EL ENEMIGO

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Nos últimos meses, o Brasil mostrou alguns sinais de melhora em termos de atividade econômica. Nada muito animador, mas é movimento que merece algum destaque, em nossa opinião. Ainda que não se mostre sustentável, a melhora do início de 2017 ao menos tenta interromper o aprofundamento da crise, que teve início lá no 1º semestre de 2014.

Ontem, diga-se de passagem, o IBGE divulgou uma melhora das vendas de varejo de abril. Houve uma melhora frente ao mês de março¹, e chegou a superar as estimativas do mercado. Mas isso não quer dizer que o consumo voltará a crescer já nos próximos meses. Longe disso. Afinal, o desemprego continua elevado, e políticas específicas – como a liberação das contas inativas do FGTS – podem ter dado um impulso não-duradouro ao varejo.


Importante: não fosse a atual crise política – agravada pelas “delações-JBS” –, os recentes sinais de melhora do Brasil estariam sendo vistos de forma distinta. Resta saber se – e como – esta tímida melhora sobreviverá à turbulência política que assola Brasília. Traçar cenários torna-se, neste contexto, tarefa ainda mais inglória e desafiadora para nós, analistas.


 

Considerando que o crescimento do PIB brasileiro, neste 1º trimestre de 2017, foi beneficiado pelo setor exportador, e não pela chamada “absorção doméstica” (componente atrelado à economia doméstica, como é o caso do “consumo” e dos “investimentos”), vale analisar como o resto do mundo tem se comportado nos últimos meses.

Ou seja: qual é o ritmo das demais economias do mundo? Mais: estas têm melhorado ou piorado nos meses recentes?

É exatamente isto que nos propomos a responder aqui. Afinal, seremos beneficiados quanto mais forte for o crescimento global. Embora o FMI² projete que o mundo ganhará tração neste e no próximo ano, vale fazer alguma diferenciação entre países e/ou bloco de países. Para isso, veja o gráfico a seguir³.

O objetivo é simples: mostrar aqueles países que hoje mostram um ritmo de atividade mais forte, e aqueles que hoje sinalizam contração (eixo vertical). Mas não é só isso: queremos também analisar como tem sido a sua evolução recente (eixo horizontal). Dito de outra forma: não só analisar a “foto” atual (o “hoje”), mas o “vídeo” (a “evolução”) dos últimos meses. Temos, como podemos observar, situações bem distintas.

 

Algumas observações importantes:

• A Zona do Euro está no melhor dos mundos: ótima evolução recente,e sinalização de forte expansão no presente.
Ou seja: a “foto” e o “vídeo” deste bloco são ambas favoráveis. Não é por acaso
que os investidores estão mais confiantes em relação ao futuro das empresas da região;

• O Japão, um pouco mais tímido, também mostra boa evolução, e mostra bom crescimento “hoje”.
Comparado com a Zona do Euro, ambas as dimensões analisadas são menos favoráveis,
mas o cenário é ainda bastante positivo. Não se destaca em nenhuma das duas dimensões analisadas;

• Estados Unidos e Reino Unido perdem fôlego, mas ainda mantém bom ritmo no presente.
Números da economia dos EUA têm frustrado aos economistas, e incertezas políticas
nestes 2 países – Donald Trump nos EUA e Brexit⁴ no Reino Unido – têm contribuído
para esta perda de fôlego da atividade nos últimos meses. Estamos atentos àquilo
que acontece por aqui, e se esta tendência de menor “força” continuará por mais tempo;

• Na China, uma luz amarela se acende.
Além de ter pedido fôlego em relação ao passado recente, o país sinaliza uma expansão
modesta da atividade. Após início mais forte em 2017, o país começa a desacelerar,
e tem contribuído para a queda mais recente das commodities. Ainda não preocupa,
mas não tem tanta “gordura para queimar” (ao contrário de EUA e Reino Unido);

• Por fim, o Brasil: acelerou, mas ainda mostra ritmo fraco.
O fundo do poço pode ter ficado para trás, e é inegável que houve alguma melhora no período
mais recente. Mas não há clareza: o país nem sinaliza expansão, nem sinaliza contração.
Está no limbo. Ou seja: a “foto” ainda é medíocre, embora a evolução tenha sido positiva.
A intensificação e/ou extensão da atual crise política pode contribuir para uma perda de fôlego⁵.

Em suma: estamos longe de um cenário róseo, embora o mundo, até aqui, esteja a nosso favor. Importantes bancos centrais com políticas ainda expansionistas – como é o caso das instituições de Europa e Japão – mantêm a liquidez abundante no exterior, e isso favorece aos mercados emergentes, é claro. O nosso pior inimigo, neste momento, parece morar em casa. Ou melhor: em Brasília.

Observações:

1) Sobre o varejo de abril: +1,0% frente a março, acima dos 0,7% esperados pelo mercado (dados compilados pela Bloomberg). Na comparação com abril de 2016, houve um avanço de 1,9%, bem acima da queda de 1,6% projetada;
2) Relatório de abril/17, World Economic Outlook (WEO), do FMI (aqui). O Fundo projeta que, após ter crescido 3,1% em 2016, a economia global crescerá 3,5% em 2017, e 3,6% em 2018;
3) Utilizamos o índice gerente de compras (índice PMI, na sigla em inglês) para medir o ritmo de atividade “hoje” de cada país e/ou grupo de países. Para medir a “evolução” recente (o “vídeo”), subtraímos do índice PMI atual a média dos últimos 6 meses. Isto nos dá uma ideia da variação, da tendência;
4) O processo de separação do Reino Unido da União Europeia é conhecido como Brexit, e envolve um processo difícil e de incertezas políticas;
5) O banco central deixou esta opinião clara em sua última reunião do Copom (tanto no comunicado oficial quanto na ata da reunião). No comunicado, afirmou: “A manutenção, por tempo prolongado, de níveis de incerteza elevados sobre a evolução do processo de reformas e ajustes na economia pode ter impacto negativo sobre a atividade econômica”.

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