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Na Europa, mais um (banco) “grande demais para falir”?

Tempo de leitura: 3 minutos

Nos últimos dias, boatos de uma fusão entre os dois maiores bancos da Alemanha foram um dos destaques do cenário internacional. Deutsche Bank e Commerzbank confirmaram tais “conversas”. A união, impensável anos atrás, parece hoje ter alguma probabilidade (embora pequena) de sair do papel. O setor bancário da Europa ainda segue em momento delicado, e a união destes bancos não deve contribuir para diminuir estes problemas. Muito pelo contrário. Aqui, escrevo um pouco da retrospectiva dos bancos, a justificativa daqueles que defendem tal união, e os riscos de criar uma instituição “grande demais para falir”.

Deutsche Bank tem sofrido, nos últimos anos, com a queda de suas ações, dificuldade em reter talentos e pressões por parte de alguns acionistas para cortar operações, especialmente nos EUA. Aliás, ainda não digeriu por completo a aquisição de 10 anos atrás do Postbank, um banco de varejo alemão, e está em fase de reestruturação. Hoje, em meio a 25 bilhões de ativos ilíquidos e uma exposição de mais de 300 bilhões em derivativos (embora o management defenda que a exposição líquida está abaixo dos 10% deste valor), o banco precisará de uma injeção de capital. Após as suas ações acumularem uma queda de aproximados 90% desde o início de 2007, não será fácil atrair novos investidores.

O Commerzbank, por outro lado, tem entre os seus ativos 8.4 bilhões de euros em títulos do governo italiano, e 1.3 bilhão do governo espanhol. Contabilizados como títulos que serão mantidos até o vencimento, precisarão ser reavaliados a preços de mercado se a instituição levar a união com o Deutsche Bank até o fim. Juntos, o novo grupo teria quase 2 trilhões em ativos, quase 900 bilhões em depósitos e 141 mil funcionários. Passaria a ser considerado um banco ainda mais relevante do ponto de vista global e, portanto, será forçado a ter mais capital para enfrentar possíveis problemas adiante.

A criação de um “campeão nacional” também deve encontrar resistências por parte dos reguladores. Há, afinal, um grande receio de que fusões entre bancos acabem gerando alguém “grande demais para falir” (em inglês, o famoso “too big to fail”), e o custo disto recaia sobre toda a sociedade. Uma fusão, embora possa tornar a nova instituição mais forte do ponto de vista “micro”, pode aumentar o risco “macro”, e basta lembrarmos da última crise financeira nos EUA. Não é difícil cogitar que, sabendo que o governo não deixará o banco quebrar (dado o potencial de criar mais problemas para o restante da economia), a instituição estará mais propensa a tomar riscos em excesso. No jargão econômico, o clássico problema de “moral hazard”.

O problema do setor bancário europeu não é de hoje. Uma economia nada vibrante, um banco central que demorou em responder à última crise, e juros ainda em território negativo mantêm estas instituições em uma situação nada confortável. Embora estes estejam “descontados” quando se olha do ponto de vista do investidor de ações (comparando múltiplos com os bancos americanos, por exemplo, há quem acredite numa recuperação relativa do setor), não há como não dizer que o contexto ainda é de fragilidade. Esta situação pode se agravar diante de instituições “grande demais para falir” e incentivos errados.

Para se ter uma ideia do quão importante — e potencialmente problemático para o restante da economia — é o setor bancário na Europa, vale considerar a seguinte estatística: o total de ativos destas instituições, em proporção do PIB, é de aproximados 250%. Nos EUA, este número está ainda abaixo de 100%. Na Irlanda e na França, o número é ainda maior, próximo de 350%, segundo dados de 2017. Desta forma, qualquer problema no setor tem potencial para desestabilizar todo o sistema produtivo. Neste cenário, embora seja verdade que uma concentração maior tende a gerar maior lucratividade para os bancos, não parece ser a solução ideal permitir que tamanha união entre Deutsche Bank e Commerzbank seja levada adiante.

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