Oi, sumida! A inflação nos Estados Unidos

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Por mais que a economia seja uma ciência social com poucos consensos, algo que parece ser bastante verdadeiro dos livros de macroeconomia é o seguinte: quando temos muito dinheiro em circulação, há um aumento generalizado dos preços, a famosa inflação.

A chamada teoria quantitativa da moeda sobreviveu ao tempo à muita desconfiança. Afinal, os críticos desse modelo argumentam que tivemos uma injeção enorme de dinheiro nas crises de 2008 (muitos trilhões de dólares) e atualmente em 2020 (mais trilhões de dólares ainda) e não tivemos nenhum repique da inflação, que se manteve na faixa confortável dos 2% ao ano após a crise do subprime e quebra do Lehman Brothers, conforme mostra o gráfico abaixo.

12-month percentage change, consumer price indez, selected categories de janeiro de 2000 a março de 2021
Fonte: U.S. BUREAU OF LABOR STATISTICS

A primeira área destacada do gráfico foi um momento de preocupação em que a inflação ao consumidor (semelhante ao nosso IPCA) saltou de 1% para quase 4% em 12 meses, suscitando preocupações de analistas e do mercado em geral que o Banco Central, o FED, subiria os juros para conter essa escalada inflacionária. No entanto, os juros praticamente não saíram do zero, iniciando a subida gradual apenas em 2017 e logo voltando para zero em 2020, com a piora dos efeitos na economia da pandemia de COVID-19.

Como citado, os governos reagiram à crise injetando muito dinheiro na economia, seja na forma habitual, comprando títulos públicos e privados e deixando o dinheiro disponível para as pessoas e empresas, seja em medidas emergenciais, com programas públicos de auxílio econômico para pessoas (renda mínima, seguro desemprego) e para empresas (redução de impostos, programas para evitar desemprego). Nos EUA, tanto governo Trump quanto Biden imprimiram dólares para que essas ações fossem possíveis. A dúvida que fica é sempre a mesma: todo esse movimento vai respingar na inflação? O gráfico abaixo é o motivo de toda a preocupação das últimas semanas…

12-month percentage change in CPI for All Urban Consumers (CPI-U), not seasonally adjusted de abril 2020 a abril 2021
Fonte: U.S. BUREAU OF LABOR STATISTICS | News Release

“Inflação acabou!”, será?

A frase “a inflação acabou” pode já ter sido dita observando os preços finais, mas o que observamos em relação aos preços dos insumos das cadeias produtivas?

Os preços das commodities estão em uma ascensão impressionante nos últimos tempos. Quando o assunto é a gasolina, ela aumentou 50% nos últimos 12 meses nos EUA. Mesmo tirando o efeito dos preços vinculados às commodities energéticas, ainda assim a inflação passou de 3% com alimentação, carros usados mais de 10% e, no agregado, os EUA tiveram em abril 4,2% de inflação oficial em 12 meses – o maior pico em 13 anos.

Algo a se pensar é o quanto um aumento de inflação que parece sutil faz diferença. Recentemente na Bloomberg foi publicado um artigo questionando sobre como os alunos de Yale lidariam com os seus pagamentos universitários caso a inflação rumasse para 3%. Aparentemente, 3% não parece um nível tão alto assim, mas pense bem: se a meta anual de inflação por lá é de 2%, estando em 3% representa um deslocamento para cima de 50% (e, no atual patamar de 4,2% em 12 meses visualizado em abril, o ponto atual é mais de 100% superior ao esperado. Relevante, não?

O que fez com que muitas pessoas pensassem que de fato estamos vivendo o fim da inflação pode ser sumarizado pelo chamado Efeito Amazon: o fenômeno em que os ganhos de escala com o comércio eletrônico são tão grandes que os custos de operacionalização tornam-se reduzidos ainda que a demanda aumente. Assim, mesmo um aumento razoável da demanda por bens e serviços não impactam em alta de preços, por causa da flexibilidade da oferta de produtos.

Independente de qual seja a capacidade desse efeito supracitado de redução ou estabilidade de preços de seguir adiante, fato é que a quantidade imensa de dinheiro colocada na economia começa a mostrar a que veio. Ficam então algumas perguntas: como será que o FED reagirá a isso? Os trilionários pacotes econômicos seguirão adiante mesmo se a economia americana estiver em forte aquecimento (como sinaliza estar caminhando para agora)?

Não podemos nos esquecer do que acontece com o resto do mundo quando os juros americanos sobem: a “fuga para a segurança” pode enxugar o dinheiro não disponível apenas nos EUA como no mundo todo – sobretudo em emergentes, como o Brasil.

Vai valer muito a pena ficar de olho nos rumos da inflação dos EUA e como a autoridade monetária do Tio Sam reagirá a isso. Os impactos serão bem mais globais do que inicialmente poderia se imaginar.

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