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As três crises brasileiras em 2020

Terraco Econômico

O título deste artigo talvez não soe tão intuitivo ao leitor. “Coronavírus nos traz uma crise na saúde, a paralisação das atividades nos traz uma crise econômica, mas qual seria essa terceira?”. A terceira é a mais surreal e evitável de todas elas: a política.

A visão pessoal do presidente do país, apesar de discursos que oscilaram entre o soft e o apontamento direto de que os governadores seriam responsáveis pela crise econômica que se aproxima, é de que as pessoas não deveriam temer o coronavírus porque 70% da população será contaminada e “não tem que se acovardar” com isso. Temos por aqui um dos solitários quatro líderes mundiais que apontam ser uma besteira (ou, como dito por aqui, uma “gripezinha”) toda essa preocupação que o mundo tem tido com essa doença.

Sobre as três crises

A primeira é a de saúde, dado que a rápida disseminação dessa doença faz com que o número de hospitalizados aumente, com necessidade inclusive de isolamento e, na prática, a capacidade dos hospitais se reduz para todos os outros casos. Pode mesmo ser uma doença com mortalidade relativamente baixa – estando em uma faixa entre 1~5% -, mas quanto mais contaminados, maior a necessidade hospitalar e maior o número de mortos. É justamente por isso que se busca desacelerar a velocidade de contágio com as medidas de isolamento social.

Em segundo lugar vem uma onda forte que é a crise econômica. A paralisação total ou mesmo parcial dos negócios ao redor do mundo faz com que as receitas caiam vertiginosamente e, por essa geração de renda diminuir, logo diminui-se a capacidade de manter as estruturas e os empregos. Com isso, uma diminuição considerável da renda que circula na economia ocorrerá e isso se traduzirá em uma forte recessão global. De acordo com o FMI, será a maior recessão desde 1929. Diversos países estão empenhando esforços em termos de política fiscal para suavizar a situação, mas mesmo diante disso uma recessão já está entre nós.

O aspecto sui generis que faz do Brasil ser Brasil é que por aqui não ficamos satisfeitos em ver que a situação está complicada o suficiente, é preciso sempre dar um passo a mais em direção ao abismo. Seguindo a linha de “fim do toma lá da cá” ou o que quer que isso signifique, o presidente afirma ser contrário a qualquer tipo de negociação com o Congresso e, ontem mesmo, discursou sobre isso para manifestantes que pediam uma intervenção militar. Fica difícil até para os analistas de cenários econômicos e políticos realizarem a descrição do tamanho do problema que tudo isso representa.

A terceira crise acelera a piora das primeiras duas

As últimas semanas têm sido tão intensas que talvez tenha escapado ao leitor que, na virada de 2019 para 2020, tínhamos como problema mais relevante a guerra comercial entre EUA e China. Mesmo essa, entre as duas maiores economias do mundo – com fortes repercussões globais -, ficou estacionada diante dos graves problemas que 2020 trouxeram (o coronavírus, a crise econômica e a guerra de preços do petróleo).

Isso significa em termos práticos que o mundo entendeu – ao menos até o momento em que este artigo é escrito – a diferença entre o importante e o urgente. O urgente não está batendo na porta, está derrubando a porta.

Porém, por aqui, a desacreditação por parte do líder do executivo em relação ao coronavírus é tamanha que até quem liderava a operação dessa guerra contra o coronavírus foi trocado porque “ofuscava a liderança do presidente” – só não se sabe que liderança era essa. Ah, a melhor parte talvez você não saiba: Teich, que entrou no lugar de Mandetta, pediu 15 dias para fazer um plano de combate ao vírus. O senso de urgência nesse país, no tocante ao setor público e sua capacidade de atuação, é assustadoramente inexistente. E como se fácil fosse, o líder do poder executivo decide que é hora mesmo de empenhar esforços contra “todos que o perseguem”.

Essa crise acelera as outras duas por um motivo razoavelmente simples de entender: enquanto as prioridades tanto do presidente quanto do congresso forem de quererem carimbar o momento com sua marca de “salvadores da pátria” e não de enfim encaminhar soluções, na área da saúde seguiremos sem diretrizes adequadas. Temos uma coordenação governamental entre os entes absolutamente desorganizada e isso dá a impressão de que quem é favorável ao isolamento é “politicamente contrário” a alguém. Na economia, todo tipo de auxílio anunciado será cada vez mais ineficiente, dado que, com um caos na saúde acima do que podemos lidar, a crise econômica será ainda mais severa e alongada.

Reorganização em uma organização que não existia

Os países mais desenvolvidos discutem soluções para a reabertura após esse período de quarentena. Mesmo em países como a Alemanha tem-se uma noção de que o conceito de normalidade pós-coronavírus é bastante relativo e, até o presente momento, estamos andando sobre uma fina camada de gelo em um lago imenso de incertezas.

Por aqui, lutamos para descobrir como fazemos para colocar em ordem algo que constantemente é desarranjado ou desacreditado.

Essa desorganização imensa vai ter um saldo não desprezível em termos de saúde e de economia. Vejamos as cenas dos próximos capítulos para acompanhar quais serão também os efeitos políticos.

Uma coisa é certa: trata-se de um dos momentos mais inadequados da história do Brasil para termos entrado em uma contenda política. Essa terceira crise vai acelerar a intensidade das outras duas e o nosso país sairá muito machucado disso tudo.

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