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A economia planificada de O Poço

29 de julho de 2022
Escrito por Terraco Econômico
Tempo de leitura: 5 min
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Tempo de leitura: 5 min

Economia planificada, também conhecida como economia planejada, é tipicamente definida como um sistema econômico em que um governo centralizado toma decisões econômicas sobre a produção e a distribuição de bens e serviços.

Esse sistema foi adotado por diferentes países durante o século XX, como URSS e Cuba, com a Coreia do Norte sendo o exemplo mais evidente de economia planificada nos dias de hoje. Sobre isso, não é de causar espanto nenhum saber que a economia planificada chegaria ao cinema, inspirando vários filmes, como pode ser observado em O Poço.

O Poço é um filme espanhol de 2019, lançado pela Netflix. Na obra, acompanhamos a história de Goreng, um homem que voluntariamente aceita entrar em uma prisão que consiste em um experimento social batizado de o “poço”.

Para o azar de Goreng, sair dessa prisão é extremamente difícil, quase que uma espécie de Round 6, com o poço se revelando bem mais fundo do que se poderia imaginar.

Qual é a lógica do poço?

O poço é uma prisão subterrânea que possui vários andares. Em cada andar, basicamente uma cela estreita e sem luz do sol, sempre há dois detentos que, entre outras coisas, precisam dividir a comida.

Essa questão é central no poço – o grande ingrediente de toda a história do filme -, já que todos os detentos só recebem comida por meio de uma plataforma que desce em cada andar todos os dias. A plataforma leva uma mesa com um imenso banquete, que vai acabando na medida em que a plataforma desce, pois os detentos de cada andar vão consumindo a comida da mesa.

Nesse contexto, fica muito claro o incentivo que cada preso vai ter: comer o máximo possível!

A consequência desse incentivo, de comer o máximo possível, acaba prejudicando os presos dos andares inferiores. Quanto mais baixo o andar, menos comida o prisioneiro tem acesso, já que os presos dos andares anteriores tiveram o incentivo de comer o máximo possível.

Além disso, há um mecanismo extra no funcionamento do poço. Uma vez por mês, os prisioneiros são realocados de maneira aleatória. Então, quem estava nos primeiros andares pode acabar indo para os últimos andares, podendo também ocorrer o contrário. Com isso, cria-se uma série de novos incentivos que reforçam ainda mais o movimento de consumir o máximo de comida disponível, não se importando com os prisioneiros alocados nos andares inferiores.

Imagine se você estivesse nessa situação, preso em uma cela, com acesso a comida somente por uma plataforma que leva comida diariamente. No caso de estar nos primeiros andares – em um dos primeiros cinquenta andares pelo menos – o seu incentivo será de comer o máximo possível, até mesmo como uma forma de se resguardar para o próximo mês, já que você poderá ser levado para os últimos andares – depois do centésimo – em que a comida é extremamente escassa.

Esse tipo de comportamento é o mais racional possível, sendo induzido pela própria dinâmica da prisão.

O poço é um sistema planificado?

O Poço é um filme que possui muitas camadas, com margem para as mais diversas e exóticas interpretações.

Uma dessas interpretações, bastante factível, consiste no poço representar um sistema planificado. Para explicar essa teoria, é necessário falar da existência de uma “cozinha”, exercendo uma função bem parecida com a de um governo centralizador.

Essa cozinha, mostrada em diferentes momentos no filme, possui a responsabilidade de preparar o banquete que vai descer na plataforma, agindo como um grande estado centralizador, controlando a distribuição da comida. Por consequência disso, a quantidade de comida acaba sendo decidida de maneira centralizada, controlada a partir de um planejamento planificado, não levando em conta nenhum incentivo proveniente de trocas ou da necessidade individual dos prisioneiros, por exemplo.

O planejamento centralizado da cozinha fica muito claro a partir de uma revolta iniciada por Goreng. Na tentativa de gerar uma revolução no poço, Goreng descobre que mesmo usando de violência para controlar o consumo dos prisioneiros alocados nos primeiros andares – evitando o incentivo de consumir ao máximo -, a falha está na oferta planejada da quantidade de comida.

Qual é o contrário de economia planificada?

O contrário de economia planificada é economia de mercado. E isso por si só já pode fornecer alguns insights a respeito da sua definição.

Basicamente, uma economia de mercado consiste em um sistema econômico no qual as decisões econômicas e os preços de bens e serviços são guiados pelas interações entre os indivíduos. Isto é, no lugar do planejamento de um governo centralizado, o que existe é um equilíbrio gerado pela atuação das leis de oferta e demanda.

Se o poço funcionasse com base em uma economia de mercado, a quantidade de comida não seria totalmente controlada pela cozinha, independentemente dos incentivos. Ou seja, a cozinha – que é a ofertante – receberia os “incentivos do mercado” para aumentar a sua produção, já que os últimos prisioneiros, localizados nos últimos andares, não estão recebendo comida.

50 tons de poço e o que o filme tem a ver com a Economia

Na esmagadora maioria dos países na atualidade, é praticamente impossível encontrar uma economia totalmente planificada ou totalmente de mercado. O que existe de fato são “50 tons de planejamento e mercado”.

O maior exemplo disso é a China, que consegue combinar economia fortemente planejada e atuação conforme as leis de mercado.

Em O Poço isso não se mostra tão diferente, havendo “50 tons de poço” quando o assunto é sistema econômico. Assim, o filme possui diferentes interpretações, podendo ser interpretado como uma crítica ao capitalismo, com cada andar representando as profundas desigualdades sociais existentes na sociedade e o egoísmo dos indivíduos.

Apesar dessa interpretação, sem dúvida bastante aceitável, uma coisa é certa: o poço funciona de acordo com as regras da cozinha e não de acordo com as regras do mercado.

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