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As lições profissionais do governo Bolsonaro

Tempo de leitura: 6 minutos

Você que abriu este artigo deve estar pensando que nós, do Terraço Econômico, enlouquecemos. Por que falar sobre lições deixadas por quem faz o contrário do que seria o mais indicado? Mas é justamente nesse ponto que você precisa se lembrar de uma antiga máxima, as duas maneiras de aprender com os erros são: aprender com próprios erros ou aprender com os dos outros. Confira! Neste caso, falaremos aqui sobre como você pode optar por esse segundo meio.

Todas as analogias aqui utilizadas levarão em conta uma trajetória empresarial, mas que certamente você se lembrará com detalhes de tudo que pudemos observar nestes quase três anos do governo Bolsonaro.

Não prometa o que não irá fazer

Suponha que você entrou em uma empresa recentemente. Pesquisou sobre tudo que ela faz, como as pessoas ali trabalham, o que de mais importante se tem naquela cultura empresarial. Para quem te contratou, a aposta de que seu desempenho será satisfatório e condizente com o que será pago – ou então não haveria confirmação de você ali. 

Agora, imagine que no exame admissional te adicionam no grupo de WhatsApp da empresa e te dão as boas-vindas. Você, alegre, agradece e diz que está animado para começar essa nova jornada em sua vida profissional. Seria a hora, neste momento, de apontar o tamanho das mudanças que ocorreriam no negócio com a sua chegada? O tamanho dos resultados, um comparativo “real” sobre a diferença que você fará ali e até breves comentários maldosos sobre quem esteve ali anteriormente (“vou ser melhor que todo mundo que já esteve no meu lugar”)?

Pode até ser que você entre por esse perigoso e audacioso caminho. Mas saiba que, se você o fizer – como Paulo Guedes fez antes mesmo de entrar para ocupar o cargo, na verdade até antes mesmo das eleições ocorrerem em 2018 -, ninguém será complacente com erros tolos que você vier a cometer. Colocar um sarrafo muito mais alto do que você efetivamente pode pular só dá em um resultado: levar um belo tombo no pulo sem ter a mínima chance de alcançar o que se anunciou.

Saiba quem resolve as coisas e quem apenas fala sobre

Tendo entrado para a empresa, já com expectativas elevadas de todos, você busca começar a trilhar o caminho para o sucesso alardeado. Olha os processos, verifica o que poderia ser mudado e tem uma ideia genial: vou contar pra todo mundo como isso aqui é ineficiente, tosco e precisa urgentemente ser melhorado. Só que tem um pequeno problema: você não sabe quem seriam as pessoas pelas quais você passa (afinal, acabou de chegar) para que possa colocar em prática essas resoluções todas.

Então você decide se revoltar. “Ninguém quer me ajudar a tornar esse local mais eficiente” passa a ser seu mantra de todos os dias. Mas, ainda assim, você não se deu ao trabalho de procurar quem poderia de fato te ajudar.

Existem nas diversas estruturas públicas as pessoas que são nomeadas pelos políticos da ocasião, e aquelas que ali estão há muito tempo, os concursados. Independente da visão que você tenha sobre eles ou da ineficiência que, com dados ou não, você creia existir ali, lembre-se sempre que as mudanças reais são feitas com quem já estava ali antes da sua chegada. 

E, por mais óbvio que pareça o lembrete, dizer que todo mundo “joga contra” – ou mesmo é parasita – certamente não contribuirá para que quem de fato consegue mover as coisas fique ao seu lado. No fim das contas, provavelmente só quem gostou da sua postura “inovadora” (mas não tem o menor poder de fogo para nada dentro daquela estrutura) vai ficar ao seu lado.

Lide com a realidade, não com o que você gostaria que ela fosse

O tempo vai passando, você começa a deixar ainda mais clara sua intenção de mudar radicalmente as coisas. Brada o tempo todo pelos corredores do negócio que, dependendo da sua vontade, tudo aquilo seria muito melhor.

Lidar com a realidade é algo que importa muito porque demonstra que você, para além de ideias que pretende propor, consegue pelo menos imaginar um meio de fazer com que as ideias virem planos e os planos possam gerar ações concretas.

Em absolutamente todas as vezes que você não refletir sobre como está visualizando as coisas – se estão conforme o que você gostaria que fossem ou como de fato são -, a frustração será inevitável, porque avanço nenhum irá ocorrer. Pode ser que você esteja falando em surpreender a todos sendo meramente motivo de riso de quem decide parar para te ouvir.

O custo de ameaçar e pedir desculpas

Lembra daquela sua ideia de sinalizar que todos que estavam ali antes de você eram ineficientes e que aqueles que estão agora não colaboram com nada? Então: como em lugar nenhum qualquer coisa de relevante é feita com uma pessoa sozinha, logo você descobrirá que se quiser transformar indignação em ação terá de se esforçar em dobro para convencer as pessoas a comprarem sua ideia.

Não se trata do caso de que as pessoas tenham pegado “birra” de você, mas simplesmente do fato de que ninguém costuma ser tão benevolente assim com quem lhe achincalhou anteriormente.

Levando em conta a vida empresarial, isso pode significar alguns almoços em locais caros que você pagará do seu bolso para tentar convencer que agora as ideias podem mesmo funcionar – e que você está arrependido do que falou pelos cotovelos e por todos os cantos anteriormente. Mas, na vida pública, isso significa que todos nós pagaremos a mais, por exemplo em um fundo eleitoral e emendas, ou mesmo em um orçamento secreto que caiu justamente na véspera de um dia estratégico. Importante lembrar que esse dia estratégico agora não é nem para uma mudança importante, mas para uma tentativa de evitar a implosão total das coisas – o que é bem diferente da enorme mudança vendida antes de entrar.

Seu histórico fala por você

Ao longo deste artigo, você pode ter se lembrado de pessoas que encontrou pela vida profissional ou mesmo de períodos em que na sua própria trajetória acabou cometendo equívocos dos quais até hoje você possa se arrepender ou sofrer consequências.

Mais importante do que procurar culpados é fazer diferente e direcionar caminhos. Bem mais relevante do que dizer que algo está errado é fazer sua parte para que o certo vire a nova tônica. E, como último ponto, é muito melhor superar as expectativas colocadas na mesa do que imaginar que apenas tê-las apresentado seja suficiente.

É possível que você também tenha visualizado que nada aqui importa e que os erros todos que já possam ter ocorrido em sua trajetória eram de única e exclusiva responsabilidade das pessoas que com você estiveram. Sendo este o caso, boa sorte brigando com os moinhos de vento da vida enquanto até quem você tanto criticou anteriormente fecha as portas para quaisquer possibilidades futuras. 

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