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Lei do Câmbio: seguro de Brasil

3 de janeiro de 2022
Escrito por Terraco Econômico
Tempo de leitura: 6 min
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ilustração de moeda dourada com setas verdes
Tempo de leitura: 6 min

Nos instantes finais de 2021 foi sancionado o chamado Novo Marco Legal do Câmbio, que modernizou um conjunto de normativas que não eram alteradas desde 1935. O que muda agora provavelmente você já leu por aí, mas neste artigo traremos como essa boa notícia pode te deixar mais preparado para oscilações complicadas que temos no Brasil há muito tempo – e que, pelo visto, ainda serão motivo de dor de cabeça também nesse ano.

As empresas já fazem isso de certa forma

Empresas que trabalham com exportação, como por exemplo várias do agronegócio, ao vender para o exterior recebem na moeda lá de fora (geralmente o dólar) e, feito isso, ajudam na chamada Balança Comercial – que é o saldo entre o que importamos e o que exportamos.

Nos últimos 20 anos, com exceção ao ano de 2014, a Balança Comercial brasileira apresenta saldo positivo. Em 2021, por exemplo, o previsto se aproxima de US$60 bilhões, o que contribui bastante para as contas públicas do Brasil, tanto na arrecadação tributária quanto no equilíbrio das contas externas.

Você deve estar se perguntando então: com tanto dólar entrando, por qual motivo o dólar ainda segue caro? Pois então: esses recursos gerados com exportações (que você também pode encontrar por aí com o nome de divisas) não são obrigados a voltar para o país onde são gerados, podendo também serem investidos em outras filiais ao redor do mundo ou mesmo ficarem onde são gerados.

De certa forma, isso é quase um “ganhar nas duas pontas”: aproveitando o câmbio desvalorizado quem exporta fica melhor posicionado e “ganha mais” (afinal de contas, o dólar segue o mesmo, quem desvalorizou foi o real) e, levando em conta as fortes subidas dos últimos anos (de 2017 em diante apenas desvalorizou, destaque para os 30% apenas em 2020), o efeito “vale manter lá fora” fala mais alto.

Você já pode fazer hoje mesmo

A grande mudança trazida pelo Novo Marco do Câmbio é a possibilidade de ter contas no Brasil em dólar, o que em termos práticos significa que você pode fazer como as empresas exportadoras, só que como pessoa física e sem precisar exportar, apenas trocando reais por dólares.

Acontece que esse tipo de coisa já pode ser feita hoje, mesmo que com menor facilidade. Os caminhos são basicamente três: adquirir cotas em um fundo cambial (que aplicará esse dinheiro na variação do dólar), comprar dólares em uma casa de câmbio ou abrir uma conta em alguma instituição financeira para brasileiros com conta fora do Brasil.

Vale frisar que os meios atuais são um pouco mais complicados porque demandam que você tenha um certo conhecimento desses mecanismos (como no caso do fundo cambial ou de saber das contas para brasileiros no exterior) ou são, de certa forma, pouco práticos e inseguros, como por exemplo comprar moeda estrangeira e guardar em casa pode não ser tão prático assim.

Instituições financeiras devem ficar mais atentas a isso

Outro ponto que chama a atenção é que, até essa atualização de normativas, geralmente esse tipo de transação ficava restrito a quem pensava em viajar para o exterior ou, por qualquer que fosse o motivo, tinha alguma relação com países que não o Brasil – e apenas por isso. Dessa forma, não havia tanto incentivo assim para que produtos fossem oferecidos para esse público, ao menos não de maneira mais aberta.

Podemos prever que haverá mais atenção das instituições financeiras a esse tipo de produto, por exemplo oferecendo a possibilidade de ter conta corrente em dólar, agora que isso é possível. É claro que elas têm setores que ficam de olhos atentos às mudanças regulatórias que podem ocorrer e permitam que mais possibilidades sejam oferecidas aos clientes, então não deve demorar para vermos esse tipo de novo serviço sendo oferecido.

Mas, diz aí: o que vocês querem dizer com “seguro de Brasil”?

Duas simplificações de como o mundo observa o Brasil em termos de risco para se investir são o Risco Brasil e o dólar.

Sobre o primeiro, representa, de maneira direta, o quanto se cobra a mais de empréstimos realizados por negócios brasileiros no exterior em relação ao que se cobraria se você estivesse lá fora. Em função dos novos receios com a pandemia, temos um nível atual próximo dos 200 pontos (o que significa que o “adicional” nos empréstimos é de cerca de 2%). Já foi pior: em setembro de 2015 esse nível era superior a 500. Mas também já foi mais tranquilo: em dezembro de 2019 ficamos abaixo de 100 momentaneamente.

Em relação ao segundo, basicamente apenas vimos desvalorização. Em 2017, 2019 e 2021, desvalorizações de um dígito ocorreram, mas em 2018 e 2020 as altas foram de mais de 15% e quase 30%, respectivamente. Em nenhum desses anos vimos o dólar ficar “mais barato”. Por esse lado temos que a visão é basicamente que nossa moeda vale cada vez menos a pena de ter na carteira quando olhamos o resto do mundo.

É possível que você tenha em sua carteira derivativos que tenham conexão com o Risco Brasil ou dólar. Não é preciso pensar muito para entender como, entre as duas escolhas, é bem mais fácil ter dólar na carteira. E, como essas duas possibilidades permitem que você “ganhe até numa desvalorização do Brasil perante o mundo”, são, em termos práticos, “seguros de Brasil”.

Dois motivos para pensar nisso de 2022 em diante

Apresentamos nas últimas semanas de dezembro, aqui neste blog, cenários para a política monetária (o caminho dos juros, em resumo) no Brasil e nos Estados Unidos.

Vale verificar os dois artigos, mas, de maneira bastante sintética: por aqui o Banco Central está correndo atrás da credibilidade (mesmo que isso resulte em recessão) e muitos riscos, sobretudo fiscais e eleitorais, devem ocorrer em 2022; por lá a ideia é iniciar um caminho de normalização, ou seja, redução da liquidez global adicionada desde o pós crise de 2008 e bastante intensificada em 2020.

Essa combinação pode significar que, se por aqui a economia mais fraca sinalizar que valerá ainda menos a pena que investimentos externos aconteçam, lá fora essa redução de liquidez deve deixar o dólar mais forte em relação a todas as moedas do planeta, o que afeta, sobretudo, países emergentes como o Brasil.

Câmbio é uma variável econômica que, como em uma clássica frase atribuída a Edmar Bacha, foi inventada por Deus para humilhar os economistas. Então a pergunta não deve ser necessariamente “para onde vai o câmbio?”, mas “por qual motivo não se proteger das oscilações estando com uma moeda forte na carteira?”.

Fazendo uso de outra frase clássica, dessa vez sem autor conhecido, “enquanto alguns choram, outros vendem lenços”. É realmente trágico pensar que o real possa ficar ainda mais desvalorizado a depender dos riscos que o país passará, sobretudo se não tomar as atitudes que precisa tomar para consistentemente resolver seus problemas ao longo do tempo. Mas, enquanto o Brasil for Brasil, vale realmente a pena pensar em como se proteger de tanta turbulência.

Boa viagem a todos nós neste 2022 que acaba de iniciar!

Hoje o maior blog independente de economia do Brasil, foi criado por 4 amigos em 2014, o motivo? Fornecer análises claras e independentes sobre economia e finanças, sempre com a missão de informar o leitor.

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