Desventuras em série: a inflação voltou para ficar?

Tempo de leitura: 5 minutos

Querido leitor(a),

Sinto muito em compartilhar essa história, mas ela é bastante desagradável. Se você já leu ou assistiu ao filme Desventuras em Série, escrito por Lemony Snicket, já deve saber que o enredo é recheado de incertezas e infortúnios.

Eu até entendo se você quiser largar este texto agora e procurar por um artigo mais alegre, que fale de alguma história onde os personagens não precisam enfrentar vários desprazeres enquanto fogem de um vilão ardiloso e cruel. Quem sabe um conto de fadas, onde nada de ruim pode acontecer? Pois bem, não diga, depois, que não avisei…

Desventuras em Série narra a história dos três órfãos Baudelaire logo após perderem os pais em um misterioso acidente. Cada um deles possui uma habilidade específica, que os ajuda ao longo de suas desventuras.

Ao longo do caminho, eles precisam encontrar um lugar para chamar de lar. O problema é que o primeiro guardião em vista é justamente o terrível Conde Olaf, um homem sem coração e escrúpulos.

Sorte a nossa que os jovens Baudelaire são mais espertos que o vilão e conseguem sempre dar um jeito de escapar no final. Tal como nessa história, nós brasileiros também somos assolados pela temível inflação. Será que conseguiremos atravessar os históricos percalços para combatê-la?

Para quem ainda não sabe, a inflação pode ser compreendida como um aumento dos preços de bens e serviços. Ela implica principalmente na diminuição do nosso poder de compra e pode ser mensurada a partir de um índice que, no Brasil, é o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). O IPCA nada mais é do que uma “cesta” de bens e serviços representativa que compõe tudo aquilo que a população brasileira consome em média.

Só neste mês de maio, o IPCA atingiu alta de 0,83% ante abril. Esta foi a inflação mais alta para o mês de maio desde 1996, quando o índice alcançou 1,22%. Só nos últimos 12 meses temos uma inflação acumulada de mais de 8,06%, bem superior ao teto da meta do Banco Central, pouco acima de 5%.

Quem vivenciou as décadas de 80 e 90, quando a inflação galopante chegou a superar os 80% ao mês, ou seja, o mesmo produto chegava a quase dobrar de preço de um mês para o outro, já sabe que ela pode significar um pesadelo para a renda mensal de qualquer pessoa.

Principais causas da inflação:

A inflação pode ter várias causas, entre elas podemos citar algumas como:

  1. Sua relação natural com demanda e gastos do governo;
  2. Variação cambial em um determinado período de tempo;
  3. Inflação passada;
  4. Diferença entre renda PIB corrente x renda PIB potencial (expectativa).

Consequências:

A inflação gera incertezas na economia e nos leva a “pisar em ovos”, desestimulando o investimento e prejudicando o crescimento econômico. Os preços ficam distorcidos e as pessoas perdem a capacidade de atribuir valor, ficando difícil avaliar se algo está caro ou barato.

Para tentar sanar esse problema, um dos instrumentos de política monetária do Banco Central é elevar a taxa básica de juros, a Selic. No entanto, essa medida aumenta o custo da dívida pública, pois a taxa de juros precisa compensar não só o efeito da inflação mas também têm de incluir um “prêmio de risco” para compensar as incertezas associadas a inflação mais alta.

De volta às Desventuras: qual o paradigma da vez?

A inflação que nos assola hoje não é a mesma de antes. Existe uma excepcionalidade no momento: a pandemia.

Situações de quebras estruturais, rupturas e mudanças drásticas parecem nos envolver em tramas nas quais não temos um exemplo precedente no passado. E aí fica a pergunta: como vamos combater essa nova inflação usando os mesmos artifícios do passado?

Existem algumas coisas que agravam o teor da história e que ainda parecem ser uma incógnita para a maioria dos analistas.

O desemprego segue atingindo mais de 14,8 milhões de brasileiros, maior número desde 2012. O PIB do Brasil (indicador que nos ajuda a avaliar o crescimento econômico) cresceu 1,2% só no 1º trimestre, voltando ao patamar pré-pandemia.

Também na contramão do PIB, a renda do brasileiro caiu 10% com inflação em alta e o desemprego recorde. Segundo o boletim Salariômetro da Fipe-USP (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo), de janeiro a abril deste ano, 61,6% das negociações salariais coletivas entre patrões e empregados resultaram em reajustes abaixo da inflação. O aumento de dados de oferta de emprego formal também não parece refletir a realidade.

Esse tipo de impacto pode ter um efeito de longo prazo no qual não é possível mensurar como será a retomada que todos sonham, principalmente na situação do mercado de trabalho da população mais afetada, como os informais e os mais vulneráveis em geral.

Para a semana que vem, uma nova elevação de 75 pontos-base já parece estar contratada pelo BC. Mas só isso não é o bastante para conter a sangria da falta de renda da população. O Copom também não pode elevar demais a taxa de juros, pois isso implica em risco fiscal para o governo. Dentro disso tudo, a Bolsa segue batendo recordes, chegando a atingir em maio o patamar dos 130 mil pontos. A parcela mais triste deste enredo são as projeções de melhora com o avanço da vacina, que parece não ser suficiente para conter a perda real de renda.

O Brasil segue sem projeto de reversão à crise, embora alguns dados pareçam favoráveis. O fato é que a manipulação de efeitos transitórios com a política monetária não consegue, por si só, equilibrar os efeitos inéditos da pandemia na vida das pessoas.

Isso significa que entramos numa espécie de “paradigma de Schrödinger”. Aumento de dívida pública, problemas fiscais, falta de políticas públicas que visem minorar a escassez de trabalho. Dessas Desventuras, sabemos, é impossível antever como sairemos do outro lado. Para nós, talvez fique a tarefa de usar nossos recursos com a esperteza dos jovens Baudelaire.

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