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O doce amargo de Candyman

Tempo de leitura: 5 minutos

O Mistério de Candyman” é um daqueles filmes clássicos, nascido de uma adaptação de livro (de um conto de Livros de Sangue), que pode ser encaixado em múltiplos gêneros, tamanho o número de referências e nuances que aborda. Terror slasher sobrenatural, thriller investigativo e drama, gêneros bem condensados na obra cinematográfica, que ainda realiza uma crítica social, abordando questões sobre segregação e discriminação racial.

Candyman é o personagem principal do filme, que, cabe ressaltar, é um dos poucos protagonistas negros de filmes de terror da história do cinema, magistralmente interpretado pelo ícone do terror Tony Todd. Lenda urbana com presença quase física na vida dos moradores de um precário conjunto habitacional localizado no bairro Cabrini Green, em uma parte segregada e marginalizada da cidade de Chicago, Candyman era associado a uma série de assassinatos brutais.

Mas quem é Candyman?

Candyman era Daniel Robitaille, um filho de escravos libertos após a Guerra Civil Americana. Com a oportunidade de ter acesso a melhor educação da sua época, Daniel se tornou um exímio e requisitado artista plástico.

Certo dia, Daniel foi contratado para retratar em tela a beleza da jovem filha de um rico fazendeiro. Durante a realização desse trabalho, ele e a jovem acabam se apaixonando perdidamente. Ao descobrir essa relação amorosa, que acaba resultando no nascimento de um filho, o fazendeiro buscou vingança. Cego de ódio, o fazendeiro reuniu um grupo de assassinos para ir atrás de Daniel. Após ser capturado, Daniel foi amarrado e espancado, um dos seus braços foi decepado e, no final, derramaram-lhe mel para que milhares de abelhas viessem lhe picar até a morte.

Após a morte de Daniel, nasce a lenda de Candyman: um homem que tem um gancho na mão (decepada no momento do seu assassinato) e que mata qualquer pessoa que arrisque pronunciar “Candyman” cinco vezes na frente de um espelho.

Candyman, que em tradução livre é o “Homem do Doce”, está sempre associado a abelhas, mel e doces. Em todas as suas aparições no filme, alguns desses elementos acabam sendo mostrados. Uma cena muito impactante é quando um enxame de abelhas sai de sua boca.

Vamos falar de sinalização?

Qual é o sentido de um anúncio de vaga de emprego que não especifica o curso de graduação do candidato, mas exige o diploma? Michael Spence, ganhador do Nobel de Economia em 2001, responde a essa pergunta a partir do modelo de sinalização no mercado de trabalho.

Segundo o modelo, ter um diploma de graduação, independente do conteúdo, serviria como um sinal, indicando uma maior capacidade de aprendizado. Na teoria, pessoas mais capacitadas, considerando que a educação seja apenas uma questão de escolha e disponível para todos, teriam maior escolaridade. Isso é devido ao custo da escolaridade ser menor para as pessoas mais capacitadas, dado que, por exemplo, estas teriam maior facilidade de aprendizado nas aulas. Logo, mais anos de estudo, mesmo não possuindo relação direta com a capacidade, serviriam para sinalizar quais seriam os indivíduos mais produtivos.

O grande problema é que a sinalização não ocorre exclusivamente por meio dos sinais, que podem ser alterados pelos indivíduos (como o caso da escolaridade), mas também podem ser decorrentes de índices. O grande problema é que os índices são imutáveis, a exemplo da idade, do sexo e da raça. Aqui está o gancho – sem querer fazer referência ao gancho utilizado por Candyman –  entre o modelo de sinalização e o filme O Mistério de Candyman.

Índices para produtividade e a segregação no Cabrini Green

Como já falado anteriormente, índices são imutáveis, as pessoas nascem e tendem a continuar com eles por toda a vida. Por consequência, a utilização de índices como forma de sinalização de produtividade, além de totalmente equivocada e ineficiente, pode também se constituir em um tipo de discriminação.

Essa forma de discriminação, a partir dos índices, não ocorreria de maneira intencional por parte dos empregadores, mas acabaria sendo algo perpetuado ao longo do tempo, resultando em um fenômeno estrutural em que um indivíduo teria melhores oportunidades apenas em função do seu sexo ou da sua raça (fatores sem nenhuma ligação com a produtividade).

No filme, isso não é tão explícito, mas pode ser bem entendido nas entrelinhas. Os moradores do Cabrini Green, em grande parte negros e pobres, poderiam estar sendo excluídos de melhores vagas no mercado de trabalho devido a utilização de índices como sinalização de produtividade. Em uma parte do filme, temos uma frase com o seguinte sentido: “Ninguém liga para esse lugar (Cabrini Green), mas quando uma mulher branca é atacada eles trancam o lugar.” Essa fala, uma espécie de desabafo de um dos moradores, ilustra o ambiente de descaso e de segregação vivido pelos habitantes do bairro.

Candyman, entre o doce e o profundamente amargo

Em termos técnicos, Candyman é indiscutivelmente um clássico, tendo gerado continuações, entrando para a história do cinema, principalmente dentro do gênero do terror. Somado a isso, tem-se a temática das abelhas e do mel, muito ligadas a Candyman, fatores que fazem o filme ser “doce”.

Não obstante, as cenas de gore e, principalmente, a condição de segregação vivida pelos habitantes do Cabrini Green, fazem com que também seja um filme que deixa um sabor amargo nos telespectadores. Essa sensação aumenta ainda mais após compreender o modelo de sinalização, considerando que os índices, de maneira absurda, podem ser utilizados como sinalização para a produtividade.

A lenda de Candyman é uma incógnita dentro da história, dado que não há como ter certeza completa acerca da sua existência física, da sua responsabilidade pelas mortes brutais que ocorrem ao longo do filme. Por outro lado, a situação de segregação vivida no Cabrini Green é mostrada de maneira concreta, concreta inclusive na vida real, mostrando uma realidade amarga que se perpetua ao longo do tempo.

Nas proximidades do Dia da Consciência Negra, que possamos refletir como a segregação que o racismo promove até hoje em nosso país é tão cruel quanto negativa e impactante para diversas gerações. É profundamente amargo quando nos lembramos de quão presente essa realidade ainda se faz e o quanto ainda precisamos caminhar para que o futuro seja realmente diferente disso.

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