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3 lições de um presidente improvável: o que a eleição de Fernando Henrique Cardoso nos ensina?

10 de junho de 2022
Escrito por Terraco Econômico
Tempo de leitura: 8 min
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Tempo de leitura: 8 min

Imagina se alguém, na década de 80, contasse uma previsão de que o Brasil teria um sociólogo como presidente e que este passaria a faixa a um operário. Seria taxado de louco, certo?

Dada a “estrutura clássica” de presidentes que tivemos em nosso país desde a proclamação da república em 1889 – com trajetórias todas muito parecidas e relacionadas ao universo tradicional da política de alguma maneira – parecia altamente improvável termos um presidente vindo do ambiente acadêmico e com força política invejável.

Só parecia improvável, porque de fato aconteceu.

Seguindo a sequência de indicações que fazemos às sextas aqui nesta coluna, falaremos hoje a respeito de reflexões que podemos tirar do documentário O Presidente Improvável, no qual Fernando Henrique Cardoso (ou simplesmente FHC) conversa com diversas pessoas que fizeram parte de sua trajetória acadêmica que desembocou na política e, no fim das contas, em dois mandatos presidenciais ganhos em primeiro turno.

Caso seja esse o primeiro artigo de indicações que você leia, fazemos um alerta de antemão: aqui não iremos te contar o que você vai encontrar na obra, mas sim alguns dos aprendizados que podem ser extraídos dela. Recomendamos que você assista o documentário, porque certamente a experiência será mais aprofundada do que a leitura deste artigo de maneira isolada, combinado?

Política é a arte do convencimento

Em tempos de polarização rendendo manchetes e parecendo ser a única saída, cabe lembrar algo essencial da política: você não vai lidar com quem gostaria em um cenário ideal, mas com quem está lá. Na verdade, sejamos sinceros: essa situação é análoga à muito do que encontramos também no mercado de trabalho todos os dias.

Tal qual a lenda de Narciso que olhava para a lâmina d’água e se apaixonava pelo que via, a polarização política também traz uma enganação latente: pregar para convertidos faz parecer que você está sempre certo e que o desafio de passar adiante medidas que se pretende e vê-las aprovadas é muito mais tranquilo do que inicialmente se imagina.

Mas isso, no fim das contas, sequer é política: no máximo é direcionar os rumos de uma tribo da qual se faz parte. A articulação de pautas que se querem ser aprovadas leva em consideração uma obviedade que costuma ser esquecida atualmente: você precisa falar com quem não necessariamente concorda contigo, pelo simples fato de que é assim que maiorias são construídas na democracia.

Durante o governo FHC, e como apresentado em detalhes no documentário, vários momentos demandaram cuidadosa comunicação política e também muita articulação. Inclusive possivelmente a maior das críticas que seu governo recebeu foi pela aliança com o então PFL, partido que tinha entre seus nomes pessoas que estiveram apoiando o regime militar pouco mais de dez anos antes. Sua justificativa: sem aquele apoio e interlocução (que inclusive tinha muita força no Nordeste), medidas importantes não teriam seguido adiante. Pode-se questionar os nomes e os métodos, mas de fato não faria sentido dizer que essa visão não foi politicamente pragmática.

A situação hoje, tanto na política quanto em diversas outras relações sociais, é bem diferente do que tínhamos entre os anos 1990 e o início dos anos 2000. O próprio fenômeno das redes sociais com sua instantaneidade total e absoluta, por exemplo, colocam outros patamares de discussão. Mas, independente dessa nova dificuldade, lembre-se que pregar para convertidos ou ser elogiado pelo espelho não leva a lugar algum.

Cuidado para não defender o que já passou

Todos nós gostamos de acertar. É uma sensação muito boa a de poder deixar bem indicado que, sim, estávamos corretos e o caminho que deveria ter sido seguido era o que apontamos. Mas o acerto traz menos ensinamento do que o erro, principalmente por passar a péssima impressão de que somos infalíveis.

Gostamos da sensação de que existem soluções únicas para problemas diversos, mas isso costuma ser algo bastante diferente da realidade. O conhecimento que se acumula com várias tomadas de decisão não deve ser desprezado, mas a ideia de que “com a experiência vem a capacidade de nunca mais errar” é um problema sério.

Todos nós conhecemos (ou em algum momento até já fomos) pelo menos alguma pessoa que, por ter passado por diversas questões, parte do pressuposto de que servirá como oráculo da verdade independente da situação. Mas, na verdade, a imensa maioria das situações demanda de nós adaptabilidade e a capacidade de entregarmos resultados de uma maneira diferente.

É preciso ter cuidado para não se agarrar a processos históricos que já passaram, sob a pena de ficar pelo caminho tomando decisões equivocadas. Não é a coisa mais fácil do mundo de se fazer, principalmente se você geralmente muito mais acerta as análises e leituras do mundo do que erra, mas é essencial.

Humildade para reconhecer que as coisas mudam é fundamental para que possamos estar preparados para nos adaptarmos a essas mudanças, quaisquer que sejam elas. Já agarrar-se ao que passou como se verdade fundamental e eterna fosse é um caminho bastante célere para a ruína.

Não é abordada no documentário diretamente a suposta fala “esqueçam o que eu escrevi”, que teria sido dita por FHC ao defender reformas liberais e privatizações após ter apresentado visão mais estatizantes no passado, mas o ex-presidente pontua essa necessidade quando fala sobre como necessidades conjunturais podem fazer com que inclinações ocorram a direções que podem, ao menos a princípio, surpreender as pessoas.

Ou, de maneira muito mais direta: pouco se esperava que ele, um destacado sociólogo com vertente mais direcionada a atividades do Estado, promoveria tantas privatizações e mudanças do papel público passar de provedor a regulador de serviços. Mas isso aconteceu por um conjunto de especificidades do momento que demandaram que esses caminhos fossem percorridos.

Ouvindo os bons conselhos

Uma história que provavelmente você já viu em algum lugar é aquela clássica em que todos que contam más notícias em uma fábrica são demitidos porque ninguém que direciona as atividades quer ouvir o que “desestimula” os avanços possíveis – e, no fim das contas, a fábrica vem abaixo com um incêndio que poderia ter sido evitado caso alguém contasse sobre a primeira faísca visível.

Tanto na política quanto em nossas vidas é preciso ter atenção a quem fala o que tem conexão com a realidade, independente disso não representar notícia agradável e que queira ser ouvida. Especificamente na política isso pode ser ainda mais danoso tanto para a tomada de decisões quanto para a articulação que se busca para resolver grandes problemas.

O mundo seria muito melhor se todas as notícias impactantes fossem positivas. Ninguém em sã consciência prefere que cheguem a si notícias ruins, pesadas e negativas. Mas a realidade impõe a necessidade de ter contato com o que se passa se você de fato quiser resolver problemas e não apenas notar que eles existem.

Assim sendo, tenha sempre por perto pessoas que servem para balizar seus pensamentos, verificar se eles apresentam ou não conexão com a realidade e, mais importante ainda do que isso tudo, te mostrem quais são os reais aspectos que devem ser levados em consideração para a leitura dos cenários.

A grande problemática em deixar isso de lado está em tomar atitudes das quais você rapidamente se arrependerá, seja porque não condizem com a realidade ou mesmo porque te deixarão em posição de isolamento.

Afinal, não é o espelho que vai te contar quando há um incêndio, então não pense que conversar apenas com seu próprio reflexo irá trazer as melhores ideias possíveis para saber sequer quando a primeira fagulha ocorreu.

Durante o documentário FHC conta de algumas situações de crises, como a que aconteceu com países emergentes entre 1997 e 1998, em que procurava se aconselhar com quem passava as impressões reais de como o país era visto, quais seriam as melhores possibilidades para o câmbio (desvalorização) e outros pontos.

E o que isso tudo tem a ver com economia?

São basicamente duas óticas que podem ser observadas aqui com relação à economia. A primeira envolve a relação da tomada de decisão dentro da política e a segunda sobre as decisões que você mesmo toma em sua carreira profissional – e como isso impacta o todo.

Em relação à política, quanto mais conscientes de sua missão e de que sozinhos não chegam a lugar nenhum, maiores são as possibilidades de que seus planos virem execução e em seguida realidade. Apenas diagnosticar problemas mas morrer na praia tentando colocar em prática qualquer solução não serve para trazer resultados concretos. Com a polarização que observamos atualmente já é suficiente notar quão danosa é essa estratégia.

Já do lado da carreira profissional, lembrar que muitas das relações são políticas te ajuda a avançar de maneira mais sadia e realista. Seria muito interessante que toda relação de trabalho fosse puramente meritocrática, baseada nas entregas realizadas. Mas sabemos que, na realidade, convém entender um pouco de quem está te observando fazer essas entregas para saber quais serão os próximos possíveis degraus da subida corporativa.

Quanto mais pessoas  – na política ou fora dela – tiverem consciência de que os esforços são muito mais eficazes quando se leva em consideração o todo, mais eficiente a economia se tornará no fim do dia.

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