Déjà vu: México entrou em recessão.

O México entrou em recessão. De acordo com dados revisados e divulgados nesta segunda-feira (26), os dois primeiros trimestres de 2019 registraram uma deterioração da economia. Caracterizou-se, portanto, a chamada “recessão técnica”. Mas pode ser mais do que um mero “detalhe” estatístico: após crescer 2% em 2018, o ano de 2019 começou fraco, e muitos já esperam uma estagnação para o ano como um todo. Se considerarmos os 9 meses até aqui, e fazendo a comparação com o mesmo período de 2018, é exatamente isto o que os dados mostram. Qual a maior causa da recessão? Sempre ligada à economia dos EUA, podemos fazer um paralelo com os vizinhos americanos?

O desafio do presidente Andrés Manuel López Obrador (AMLO) é enorme. Assumiu o cargo em dezembro do ano passado com promessas de fazer a economia crescer, em média, expressivos 4% ao longo do seu mandato de seis anos. Além de outros problemas (como políticas de migração, combate do tráfico de drogas, ameaças de tarifas dos EUA e acordos comerciais que estão no limbo, etc.), precisa lidar com o crescimento global em desaceleração. “O mal-estar político e econômico do México pode ir de mal a pior nos próximos meses”, parecia prever, ainda em setembro, Jorge Castañeda, político e acadêmico mexicano, hoje na New York University. Há solução no curto prazo? Diante de uma economia enfraquecida, aumentou a expectativa para que o seu banco central reduza as taxas de juros, hoje relativamente altas, em 7.5% ao ano. Para muitos analistas, uma das causas da piora econômica recente é a demora para que o Congresso dos EUA aprove o acordo comercial USMCA (“a revisão do Nafta”). Ainda não está claro se o acordo será assinado nos próximos meses, ou ficará para 2020, após as eleições presidenciais (mais provável).

A economia mexicana, desde o início dos anos 1990, tem apresentado ciclos econômicos muito semelhantes aos dos EUA. Por algum tempo, foi uma espécie de vantagem: apesar de ser um país emergente e exportador de petróleo, a ligação estreita com os americanos (especialmente após 1994, com o Nafta) parecia evitar oscilações maiores, típicas de outros países “semelhantes”. Mas se o Nafta conseguiu “proteger” o México em algum sentido (e inseri-lo numa onda de globalização anos atrás), também é verdade que o deixou especialmente vulnerável ao seu vizinho do Norte. Após a Crise da Tequila, em 1994 (reação à elevação dos juros do FED); uma pequena contração no início da década de 2000 (assim como aconteceu nos EUA); e o impacto da crise financeira americana, em 2008-2009, muitos economistas se perguntam: seria esta fraqueza de 2019 mais um indício de que os EUA estão mesmo próximos de uma recessão?

Apesar da tentação de estabelecer alguma relação de causalidade entre EUA e México, não parece que este seja o caso, neste momento. Hoje, o México tem os seus próprios problemas internos, e os dados indicam que esta é “apenas” uma pequena contração, por enquanto. Além de AMLO ter algumas cartas na manga, parece haver espaço para que o banco central reduza os juros adiante – algo que poderia contribuir para reanimar o consumo doméstico. Vale notar: após mantê-los altos para controlar a inflação, os juros reais (descontada a inflação) estão nas máximas em mais de uma década – situação aposta à do Brasil, por exemplo. O “espaço de manobra” do BC mexicano é razoável, ainda que o FED mantenha as taxas de juros estáveis, por um tempo prolongado (o cenário mais provável). Ainda assim, é preciso ressaltar: à luz da História recente, o México – assim como o resto do mundo – precisa que os EUA não desacelerem à frente. Aí sim teríamos um déjà vu.

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