Merkel: estadistas e populistas

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Provavelmente o maior evento geopolítico dos últimos tempos foi a saída de Angela Merkel, premiê alemã, após 16 anos no poder. Muito pode ser analisado sobre o período da líder na Alemanha e o que ela deixa em sua saída, como uma renda maior do que em outros países da região, um nível menor de desemprego, uma dependência maior de exportações para a China, a maior participação feminina no mercado de trabalho dentre as sete maiores economias do mundo, um contingente elevado de imigrantes recebidos e uma popularidade que ronda os 80%. Mas há um aspecto também importante que deve ser discutido: como os estadistas rareiam nos tempos atuais.

Os conceitos de estadista podem ser diversos, mas neste artigo a conceituação será a seguinte: aquele ou aquela que pensa e age com o objetivo de transformar a realidade daquilo que comanda para o futuro, não tendo importância (ou quase não tendo) a figura pessoal de quem está fazendo essa mudança, mas sim a mudança em si.

Menos personalismo, mais resultado

Na política é praticamente impossível que as pessoas não façam associações de avanços ou retrocessos aos governantes da ocasião. O Plano Real, o apagão de 2001, o Mensalão, a Crise de 2008, o anúncio da Copa e das Olimpíadas, os protestos de 2013, entre outros. Independente da esfera, você provavelmente se lembra dos políticos da época de cada um desses acontecimentos e, talvez até instintivamente, tenha pensado que eles teriam alguma relação direta com tais eventos.

A grande diferença entre os populistas e os estadistas é o foco dado aos avanços. Quando falamos dos populistas, o tempo todo se fala da figura máxima do Executivo ou de seu governo, como se este tivesse em si todas as soluções para os problemas e tudo o que tivesse vindo antes fosse um grande fosso de inutilidades. Já os estadistas miram na resolução dos problemas e na geração de avanços, mesmo que no longo prazo.

Curiosamente, como políticos estadistas ou populistas a população segue fazendo uma associação do período a eles, quando se foca mais em resolver os problemas e alcançar um nível superior de bem-estar da população, a popularidade acaba por vir. Pode ser que demore um pouco mais, tendo em vista que planos mais robustos costumam demorar mais tempo para surtirem efeito, mas certamente isso acontece.

Provavelmente em nosso país a tradição seja de que tenhamos mais políticos populistas do que estadistas porque o interesse costuma ser meramente eleitoreiro. A discussão sobre a reeleição ter aberto um campo para “medidas que são lembradas no curto prazo e ajudam em reeleições” é ampla, mas desde a redemocratização foram raros os casos em que, tendo oportunidade de fazer mudanças que impactariam a realidade em um prazo bem superior ao próprio mandato, medidas nessa direção foram tomadas.

Nas dificuldades os estadistas superam os populistas

Populistas podem ter bons planos? Claro que podem, mas em uma imensa maioria das vezes esses planos terão como objetivo final exaltar quem os toca e não quais os avanços esperados. Se em tempos de calmaria isso já pode soar um tanto controverso, quando crises ocorrem a questão fica ainda mais complicada. Como dar más notícias se isso pode prejudicar a imagem do populista?

Merkel passou, na Alemanha, por crises de diversas esferas. Citando apenas três: a crise financeira global de 2008, a imigratória de 2015 e a do coronavírus que vigora até atualmente (embora já estejamos, em termos econômicos, fora dela em boa parte do mundo). Sob a égide da responsabilidade fiscal – que chegou a ser chamada de nociva e exagerada em 2016 -, recursos não faltaram para que programas de sustentação a crises pudessem ser executados em todas elas. Somente na crise mais recente algo ao redor de 130 bilhões de euros foram desembolsados para sustentação, algo que seria impossível ou pelo menos muito mais difícil de executar sem que essa austeridade financeira tivesse ocorrido por tanto tempo.

Atitude estratégica também importa bastante: levando em conta que a Europa passa hoje por um momento em que a população economicamente ativa se reduz pouco a pouco a cada ano, Merkel teve a coragem de, contra rompantes nacionalistas e isolacionistas de diversos países ao redor (e receios dos próprios alemães), conduzir um programa de imigração que não só permitiu um aumento de sua mão de obra como também o encaminhar (dentro de suas possibilidades) de uma questão humanitária gravíssima.

Liderança da Europa ficará vazia até quando?

Independente dos líderes europeus que ficaram conhecidos ou não, a liderança do continente fica num compasso de espera, em uma espécie de stand by, com a saída de Merkel. Grandes decisões ainda podem e devem ser tomadas, mas sem uma figura tão representativa quanto ela para colaborar na condução do processo, o que pode sim fazer diferença.

Agora é aguardar tanto quem ocupa o posto na Alemanha quanto se essa pessoa irá ajudar na pavimentação do caminho como fez a agora ex-premiê. Seria ingênuo afirmar que é impossível que quem entre a substitua com a maestria de sua execução, mas o sarrafo deixado foi alto o suficiente para que não seja difícil afirmar que será uma missão mais complexa do que inicialmente aparenta ser.

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