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Juros americanos: o passo vai apertando

Tempo de leitura: 5 minutos

A história não é recente, começa na crise de 2008. Mundo financeiro em um caos apenas comparável a 1929. A resposta dos bancos centrais dos países desenvolvidos acabou sendo injetar liquidez na economia para evitar um colapso. Vários trimestres depois as coisas voltaram “ao normal”, com uma exceção: aquela liquidez praticamente não diminuiu.

Tomemos como exemplo o balanço do FED, o banco central dos EUA, os ativos adquiridos com a liquidez injetada aumentaram em valor o balanço entre 2008 e 2015, que teve seus valores em certa estabilidade até 2018 e, entre 2018 e o fim de 2019, observou certa diminuição do balanço. Essa operação de diminuição do tamanho do balanço de um banco central é o famoso tapering.

Então veio a pandemia e uma nova injeção maciça de liquidez se fez necessária: o balanço literalmente mais do que dobrou de tamanho em relação ao seu máximo.

Em um dos últimos artigos de 2021 fizemos o alerta: em 2022 os juros no Tio Sam sinalizavam alta e a atuação, depois de mais de uma década, viraria para o campo contracionista (ou ao menos caminharia para isso). Acontece que, em anúncio recente, não só isso se confirmou como também foi colocado na mesa que é algo que pode acontecer mais rápido e intenso do que se esperava.

O que se previa vs o que se vê agora

Até os últimos momentos de 2021, o que a grande maioria dos analistas indicava, de acordo com o que interpretavam a partir das sinalizações do FED, era que o programa de compra de ativos (o tapering) se reduziria até se encerrar no primeiro trimestre deste ano e, no segundo semestre, pelo menos dois aumentos na taxa de juros aconteceriam.

A mudança recente aconteceu logo na primeira semana de 2022: foram divulgadas as minutas(prima da ata do Copom) da reunião da autoridade monetária americana dos dias 14 e 15 de dezembro e, com um tom hawkish, colocaram no campo de possibilidades que os aumentos de juros podem começar antes (já na reunião de março/22) e ter mais repetições do que se esperava (entre três e quatro), ainda em 2022.

O que puxou essa previsão?

Basicamente dois itens têm trazido essa aceleração para a mesa: a inflação e o mercado de trabalho. Ambos pelo mesmo motivo, que é a recuperação econômica de modo mais vigoroso do que se imaginava até poucos trimestres atrás. Um impactando preços e o outro salários, sendo ambos processos simultâneos e interconectados.

Pelo lado da inflação, os dados mais recentes mostram que a inflação em 12 meses está em 6,8%. Como brasileiros talvez não achamos isso muito, mas duas informações fazem bastante diferença em relação a isso: nos EUA a meta (ainda que de maneira flexível e com foco no longo prazo) é de 2% e, no nível que se encontra atualmente, representa o maior valor desde 1982.

Já observando o lado do mercado de trabalho, uma frase de uma análise recente do Financial Times resume a questão: hotter it’s ever been (em tradução nossa: o mercado de trabalho mais aquecido que já se viu por lá). Pré pandemia o nível de desemprego era de 3,5%, chegou no ápice das paralisações a superar 14% e hoje já está em notáveis 3,9%.

Vale frisar uma vez mais que os dois sinais são positivos para a economia real mas afetam os rumos da política monetária para que seja mais rápida em reduzir estímulos. Afinal de contas, se a economia já anda sozinha, qual seria o sentido de manter os estímulos como se ela ainda estivesse na maior das paralisações?

O que devemos esperar agora?

Para além de sinalizações, ações também são muito importantes. Na verdade, são mais importantes do que as próprias sinalizações. A expectativa desse apertar de passo tende a ser uma confirmação, mas já está tendo efeito de curto prazo sobre os mercados: a redução dos estímulos que está por vir já traz um certo desânimo aos mercados, dos desenvolvidos (como dos EUA, que cresceu dois dígitos em 2021) aos emergentes (o nosso, que esteve no campo negativo ano passado, fica ainda mais instável agora).

É possível que essa situação seja revertida e a redução de estímulos deixe de ocorrer? Sempre é, mas as chances são cada vez mais baixas. Independente do cenário que forme isso, a única forma de permitir que esse caminho anunciado se reverta envolve a economia global precisar de mais liquidez agora. Sim, isso parece bastante improvável, sobretudo porque globalmente a inflação já sinaliza de maneira bastante explícita que há mais dinheiro em circulação estimulando a demanda e trazendo a economia para a normalidade do que o necessário.

Liquidez quase-infinita chegando ao fim

Levando em conta a imensa quantidade de liquidez financeira na economia global atual, essa redução que se aproxima terá efeitos não triviais e deve ser acompanhada com cautela. E, também pensando nesse montante imenso, não dá para esperar que essa redução ocorra em um prazo tão rápido assim – tudo isso levará alguns anos para ocorrer.

Porém, o que precisa ficar claro é que, já no curto prazo, essa redução de liquidez financeira deve levar mercados no mundo todo a uma verdadeira fuga a ativos de qualidade, pois, não tendo mais “recursos a perder de vista”, ficará cada dia mais necessário priorizar as tomadas de decisões no mundo dos investimentos.

Quem não arrumou a casa nessa mais de uma década de liquidez extraordinária, seja um país ou uma empresa, tende a sofrer mais do que quem está com condições mais adequadas. De novo: será um período pouco trivial e que demandará atenção de todos.

O mar tende a ficar mais agitado. Fiquemos atentos!

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