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Michael Bloomberg: uma pré-candidatura sem futuro

Michael Bloomberg, o ex-prefeito de Nova York e homônimo do mais famoso terminal digital no mercado financeiro, participou ontem (20) do seu primeiro debate nas primárias democratas. Durante os seus 12 anos como mandatário de Nova York, Bloomberg representou o Partido Republicano. Agora, para disputar a presidência, que na prática será determinada por um embate entre o incumbente republicano, Donald Trump, e um democrata ainda a ser definido, o ex-prefeito vestiu a camisa do time rival.

A transição do partido conservador para o partido progressista tem sido turbulenta. Durante o debate, o ex-prefeito sofreu duras críticas ao virar o principal alvo dos outros cinco pré-candidatos presentes no palco.

A estreia de Bloomberg, juntamente ao recente início das primarias estaduais, deram um  fim ao tom harmonioso que predominava nos debates – até então, os candidatos evitaram críticas agudas direcionadas uns aos outros e sempre frisaram as suas declarações com reafirmações do seu apoio ao eventual nomeado e a derrota  do mal maior: Donald Trump.

Até ontem à noite, os outros presidiáveis aguardavam ansiosamente a entrada do bilionário novaiorquino na corrida. A ofensiva mediática de US$ 400 milhões, gastos em propagandas na televisão, nada agradou os outros candidatos, que entendem que o ex-prefeito busca “comprar a nomeação” do partido.

A performance do Bloomberg foi fraca. O ex-prefeito aparentava nervoso, tímido e teve dificuldade para implementar a sua estratégia retórica. A plateia reagiu com entusiasmo quando o novaiorquino foi criticado e de maneira apática quando ele revidava.

Elizabeth Warren, senadora pelo estado de Massachusetts, liderou as críticas. Warren levantou vários paralelos entre Bloomberg e Trump, ambos bilionários “sínicos” de Nova York. A senadora também destacou os inúmeros acordos de confidencialidade, envolvendo casos de assédio e/ou comportamento inapropriado com ex-funcionárias do império financeiro de Bloomberg, e desafiou o ex-prefeito a abrir mão da cláusula que impedia as vítimas remuneradas de abordarem o assunto publicamente. Bloomberg não soube responder.

As políticas públicas implementadas por Bloomberg durante o seu tempo como prefeito também foram alvo de críticas. A mais mencionada entre elas foi o “stop and frisk” (pare e reviste, em inglês), que na época da sua implementação foi celebrada por reduzir a taxa de homicídios em Nova York, mas veio a ser criticada por visar jovens negros e latinos. As tentativas de Bloomberg para se afastar da política de segurança foram pouco contundentes. A narrativa em torno do assunto deve reduzir o seu apelo entre importantes parcelas do eleitorado democrata.

Mesmo se Bloomberg tivesse performado melhor no debate, simplesmente não existe apetite para eleger um bilionário do mercado financeiro no Partido Democrata. Nem uma fortuna multibilionária do 14º homem mais rico do mundo mudará isso.

Grande parte desse sentimento anti-rico presente no partido é consequência do fortalecimento e expansão da ala socialista da sigla, que rejeita as lideranças da velha guarda do establishment partidário (Clinton, Obama, Pelosi etc.), e mais se assemelha ideologicamente a um PSDB brasileiro do que partidos do núcleo duro da nossa esquerda.

Esta ala socialista, liderada pelo experiente Bernie Sanders e sustentada nas urnas por jovens americanos que nasceram no período pós-Guerra Fria, compartilha muita ideologia – e até serve como inspiração – para os mais radicais da esquerda brasileira. A deputada Sâmia Bomfim, que está entre as mais influentes parlamentares do PSOL na Câmara dos Deputados, adora reiterar um bordão do Sanders nas mídias sociais “Bilionários não deveriam existir!”

Infelizmente para Bloomberg, enquanto a candidatura dele existir, ele sofrerá duras críticas dos seus rivais, principalmente dos senadores Bernie Sanders e Elizabeth Warren. O par tem um desgosto especial pelo mercado financeiro, onde Bloomberg trabalhou e se enriqueceu durante toda a sua vida.

Os candidatos centristas também possuem muitas razões para unirem seus esforços contra Bloomberg. O candidato tem ganhado força nas pesquisas, aos custos dos outros moderados (Biden, Buttigieg e Klobluchar), comprometendo o fluxo de doações que impulsionam as suas respectivas candidaturas – Bloomberg, claro, é rico o suficiente para financiar a sua própria campanha.

Não é o que mercado quer ouvir, mas a candidatura de Bloomberg nasceu morta. Em um cenário onde o incumbente fosse um democrata, e Bloomberg pudesse concorrer em uma primária do Partido Republicano, haveria a possiblidade de êxito. Como candidato dos Democratas, um partido cujo centro tem feito uma forte movimentação para a esquerda nos últimos 10 anos, a possibilidade de ser nomeado beira zero.

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