Permitir múltiplos empréstimos com garantia em ativos gerará uma bolha?

Não é novidade para ninguém que o custo de se investir no Brasil sendo pessoa física é alto. Apesar da Selic em mínima histórica, por qual motivo ainda temos esse custo em patamares tão elevados?

Para além da concentração bancária, o Banco Central verificou que isso também ocorre pela dificuldade que se tem em oferecer garantias. Hoje, já é possível utilizar imóvel como garantia de empréstimo, mas em situações específicas. A equipe econômica estuda ampliar as possibilidades de se fazer esse tipo de transação e, para além disso, permitir que mais empréstimos possam ser feitos para um mesmo bem de garantia.

Sobre este aspecto alguns levantaram desconfianças. Seria essa a versão brasileira do subprime que quebrou a economia dos EUA em 2008? Se você não for familiarizado com o que lá ocorreu (e qual seria a conexão com a ideia do Banco Central daqui), recomendo assistir o filme A Grande Aposta, que apresenta de maneira bastante didática tudo que ocorreu. Em resumo: ampliação imensa de garantias permitiu com que muitos empréstimos que não pudessem ser honrados (majoritariamente no setor imobiliário) fossem concedidos, o que deu uma impressão de forte avanço durante alguns anos mas, quando se verificou a real capacidade de pagamento, resultou em uma ressaca mundial de crédito.

A permissão de ampliar os usos de garantia para empréstimos é interessante porque realmente é capaz de reduzir o custo desse financiamento. Afinal de contas, para além de qualquer comprovação de que a pessoa está no grupo de bons pagadores, caso ela tenha um meio mais sólido de honrar com o pagamento no caso de vir a faltar com os pagamentos combinados, não fará tanto sentido que pague o mesmo juro de quem não tem essa comprovação. Até o saldo de PGBL poderá ser utilizado como garantia, pelo que defende o Banco Central.

E por que a desconfiança?

Possivelmente você leitor está pensando: e qual então é a desconfiança de alguns em relação a essa ideia tão boa? Eis a desconfiança: com a ampliação da possibilidade de uso de ativos diferentes para empréstimos diferentes (uma mesma casa podendo servir de garantia para mais de um financiamento, por exemplo), surge o receio de que, tal qual vimos na crise do subprime, a capacidade de pagamento seja esticada de modo irreal.

O que faz o projeto do Banco Central ser diferente do que permitiu tamanha catástrofe creditícia nos EUA é o fato de que, por aqui, a regulamentação que permitirá que isso ocorra fará verificação da capacidade real de pagamento diante de uma garantia de maneira centralizada, através de uma central de garantias privada a ser montada pelo mercado. O papel dessa entidade seria basicamente de verificar qual o volume de empréstimos em termos gerais (não só considerando uma instituição, mas todo o mercado) um indivíduo seria capaz de pegar.

Levando em consideração que essa central de garantias seja devidamente estabelecida por meios regulatórios, temos que o efeito direto em um curto período de tempo (poucos anos) será o de verificarmos uma real e sustentável queda no custo de financiamento para pessoas físicas no Brasil. Porém, é importante ressaltar que essa verificação é condição sine qua non para que a ideia dê certo. O motivo é simples: caso não exista tal controle, assim como nos EUA, durante um certo período de anos a ideia será de que o custo de financiamento praticamente zerou e que não há limites para pegar empréstimo – porém, ao menor sinal de insustentabilidade, o sistema todo irá ruir.

A atenção a como essa central de garantias será estabelecida é primordial para que um projeto tão interessante seja confirmado como boa ideia ou se transforme no aguardo de um enorme caos no setor de crédito brasileiro em alguns anos.

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