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Coordenação governamental importa

Um dos aspectos mais relevantes que têm sido discutidos perante a atual pandemia de coronavírus é a capacidade de coordenação. Das pessoas, para que juntas possam evitar ao máximo a transmissão do vírus e achatar a curva de contaminação. Das empresas, que caso não tivessem meios de trabalho remoto (e uma boa parte realmente não tinha) passaram a se organizar para ter. E, em âmbito mais amplo, dos governos, para sinalizar que a população precisa ter calma e tomar as medidas protetivas necessárias e também para fornecer o auxílio durante o tempo de paralisia.

De maneira bastante direta, o que os liberais esperam em termos de determinações por parte do Estado têm relação direta com momentos como esse. Se há um momento em que um apontamento do que fazer e de como proceder faz diferença é justamente quando uma questão é tão ampla que encampa toda a nação sem distinção de classe social, credo, sexo ou qualquer outra característica.

Observemos alguns casos emblemáticos e como foram as reações dos países até então.

Alguns exemplos pelo mundo

A China, país que viu toda a questão eclodir, decretou lockdown das áreas mais afetadas em 23 de janeiro e, de repente, colocou 60 milhões de pessoas sem poderem circular. Naquele momento soou absurda tão reação perante o resto do mundo mas, hoje, pouco mais de dois meses após isso, a rotina já começa a voltar ao normal por lá – mesmo que mais lentamente do que inicialmente se imaginava.

A Itália, que viu toda a questão ocorrer e acompanhou a chegada do vírus ao território europeu, inicialmente não achou a questão tão relevante assim para demandar um fechamento do país mas, logo após isso, se arrependeu da decisão. É hoje o país que tem, proporcionalmente, mais casos e mortes em relação a sua população em todo o planeta. Graças a isso, os efeitos de seu lockdown ainda não são sequer observados.

No Reino Unido a primeira reação foi análoga a da Itália: descrédito dessa doença que vinha da China. Boris Johnson inicialmente demandou que nada fosse feito, porque a ideia era que quem tivesse de pegar o vírus pegaria, quem tivesse de desenvolver imunidade a ele o faria e quem eventualmente morresse no processo é porque não teria outro jeito – isso tudo porque o impacto econômico de paralisar seria muito maior do que o impacto do Covid-19. Mudaram de opinião por lá logo após ver um estudo do Imperial College que previa uma mortalidade considerável por lá (meio milhão de pessoas, caso nada fosse feito). Hoje, o país que tem até o próprio Primeiro Ministro com a doença tem tanta consciência da questão que já até informou a própria população que a situação ainda vai piorar.

Alemanha e Coreia do Sul deram exemplos muito positivos. Ambos decidiram alertar a popualação não só sobre a necessidade de medidas protetivas como também ampliaram em massa a testagem de indivíduos para identificar com a maior acurácia possível os contaminados e facilitar o manejo do isolamento. Tem funcionado, os dois países servem de exemplo positivo neste momento.

Estados Unidos e México, dois países tão diferentes entre si e com divergências tão publicamente colocadas nos tempos recentes, tiveram reações parecidas em relação a essa pandemia. Inicialmente, os dois governos colocaram a pandemia como sendo algo “não tão grave assim”. Já hoje temos mudança de postura dos dois: López Obrador decidiu encerrar suas carreatas pela população e incluiu no discurso que as pessoas devem ficar em casa e Trump, visualizando os cada vez mais notáveis centros de disseminação da doença em seu país, decidiu ampliar até pelo menos 30 de abril as medidas restritivas.

E por aqui? O que estamos fazendo?

 Em Terra Brasilis há uma clara divisão entre o que fazer. De um lado está o presidente Jair Bolsonaro, que até o presente momento não encara a pandemia com seriedade. Em discursos recentes chegou a afirmar que a doença não passaria de uma “gripezinha ou resfriadinho” e que medidas de fechamento de estados promovidas por governadores estariam indo contra o que o país precisa neste momento, dados os impactos econômicos que teremos com isso.

Por outro lado temos a equipe técnica do Ministério da Saúde, chefiada pelo ministro Luiz Henrique Mandetta, que tem dado coletivas praticamente todos os dias para apresentar os dados atualizados de casos e mortes no Brasil, sempre seguindo com a recomendação de que as pessoas permaneçam em suas casas e adotem o isolamento social até que tenhamos condições de colocar tudo de volta à normalidade. Neste outro lado também estão incluídos diversos governadores que têm adotado medidas restritivas em seus estados.

Em decorrência desse embate temos, na prática, que parte da população desacredita da seriedade da questão. Em função disso, a ideia de que a economia não poderia ser prejudicada em função de algo que “não é tão sério assim” tem se disseminado em elevada velocidade. Talvez só não seja tão disseminada quanto o próprio vírus. Segundo dados atualizados do Bloomberg, até hoje, 30/03/2020, às 09h11, já temos 734.595 casos ao redor do mundo e um total de 34.814 mortes confirmadas. Trata-se de algo que não é trivial como de início (pelo menos em janeiro deste ano) se imaginava.

Enfim, por que coordenação importa?

 A importância da coordenação é simples e direta: sem ela, a população passa a não ver a gravidade na situação toda e, no fim das contas, opta por não colaborar da maneira mais eficiente possível. Os efeitos disso, na prática, tem potencial catastrófico: mesmo com as situações sendo diferentes em cada país e por aqui talvez sendo possível que a situação seja mais branda, a disseminação do vírus continua demandando cuidados por aqui porque, no fim das contas, mesmo uma mortalidade tida como baixa (ainda não sabemos por completo qual seria), uma contaminação em massa resultaria, logo, em uma elevada mortalidade.

Dado que temos observando lá fora exemplos positivos de quem agiu a tempo e negativos de quem ignorou a gravidade da questão, fica a pergunta: vamos MESMO pisar nessa casca de banana aqui para em seguida sentirmos as mesmas dores da queda ou vamos tomar atitudes?

Por mais que o presidente soe cada vez mais isolado, sua conexão popular com ao menos um terço da população ainda é uma realidade. Esperamos sinceramente que ele mude o discurso encarando com mais seriedade toda a questão antes que seja necessário encarar um país que, tal qual a Itália faz hoje, transporta seus mortos pelo coronavírus em uma fila de caminhões.

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