E o investimento no Brasil?

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A dinâmica do investimento privado tem tomado forma conturbada ao longo dos últimos anos. Antes da crise ocorrida em 2020, já apresentava sinais de anemia. A severa recessão econômica de 2014-2016 deixou sequelas não superadas nestes três últimos anos de pífio crescimento econômico.

A taxa de investimento, medida como proporção do PIB, caiu de um pico de 20,74% no início de 2014 para 14,58% no final de 2016. Caiu ainda mais até meados de 2017, atingindo o menor valor desde o ano 2000: 14,3%.

Nos três largos anos que se passaram desde 2016, por ali ficou, com um valor médio de 15,2% entre meados de 2017 e o final de 2019. Com a pandemia, a taxa de investimento resistiu, indo de 15,91% no primeiro trimestre do ano para 15,07% no segundo e recuperando-se de forma relativamente robusta a partir do terceiro trimestre, quando alcançou 16,90%. 

Ainda que a recuperação da taxa de investimento – fruto da combinação de políticas monetária e fiscal agressivas – tenha sido relativamente surpreendente, ainda estamos na estaca zero. Claro, a manutenção de um ambiente de juros baixos favorece a retomada do componente, mas uma volta aos níveis pré-crise de 2014 – 2016 somente acontecerá, como cunhou Keynes há décadas, com o ressurgimento dos “animal spirits” dos empresários, isto é, com a volta do desejo incessante pelo investimento. Desejo este que, no final das contas, reflete apenas a incerteza e a confiança do empresariado. 

Esta incerteza tem se mantido relativamente alta de uns anos para cá, penando para cair de forma sustentada. O Indicador de Incerteza da Economia (IEE-Br) da FGV tem ficado sistematicamente acima de 100 desde o início de 2015, indicado incerteza acima do usual.

Com a pandemia, o índice atingiu um pico de 210 e, desde então, caiu para 145, nível ainda bastante elevado. A mensuração do índice reflete o nível de previsibilidade e, por consequência, determina a propensão a investir. Quanto menor, maior deve ser a taxa de investimento.

Ocorre que, promover a reversão das expectativas, isto é, trazer o índice para abaixo de 100, tem pouca ligação com a política de juros. O juro baixo fornece um terreno confortável sob o qual o investimento toma forma, mas não define seu avanço de maneira sustentável, que está intimamente ligado à política fiscal. Isto é, depende amplamente de uma agenda de ajustes macroeconômicos, dos quais destaca-se a reforme tributária e cujos ganhos de produtividade viabilizam maiores e melhores investimentos, seja pela menor complexidade, seja pela menor insegurança jurídica.

Ainda que o ajuste pelo lado da tributação seja de extrema importância, mudanças previstas no lado dos gastos também tendem a ter efeito positivo sobre a taxa de investimento privada. O verdadeiro ajuste das despesas com pessoal abrirá enorme espaço para a retomada do investimento público em, por exemplo, infraestrutura.

A retomada do investimento público é parte crucial da melhora do investimento privado, uma vez que determina a eficiência da estrutura econômica soba a qual o investimento privado se assenta. Em outras palavras, aprimorar o capital público — já em estado precário —, com melhores ruas, rodovias, portos, aeroportos etc., aumenta a produtividade da economia e opera em sincronia com o investimento privado. Ainda, o avanço da agenda de ajuste de despesas promove uma redução dos juros de longo prazo, fortalecendo justamente o terreno do qual estávamos falando.

Assim, fica claro que, se a história nos ensinou algo, é que a confiança é um importante termômetro para a atividade econômica. Despertar os “animal spirits” dos empresários é fator crucial e requer muito mais do que somente a reformulação do sistema previdenciário. Vejamos até que pontos nossos políticos se atentam a este fato.

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