Bolsonaro, sua gestão de crise inadequada e a receita para superar equívocos

No período que sucedeu os ataques às Torres Gêmeas em 11/9/01, observou-se um momento de grande coesão na política norte-americana. A inconcebível queda de dois edifícios que representavam a materialização do sistema financeiro americano gerou a necessidade de unir o Estado para combater uma ameaça externa, ofuscando por completo as divergências partidárias do cotidiano político. O resultado, no curto e médio prazo, foi uma consolidação de poder do Executivo não vista desde a Segunda Guerra Mundial e um salto considerável na popularidade do presidente George W. Bush.

Um ataque terrorista tem poucos paralelos com uma pandemia global, mas ambos configuram emergências imprevisíveis que demandam respostas imediatas e justificam a maior liberdade para agir concedida a um chefe de Estado. Em função dos impactos do coronavírus, a concentração de poder no Executivo já começou no Brasil em todos os níveis do governo. Em um país como o nosso, uma república federativa que, na prática, concentra muito poder na esfera federal, o presidente deveria ser o mais beneficiado por uma calamidade que desencadeia um processo de empoderamento repentino. A despeito destes fatos, a realidade hoje é outra. Jair Bolsonaro aparenta estar perdido.

Voltando rapidamente aos EUA, o atual presidente, Donald Trump, governa mais fortalecido do que nunca. Críticos que jamais dispensaram elogios ao republicano enalteceram a liderança de Trump frente à atual crise. Aqui no Brasil, um estrangeiro que começasse a assistir o noticiário na atual semana seria escusado caso concluísse que o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), é o presidente da República. O tucano tem participado de uma bateria de entrevistas que ressaltam suas habilidades comunicativas.

Concomitantemente, Bolsonaro acumula erro após erro. A sua insistência em cumprimentar os manifestantes que se concentraram nas imediações do Palácio do Planalto está entre as ações mais criticadas dentre todas as já tomadas pelo presidente. O erro é principalmente crítico em vista das semanas durante qual o presidente negou a seriedade da ameaça prestes a desembarcar no Brasil. Tudo isso na esteira de uma crise institucional com o Legislativo e uma acusação de fraude eleitoral que nunca mais foi abordada e muito menos fundamentada.

Em um momento em que o presidente foi presenteado com uma oportunidade de consolidar o seu poder, por meio de um processo simples de priorização da cautela e a implementação de sugestões de especialistas, Bolsonaro vê a sua base sendo corroída pela sua incapacidade de gerir uma crise de saúde pública.

As consequências de uma série de equívocos começaram a surgir no início desta semana. A deputada Janaina Paschoal, uma das autoras do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e, até então, uma aliada do presidente, subiu à tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo para pedir o seu impeachment. Essa semana, os panelaços que prenunciaram o afastamento da última presidente em 2016 ecoaram a insatisfação atual da sociedade brasileira.

Mesmo assim, apesar dos erros cometidos, ainda existe tempo para que o presidente altere o enredo da narrativa em torno da sua incompetência. Vale ressaltar a existência de um fator que trabalha a favor do presidente: nenhuma pesquisa de aprovação deve ser realizada no curto prazo, por razões óbvias, para registrar de forma numérica a crescente insatisfação do eleitorado.

Em relação à série de ações necessárias para rever o curso decadente da imagem do presidente, uma demonstração de maior união com os líderes do Legislativo e do Judiciário seria um primeiro passo positivo para apaziguar os ânimos. Um maior alinhamento com os seus ministros, principalmente os da Saúde (Mandetta) e da Economia (Guedes), também representaria um desenvolvimento favorável. A coletiva junto aos mandantes das várias pastas do Executivo, realizada quarta-feira,  foi um bom começo.

Fora estes alinhamentos, o presidente precisará fazer bom uso dos recursos que serão liberados pela iminente declaração de calamidade pública. Esta afrouxará a meta fiscal para o ano de 2020, dando mais espaço orçamentário para ações emergenciais do Executivo. Será preciso dar resposta ao dilema causado pela necessidade de desacelerar a taxa de contaminação, sem estagnar a economia. Ao mesmo tempo, o governo terá de aumentar os seus gastos a fim de evitar uma calamidade econômica, sem comprometer a saúde fiscal do Brasil no longo prazo.

Além de tudo isso, também será necessário se fazer presente nas mídias de forma transparente, sempre atualizando o público em relação às medidas que serão tomadas pelo governo no combate à epidemia. Ao adotar estas medidas, o Brasil – e como consequência, o próprio presidente –   poderá evitar um agravamento maior do que o necessário durante este momento desafiador.

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