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Entre o urgente e o importante, o problema é a credibilidade

Tempo de leitura: 6 minutos

Os problemas podem ser divididos entre dois grupos: os importantes e os urgentes. Em um país como o nosso, há o híbrido caso de questões em que a importância e a urgência disputam palmo a palmo quem terá mais atenção. É exatamente esse o caso do nosso lado fiscal: há décadas sabemos que algo precisa ser feito para que a trajetória dos gastos do Estado fique dentro das reais possibilidades (sem virar meramente carga tributária, inflação, dívida pública ou um misto de todos esses). Mas, em praticamente toda semana, temos uma questão de curtíssimo prazo a ser resolvida que nos impede de pensar em uma janela mais ampla de tempo.

Nos últimos meses, as questões urgentes que têm tomado o cenário são a ampliação do Auxílio Emergencial (e um incremento de valor no Bolsa Família, mudando o nome do programa e algumas de suas regras) e o pagamento, regular ou de maneira nova, dos precatórios (que são recursos que o governo tem de pagar e no máximo pode negociar os meios de o fazer). As duas questões batem de frente com um compromisso de longo prazo de nome bastante conhecido: o Teto de Gastos.

Sem entrar na tecnicidade e nos números que provavelmente você já viu em outros lugares, a discussão aqui ficará restrita sobre o real motivo que traz tanta preocupação, assusta tanto os mercados e se traduz em um aumento de risco.

O que se colocou na mesa em 2018…

Tudo começou com uma possibilidade considerada distante. Ao início daquele ano eleitoral, Bolsonaro com intenções de voto que eram metade das de Lula, soava mais como um candidato histriônico do que qualquer outra coisa. A prisão de quem liderava as pesquisas e o recado das ruas de que o tradicional na política não seria mais tolerado, que algo diferente seria buscado, colocou o candidato improvável como sendo uma possibilidade de, como o mesmo sempre disse, “mudar isso daí”.

Para não afastar quem duvidasse, dois coringas foram colocados para o jogo: Sergio Moro, símbolo do combate à corrupção que foi figura muito destacada na Operação Lava Jato e Paulo Guedes, o famoso “posto Ipiranga”, economista com carreira notável no mercado financeiro que seria o braço sinalizador de que, no tocante a economia, o país seguiria por um rumo mais liberal, em que o Estado sofreria ajustes para, enfim, caber no orçamento.

2019, o primeiro ano, sinalizava que o “mudar isso daí” tinha algum fundamento: mudanças no Ministério da Justiça mostravam efeitos sobre a redução de números de violência (como uma queda de mais de 20% nos homicídios) e a maior reforma da previdência aprovada até então, com efeito fiscal de mais de R$800 bilhões em dez anos e enfim uma definição mais firme sobre idade mínima, mostrava que o Ministério da Economia estava botando os planos em operação.

… parece que durou só em 2019

O segundo ano de Bolsonaro já não foi tão próspero como o primeiro. Primeiramente, uma pandemia começou a assolar o mundo e, dela, ninguém escapou sem ter de fazer alterações das mais diversas, incluindo uma quantidade imensa de desembolsos adicionais para sustentar minimamente a situação. Em segundo lugar, ao final de abril, Sergio Moro decide sair do governo e, em um discurso bastante duro nessa saída, sinaliza que o governo não estava tão comprometido na luta contra a corrupção quanto dizia ser inicialmente. Em terceiro, algo que vinha desde o ano anterior quando a reforma previdenciária já havia passado na Câmara e caminhava para o Senado: qual a pauta do pós-previdência?

Especificamente em relação a este terceiro ponto, começava um questionamento sobre quais seriam os planos a serem colocados na mesa para discussão. Será que haveria o mesmo foco? A articulação conseguiria avanços importantes tanto em termos de produtividade da economia quanto do lado dos gastos?

Com o passar do tempo, mais brigas entre o urgente e o importante: a urgente demanda por desembolsos de sustentação (como o Auxílio Emergencial) em pé de guerra com a necessidade de continuar realizando reformas estruturais na economia (algumas reformas mais urgentes do que outras). “Nesse intervalo os planos serão pensados”, muitos de nós pontuamos ou ao menos tivemos esperança de. Em junho de 2020, um primeiro anúncio importante: passado tudo isso, o Bolsa Família seria reforçado.

Seguimos em pandemia até hoje. Mas, em uma situação que em termos sanitários sinaliza ser consideravelmente mais tranquila hoje do que já foi em seu ápice, graças ao avanço da vacinação. Não obstante, aparentemente, toda a tensão típica de assuntos urgentes segue no radar: por exemplo, ainda seguimos sem definição de como será exatamente o programa que substituirá o Bolsa Família, com a grande possibilidade desse plano extrapolar o teto de gastos. A cada nova semana uma problemática supostamente urgente toma toda a atenção, poucas semanas atrás foi o preço dos combustíveis, hoje parece ser um auxílio a caminhoneiros autônomos.

Tudo urgente, nada importante, tudo parado: credibilidade pelo ralo

Dado que todos os momentos aqui apontados já foram amplamente discutidos inclusive nesta coluna nos últimos meses e anos, é possível que o leitor esteja pensando: “estou tendo um déjà vu enquanto leio tudo isso? Na verdade, esse enredo todo foi trazido a você por um simples motivo: demonstrar como não são apenas os acontecimentos mais recentes que impactam e pressionam o cenário atual, mas uma literal falta de paciência para com promessas que desembocam, no máximo, em novas promessas.

Podem ser alegados que o espaço de tempo foi curto e que fatores externos pesados demais entraram para o cenário, o que impossibilitaria que a situação fosse diferente. Mas, fosse esse o caso, notaríamos em todo o globo uma situação análoga à da desesperança que os mercados precificam quando o assunto é o Brasil atual. No entanto, em aspectos diferentes, estamos ou na lanterna ou em um dos piores dentro da economia mundial nesse exato momento.

Muitas saídas foram registradas na equipe econômica desde que a impressão passada foi a de que o plano “mudar isso daí” não era tão robusto quanto o que se esperava – ou sequer existia. Enquanto este artigo está sendo escrito, nem Secretário do Tesouro (que é quem “segura a chave do cofre do governo”) nós temos.

Quem vai vencer a briga entre o urgente e o importante, no Brasil, pouco importa nesse exato momento. Se o teto de gastos ainda existe, também não. Nada disso estaria sequer em questão se a credibilidade não tivesse deixado a sala – e esse, no fim das contas, é o real problema pelo qual passamos agora.

Independente do lado em que você decida estar agora, seja o de acreditar que reais mudanças ainda podem acontecer ou mesmo que de agora em diante no máximo se impede uma implosão do que ainda puder impedir, lembre-se sempre de uma coisa muito importante: quando a credibilidade sai da sala é porque a música parou de tocar e, quem seguiu dançando, está apenas passando vergonha para todo mundo que parou para ver. E é muito mais difícil convencer a banda a voltar a tocar do que discursos vazios e esperançosos fazem parecer.

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