Inflação e Política monetária nas economias desenvolvidas

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O otimismo presente neste início de ano, sobretudo relacionado aos avanços nas campanhas de vacinação e a consequente recuperação socioeconômica dos países, chama a atenção para uma possível situação: um aumento intenso na inflação, chamado de reflação, nos países desenvolvidos. Associado a isso, a expectativa de que as famílias retornarão rapidamente aos seus antigos padrões de expressivo consumo e os pacotes de recuperação da economia, como o trilionário dos EUA (ainda em negociação), indicam a possibilidade de ocorrer uma forte e repentina pressão na demanda. Porém, as mudanças que ocorrem a décadas na economia podem impedir que isso ocorra.

Primeiramente, as economias desenvolvidas, como os Estados Unidos, vêm apresentando taxas de inflação abaixo das metas de seus Bancos Centrais. Uma das possíveis explicações é a prioridade dada por esses órgãos, em sua comunicação com a população, ao controle do aumento dos preços. Com isto, se formou uma sólida expectativa ancorada da sociedade de que a inflação baixa, até mesmo menor que a meta, é positiva para economia, dificultando a concretização dos objetivos de tais instituições financeiras, já que a expectativa tem um papel fundamental na trajetória da inflação efetiva. 

Por exemplo, devido aos sucessivos índices abaixo de sua meta de 2%, o Federal Reserve precisou modificar, em 2020, a sua estrutura de política monetária em relação à inflação, adotando o “Average Inflation Targeting”. Esse novo modelo permite que, em determinados momentos, a inflação suba acima dos 2%, para compensar os diversos meses em que ficou abaixo deste valor. Dessa forma, o Banco Central americano tentará fazer com que a expectativa inflacionária do país, que estava até mesmo abaixo da meta, aproxime-se mais de seu alvo estabelecido.

Em segundo lugar, nota-se que os preços são menos sensíveis a variações na atividade econômica. Na metade do século passado, um economista chamado William Phillips desenvolveu a curva de Phillips, um conceito que correlaciona negativamente a inflação com a taxa de desemprego. Assim, em uma economia, caso a taxa de desemprego caísse, como em momentos de expansão da atividade, a inflação tenderia a aumentar, por conta do crescimento da demanda e dos maiores custos de produção com salários, e vice-versa.

Porém, como já notado por inúmeros acadêmicos e banqueiros centrais, como Jerome Powell, a Curva de Phillips vem perdendo a sua intensidade, o que explica as inflações cada vez mais baixas observadas nos países desenvolvidos. Isso se deve, principalmente, por conta de mudanças graduais que ocorreram na estrutura da economia, desde que essa teoria foi criada, como o progresso tecnológico, as transformações demográficas e a globalização.

Em relação ao progresso tecnológico, é inegável o aumento de produtividade que ocorreu como consequência deste processo. Por conta disso, os custos unitários de produção foram majoritariamente reduzidos e houve um desenvolvimento estrutural no lado da oferta da economia, diminuindo a pressão inflacionária. Além disso, um outro recente desdobramento desse progresso, chamado “sharing economy”, que se baseia no compartilhamento do uso de bens e serviços privados, também impacta na diminuição do aumento de preços. Por conta de empresas como Airbnb, por exemplo, agora é possível comercializar facilmente bens que poderiam estar ociosos, o que aumenta a produtividade das economias.

Nas transformações demográficas, pode-se citar o evidente envelhecimento populacional, um processo já visto em grandes economias, como a do Japão, por conta das quedas na taxa de natalidade e o aumento da expectativa de vida. Assim, na medida em que a população fica mais velha e se aproxima da aposentadoria, os salários da economia tendem a ser pressionados para baixo, já que as suas habilidades começam a ficar obsoletas e os salários menores passam a ser aceitos por mais trabalhadores, para que se mantenham empregados. Além disso, como muitos aposentados recebem pensões limitadas, o seu consumo passa a ser mais restrito ainda, o que também prejudica a demanda e, consequentemente, impacta negativamente a inflação.

Já a globalização também é uma fonte de interpretação para as baixas inflações recentes. Nesse intenso processo, as nações e suas economias se tornaram intensamente integradas, promovendo uma maior competição, nos diversos segmentos. Por conseguinte, para se manterem nesses mercados mais competitivos, as empresas precisam diminuir as suas margens de lucro e os preços finais, ocasionando uma queda na inflação. Porém, mesmo apresentando uma justificativa plausível para a situação, estudos recentes mostram que a globalização não exerce uma grande influência na atual dinâmica inflacionária das nações.

Dessa maneira, mesmo com a possibilidade de que a demanda seja estimulada nos próximos anos, a concretização de um aumento vertiginoso e consistente da inflação nas economias desenvolvidas, e principalmente nos EUA, parece improvável. Além do impacto negativo no aumento de preços causado pela baixa expectativa ancorada; o progresso tecnológico; o envelhecimento populacional e, em partes, a globalização, a alta ociosidade econômica, uma mudança conjuntural que foi intensificada pela pandemia, também corrobora para que essa situação não se realize intensamente.

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