Capitalismo de Laços: os donos do Brasil e suas conexões

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Afinal, quem são os donos das empresas no Brasil e quais são suas relações entre si? Essa é a pergunta básica do excelente livro ‘Capitalismo de Laços: os donos do Brasil e suas conexões’, do professor Sérgio Lazzarini, lançado em 2010, e que voltou a chamar a atenção mais recentemente devido às operações de combate à corrupção que mobilizaram o Brasil, como foi o caso da Lava-Jato e em menor grau, a Operação Zelotes.

O que as duas operações tinham em comum? Envolveu empresas que estavam intimamente relacionadas com o governo, por meio de contratos, negócios ou mesmo no quadro societário. E há toda uma história por trás desse arranjo institucional ‘made in Brazil’ que é detalhado pelo autor logo no ínicio do livro.

As privatizações reduzem a presença do Estado na economia. Será?

Muita gente acha que após as privatizações da década de 90 (Vale, telecomunicações, energia), o Estado reduziu sua participação na economia. Ledo engano: Lazzarini mostra que na realidade, a participação do estado nunca deixou de ser marcante. Por meio de gigantes braços estatais, como é o caso do BNDES e dos Fundos de Pensão, o governo ainda detinha poder para alterar rumos e participar da estratégia de diversas empresas brasileiras.
Ainda, essa participação intensa do estado foi resultado da forma escolhida de fazer concessões à iniciativa privada: a criação de consórcios demandam muitos recursos, que por sua vez eram abundantes nos fundos de pensão e no próprio BNDES, que além de emprestar via Banco de Desenvolvimento, também tinha o seu braço que investia nas empresas, o BNDESpar.

Ao apresentar sua pesquisa, e utilizando métodos estatísticos e matemáticos baseado no conceito de ‘small worlds’ (mundos pequenos), Lazzarini mostra como o estado permanece relevante do ponto de vista societário e da tomada de decisão, principalmente pela ação do BNDES.

Os investidores ‘gringos’ nas privatizações

Há um capítulo destacado no livro só para falar sobre os grupos estrangeiros nesse emaranhado de laços entre empresários e o governo brasileiro. Lazzarini mostra que os gringos tiveram dificuldades e algumas companhias estrangeiras não compreenderam muito bem as relações criadas entre grupos domésticos, governo e sistema político.

São dados dois exemplos: o da TIW, empresa canadense que falhou por não compreender o capitalismo de laços e suas consequências no segmento de telecomunicações, e a Nippon Steel, que obteve sucesso nas privatizações da siderurgia uma vez que o Japão apresenta ambiente societário parecido com o do Brasil.

Apesar de estar sedimentado no imaginário popular que o estrangeiro veio ao Brasil adquirir nossas riquezas “à preço de banana”, a realidade mostrou que essas empresas tiveram enormes dificuldades de se adaptar ao cenário nacional e, mais que isso, entender com exatidão as relações entre as empresas e o estado brasileiro.

O pós-privatização: a abertura de capital de empresas na bolsa até 2007

Após finalizada a agenda de privatizações do governo Collor e posteriormente de FHC, começou a ser observado já no início do governo Lula a abertura de capital de diversas empresas brasileira na Bolsa, os chamados IPOs, com destaque nos segmentos manufatureiro, construção civil e financeiro. Inclusive, boa parte dessas empresas aderiram ao chamado ‘Novo Mercado’, que obrigava a empresa a adotar um nível alto de governança e transparência junto aos acionistas.

Contudo, os novos papéis na bolsa mantiveram o capitalismo de laços, dada a predominância da estrutura societária sob a forma de pirâmide (empresas holdings) e o entrelaçamento entre membros de conselho de administração entre várias empresas. Ainda, a participação do estado permanecia marcante seja pelo seu braço de banco de desenvolvimento (BNDES) ou pelos recursos que eram injetados através dos fundos de pensão.

Mas o Capitalismo de Laços é necessariamente ruim para a sociedade?

O livro é bastante pragmático ao não estigmatizar o capitalismo de laços: o próprio autor mostra os lados positivos e negativos desse arranjo institucional que a sociedade brasileira determinou para si. Há boas entrevistas do autor sobre o tema, em que o livro é discutido e relacionado com o presente.

No fim das contas, a história contada por Lazzarini não é algo novo no país; ao contrário, faz parte da matriz cultural da nossa sociedade, analisada por Roberto Da Matta, Raymundo Faoro, e claro, por Sérgio Buarque de Hollanda que cunhou o termo ‘homem cordial’, que se encaixa muito bem nessa ideia de relações íntimas entre indivíduos, empresas e o estado brasileiro.

Como mostrou a Operação Lava-Jato em detalhes, essas relações se transformaram pouco a pouco em corrupção, propinas e atitudes pouco republicanas.

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