Brasil não se restringe à sua economia avançar ou ficar estagnada, mesmo que esse aspecto seja de fato primordial a todos nós. Qual o sentido de vermos um lado avançar e outro provavelmente parar no tempo ou até retroceder? Se Gandhi libertou a Índia, isso lhe dá o direito de cometer um assassinato? Se Madre Teresa de Calcutá fez um trabalho nobre pelos mais pobres, isso lhe dá o direito de tacar fogo em um orfanato? Lula por ter sido um presidente de um período em que o Brasil sinalizava melhorar a cada dia (e de fato muita gente viu sua vida melhorar em seus governos) está autorizado a receber propina de grandes construtoras em forma de imóveis de lazer?

Para além de aspectos políticos, sociais e econômicos, absurdos permanecem absurdos. O que nos diferencia diante do papel que podemos exercer na sociedade é o fato de não termos olhos vendados a esses fatos condenáveis. Nem tudo é condenável só porque se discorda mas, mesmo com aquilo (ou aquele) que se concorda e gosta muito, não podemos esquecer que, uma vez mais, absurdos seguem sendo absurdos. Não precisa começar um movimento revolucionário entre as pessoas que você conhece, basta de alguma maneira lembrar do que é de fato absurdo.

Ao final deste artigo, uma reflexão para pensarmos sobre os absurdos que vemos e, como diz uma expressão dos dias de hoje, “passamos pano”, fingimos que não existem. Se perdermos nossa capacidade total de repararmos no que está errado, teremos perdido, no fim das contas, nosso senso real de humanidade. Importante notar que nós, do Terraço Econômico, também já nos manifestamos em relação a esse (no mínimo) bizarro caso.

 

“Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.

Como não sou judeu, não me incomodei.

No dia seguinte, vieram e levaram

meu outro vizinho que era comunista.

Como não sou comunista, não me incomodei.

No terceiro dia vieram

e levaram meu vizinho católico.

Como não sou católico, não me incomodei.

No quarto dia, vieram e me levaram;

já não havia mais ninguém para reclamar…”

Martin Niemöller – 1933 – Símbolo da resistência aos nazistas

 

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