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A esquerda volta às ruas ao resgate de Bolsonaro

O mês de maio não foi fácil para o presidente Bolsonaro. As suas sucessivas tentativas de sustar as medidas de isolamento social, impostas por prefeitos e governadores, não renderam resultados. O terceiro ministro, Nelson Teich, deixou o governo em curta sucessão enquanto o Brasil continuou a sua escalada rumo ao topo do ranking de países mais afetados pelo coronavírus, tanto em casos confirmados, quanto em mortes, e ainda estamos sem um médico à frente do Ministério da Saúde.

No plano jurídico, uma série de derrotas foram registradas no STF, culminando na divulgação comprometedora de uma gravação de uma reunião ministerial e uma operação da Polícia Federal (PF) que aprendeu os celulares e computadores dos seus mais importantes apoiadores nas redes sociais. A busca por provas de uma rede coordenada de disseminação de notícias falsas pode vir a fundamentar uma ação no Tribunal Superior Eleitoral que busca caçar a chapa vitoriosa do presidente em 2018.

Durante os dois meses, desde que as medidas de distanciamento social foram impostas, Bolsonaro monopolizou as manifestações políticas no Brasil. Praticamente todo domingo havia um novo protesto contra governadores, o STF, o Congresso e qualquer outro que presidente enxergava como obstáculo para a sua governança. Diferente das manifestações que ocorriam na agora distante realidade do mundo pré-coronavírus, estas eram pouco expressivas, contando somente com a aderência dos mais árduos dos apoiadores do presidente, dispostos a desbravar aglomerações em meio a uma crise de saúde pública.

Porém, na tarde de ontem, a esquerda voltou às ruas ensaiando um retorno aos protestos que promete salvar o presidente dos seus próprios mal feitos. Os manifestantes do lado anti-Bolsonaro eram ainda menos numerosos do que os apoiadores do Capitão. Mesmo assim, a presença destes na Avenida Paulista, uma das principais vias da capital paulistana, dominou as manchetes e as discussões nos canais de notícia no domingo. Os protestos foram pautados e convocados pelas torcidas organizadas.

É um grupo de atuação que, até então, teve pouca relevância no plano político, mas é notório pela sua violência nos estádios e seus arredores. Aos gritos de “democracia!” a multidão avançava pela avenida com suas vestimentas e máscaras pretas em busca de um conflito com os manifestantes bolsonaristas. Inevitavelmente, a Polícia Militar foi forçada intervir para evitar que os “torcedores” dos vários clubes, em principal os corintianos da Gaviões de Fiel, alcançassem as tias do Whatsapp que entrajavam as costumeiras camisetas da CBF adotadas como uniforme pelos apoiadores do presidente.

Boa parte da mídia questionou se as ações de contenção da polícia não foram enviesadas, alegando que a atuação da PM sobre o público antigovernista foi mais severa. Estes analistas optaram por ignorar a óbvia propensão dos torcedores, que lançaram pedras e rojões contra a PM, a entrar em conflito com autoridades do Estado.  A justaposta entre a admiração e respeito quase sempre exibida pelos bolsonaristas com profissionais de segurança pública e as organizadas foi gritante para todos menos os jornalistas que analisavam a ocorrência.

Um dos principais organizadores do protesto “democrático”, responsável pelas postagens eletrônicas que chamaram aquele público as ruas, tinha como nome no Twitter “aprenda como matar PM”. A sua convocação alertou: “quem for pacifista, não cole”. O presidente não poderia ter inventado um adversário menos palatável para o eleitorado de centro se tivesse o concebido em um sonho febril causado pelo coronavírus.

As torcidas organizadas não eram os únicos que se aglomeraram no lado de preto. Também marcaram presença a típica mistura de antifascistas, as várias vertentes do agora extinto movimento “Lula livre” e até deputados federais do PSOL. A narrativa da esquerda que projeta o Bolsonaro como irresponsável por participar de manifestações, em meio uma pandemia, agora tem réplica pronta.

Mais importante do que isso, o eleitorado de centro – muitos que estavam entre 57 milhões de brasileiros que elevaram Bolsonaro ao Palácio do Planalto nas urnas e depois se arrependeram dos seus votos – viram ontem uma face assustadora da provável alternativa que será apresentada no segundo turno das eleições presidenciais de 2022. Durante a campanha eleitoral de 2018, o candidato petista Fernando Haddad recebeu e prestigiou em fotos as mesmas lideranças das torcidas organizadas que na época endossaram a sua candidatura presidencial.

O silencio da esquerda, que dava corda para o presidente se enforcar desde que o ex-presidente Lula foi libertado da sede da Polícia Federal em Curitiba no ano passado, foi quebrado num retorno mais contundente da oposição ideológica às ruas pode vir a salvar o presidente Bolsonaro do desgaste ocasionado pelas suas batalhas com inimigos criados pela sua própria beligerância institucional.

Ainda é muito cedo para estabelecer tal ocorrência como um importante formador de opiniões do eleitorado, mas uma coisa se torna cada vez mais certa: quanto mais a esquerda se faz presente – em principal quando representada pelo PT e vertentes extremistas –, mais o eleitor brasileiro se lembra porque optou por expulsa-la nas urnas em 2018.

O fim das contribuições sindicais obrigatórias, ocorrida nos capítulos finais do governo Temer, pode tornar as manifestações de esquerda menos populosas e mais concentradas com radicais. Se grupos dos extremos ideológicos, como torcidas organizadas e os autointitulados antifascistas, vieram a pautar e dominar as demonstrações contra o presidente Bolsonaro ele terá a representação violenta e vil que ele sempre quis dos seus adversários ideológicos.

Por hora, a quarentena ainda limita e altera as manifestações de ambos os lados do espectro político, mas aos poucos a vontade de expressar desejos políticos se sobrepõe ao medo de contrair o coronavírus. O que tudo indica é que o presidente Bolsonaro, movido pela rejeição à esquerda e ao petismo, será beneficiado pelo retorno desta antiga.

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