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Irã, Embaixadas Americanas e o Acordo Nuclear

O final de 2019 trouxe uma série de sinais positivos que reduziram os anseios ao redor de uma possível recessão global que pairava sobre as bolsas globais. Indicadores positivos na Europa e na Ásia, um melhor entendimento entre China e EUA e um crescimento econômico além do esperado aqui no Brasil resultaram em uma sucessão de altas históricas aqui e lá fora, até a manhã da sexta-feira passada, quando o Departamento de Defesa Americano anunciou a morte de Qasem Soleimani, um general de alto patente iraniano.

A operação militar reafirmou a volatilidade do Oriente Médio. A região, que tem a instabilidade e os conflitos que resultam dela como característica definidora, retomou a atenção do mundo, principalmente em razão das possíveis implicações sobre o preço do petróleo. Para o mercado, o evento foi um banho de agua fria que cessou a festa de fim de ano prolongada.

A história

O conflito pérsico-americano tem as suas raízes na revolução islâmica de 1979, quando o Shah, um monarca aliado aos EAU, foi deposto por conservadores religiosos dessatisfeitos com a modernização ocidentalista que transformava o país. O conflito culminou em uma invasão da embaixada americana em Tehran, capital do país, e no sequestro de 52 americanos que ali trabalhavam por mais de um ano. Apesar dos dois estados nunca entrarem em conflito direto, o relacionamento entre os países nunca se normalizou.

Quarenta anos depois, em outra embaixada americana, desta vez na capital iraquiana, enfurecidos com mais um ataque aéreo estadunidense, milicianos xiitas, apoiados pelo Irã, ensaiavam outra invasão. Os agressores penetraram o complexo americano, mas ainda estavam longe de representar uma ameaça física aos diplomatas protegidos por inúmeras camadas de segurança. Mesmo assim, o evento remeteu não só a invasão em 1979, mas também a um evento mais recente sucedido em Bengasi, capital da Líbia, onde um ataque terrorista em 2012 resultou na morte do embaixador americano Christopher Stevens.

Durante a campanha presidencial que elegeu Donald Trump, o republicano culpou a sua rival democrata, Hilary Clinton, pela morte de Stevens. O embaixador requisitou reforços de segurança repetidamente para o Departamento de Estado, na época comandado pela então secretaria Clinton. Os seus apelos foram ignorados até a sua preocupação ser confirmada pela sua própria morte.

Trump, decidido em tomar uma postura mais ativa diante ameaças aos seus diplomatas, enxergou a tentativa de invadir a embaixada americana de Bagdá, orquestrada e alentada pelo Irã, como a última gota d’água em uma série de provocações feitas desde que o EUA abandonou o tratado nuclear.

Firmado durante o governo Obama, o entendimento multilateral aliviava sanções internacionais sobre o país persa contingenciado por uma redução no programa nuclear bélico que seria inspecionada por técnico das Nações Unidas.

O Irã apostava que a postura isolacionista do presidente americano diante o oriente médio garantiria a impunidade dos seus atos. Um grave erro que resultou em uma perda considerável de capital humano. Soleimani se tornou um alvo não só pela sua relevância, mas também por comandar a forca Quds, um braço do exército iraniano responsável, entre outras coisas, por operações secretas extraterritoriais. Através de milícias xiitas, o Irã externalizava sua frustração com as sanções que arruinavam a sua economia atacando bases americanas no Iraque.

De um ponto de vista doméstico, apesar da perda de um líder estimado, o ataque cria uma conveniente distração para os problemas econômicos vividos pelo Irã. Até quinta-feira passada, o país passava por um momento político sensível após dois anos consecutivos de recessão econômica. A projeções feitas pelo Fundo Monetário Internacional preveem para o ano de 2019 uma retração econômica de 9.5% e uma taxa de inflação de 35.7%. Aumentos ao preço da gasolina desencadearam uma série de protestos que foram reprimidos de forma violenta, resultando em centenas de mortes.

A morte de Soleimani mudou tudo. No domingo, ninguém discutiu a estagnação econômica no Parlamento Iraniano. Todos os legisladores se reuniram no centro da casa legislativa e desejaram, de forma uníssona, “morte à América”.

O óbito do general também extingui qualquer possibilidade de diplomacia entre os dois países. O tratado nuclear, que era mantido vivo por nações europeias que aguardavam a próxima eleição americana – a esperança era que uma troca de liderança resultaria na reinserção americana no acordo – deve ser extinguido caso o Irã sustente a sua ameaça de abandonar todas as restrições operacionais sobre o seu programa nuclear.

O resultado é um Irã mais isolado economicamente e os EUA sendo forçado a decidir se tolerará um novo país com armas atômicas na região ou se prefere tomar alguma ação militar para impedir que o país persa ascenda ao patamar de potência nuclear.

Até o momento, a operação teve um impacto econômico passageiro. Após um alta acentuada sobre o preço do petróleo na sexta-feira do ataque, a commodity registrou dois dias com leves baixas. A alteração em preço no barril entre a segunda-feira que antecedeu e procedeu o ataque aéreo foi de pouco mais de US$ 1. O aumento no preço do barril após a retaliação iraniana foi intenso durante madrugada, mas imediatamente começou a perder força. Um pouco antes das 12:00 hrs (BRT) a movimentação do preço do barril já estava em território negativo.

A retaliação Iraniana, um ataque a bases da coalizão americana no Iraque, aparenta ter sido orquestrado para satisfazer o público interno. Após o lançamento dos misseis, o Irã comunicou internamente que a operação resultou na morte de trinta americanos, além de ser um fato impossível de averiguar em imediato, foi completamente fabricado. Até o momento, nenhuma morte americana foi reportada.

A tese que o Irã errou propositalmente as bases americanas é defendida por muitos. É uma teoria intestável, mas representaria uma decisão astuta por parte dos líderes iranianos. O ataque propositalmente impreciso satisfaz os anseios revanchistas do público doméstico, sem provocar a irá dos EUA. A declaração do secretário de estado iraniano, Mohammad Javad Zarif, anunciando que retaliação já tinha sido concluída, além de explicitar o desejo de não escalar a guerra, afina-se a está teoria.

Na tarde da quarta-feira, a declaração feita por Trump deu a entender que o ciclo de sucessivas retaliações militares, entre os dois estados combatentes, se encerrou.  Nada obstante, o EUA pretende intensificar o cerco econômico que pressiona o país persa. Além disso, Trump prometeu que durante a sua presidência o Irã não se tornará, em hipótese alguma, em um poder nuclear. O conflito deve minguar no curto prazo e a possibilidade de uma guerra plena diminui consideravelmente.

Mesmo assim, no longo e médio prazo, ainda restará a questão do apetite Iraniano por armas nucleares e como o EUA se posicionará diante dele. As intensificações das sanções econômicas exercerão ainda mais pressão sobre a economia iraniana e consequentemente sobre o governo do aiatolá Ruhollah Khomein, provavelmente dando vez a mais inquietação civil dentro do país.

Agora, o Irã terá que optar entre uma postura mais colaborativa e menos beligerante ou dar continuidade às provocações contra o EUA e ao seu programa nuclear. A ação decisiva tomada por Trump, que resultou na morte de Soleimani, sugere que a primeira opção é a mais ajuizada.

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