EUA: o impeachment de Donald Trump?

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It’s Democracy — Not Trump — That’s on Trial on Capitol Hill”, afirma em letras garrafais a newsletter da Casa Branca, enviada por e-mail nesta segunda-feira, dia 18 de novembro. Chamada de “West Wing Reads”, a publicação costuma citar e comentar matérias de jornais e opiniões de especialistas sobre os mais diversos assuntos, sempre favoráveis a Donald Trump e Cia, é claro. Desta vez, foi nítida a atenção dada ao processo de impeachment do presidente. Afinal, o que podemos dizer hoje sobre este assunto? Deveríamos nos preocupar com isto? Sob a ótica dos mercados, é um tema importante para monitorar? Quando o assunto é política americana, há algum outro fator que mereça a atenção?

O impeachment entrou no radar

Não há como negar: o assunto “impeachment” está nos holofotes, e sempre saem matérias na mídia sobre o assunto. Nas últimas semanas, foram ouvidas algumas pessoas importantes quanto às alegações feitas contra o presidente, e é possível que estas incertezas envolvendo o processo aumentem nos próximos meses. Por enquanto, no entanto, estamos apenas no início deste processo, e as reações dos investidores têm sido tímidas, para dizer o mínimo. No final das contas, é mais uma incerteza político-econômica, em meio a tantas outras (potencialmente mais relevantes para os mercados). Assim, acredito que há outros riscos mais importantes para serem monitorados neste momento (inclusive na política!), e vários dos meus comentários aqui no blog tem coberto estes assuntos (a maioria deles no campo econômico).

O passado nos diz algo útil?

Ainda sobre o impeachment: talvez valha olhar para o passado recente para tentarmos prever o futuro. Três presidentes americanos sofreram ou estiveram muito próximos disto: Andrew Johnson (1868), Richard Nixon (1974) e Bill Clinton (1998-1999). Por razões óbvias, deixo o caso-Johnson de lado. Quanto ao caso-Nixon: o S&P 500 recuou 11% no mês seguinte à abertura do processo, após envolvimento naquilo que ficou conhecido como Watergate. Recuou mais de 30% no ano seguinte, mas outros eventos parecem ter sido mais importantes do que este para explicar este desempenho da bolsa e da economia naquele momento (os juros do FED foram à casa dos dois dígitos numa tentativa de controlar a inflação, por exemplo). Na era Clinton, algo um pouco diferente: o S&P 500 recuou aproximados 20% nos meses que antecederam o impeachment da Câmara, mas subiu logo na sequência. Entre o início do processo e a absolvição do Senado a bolsa subiu quase 30%, por exemplo. Em suma: há evidências mistas, e sem nenhuma condição para fazermos paralelos razoáveis entre estes momentos históricos.

Hoje, o que mais temos para olhar?

Além do processo de impeachment, das relações EUA-China (quem está ganhando com as tensões comerciais?) e do ambiente econômico, é importante lembrar das eleições presidenciais, marcadas para novembro de 2020. Isto se tornará um assunto cada vez mais importante e, em minha opinião, acabará ofuscando este processo de impeachment contra o presidente Trump. Aliás, vale ressaltar: por enquanto, não sabemos quem será o candidato dos Democratas a disputar a Casa Branca contra Trump (e isto é algo com grande potencial para afetar aos mercados!). Afinal, não é necessariamente verdade que o democrata que vencer a corrida interna do partido será o adversário mais perigoso contra Trump. Este jogo político será cada vez mais importante nos próximos meses, e ainda há muitas dúvidas no ar.

Atenção à corrida eleitoral

Como um indicativo do possível crescimento das incertezas no cenário político dos EUA, vale notar que o grupo atual de democratas que concorrem para ser o rival de Trump, hoje composto por 18 nomes, está entre os maiores e mais diversos que já foram vistos na história do país. Entre estes, além de Joe Biden e Bernie Sanders, está a senadora Elizabeth Warren – alguém que tem crescido nas pesquisas e que preocupa a muitos com o seu discurso pró-regulação em vários setores, incluindo o das Big Techs. Ou seja: se Warren continuar a ganhar espaço (enquanto Biden tem perdido forças nos últimos meses), a possibilidade de mais regulação (e um discurso por vezes rotulado como “contrário aos mercados”) pode se tornar uma incerteza enorme sobre Wall Street. Este é um risco ainda pouco levado a série, mas já tem feito preço nos mercados. Num momento de valuations esticados e bolsas nas alturas, como reagirão os investidores se Warren continuar a crescer? Este é o verdadeiro risco político.

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