Semanal Macro – Redução momentânea de riscos ficais promove alívios para os mercados

Resumo da conjuntura recente…

Internacional

Ativos financeiros ao redor do globo iniciaram a semana passada em tom positivo, repercutindo a expectativa de alta do presidente americano após o mesmo ter contraído covid-19 na sexta-feira retrasada. No pano de fundo, índices de confiança nos EUA e na Europa seguiram apontando para o ritmo de acomodação no nível de recuperação. Tanto nos EUA quanto na Europa, continuou-se verificando não só uma desaceleração na atividade, mas também uma continuidade no processo de descompasso de desempenho entre o setor de serviços e industrial, com o primeiro tendo resultados aquém do esperado e o segundo em estado ainda robusto.

Na 3aF, investidores reagiram às sinalizações político-econômicas trazidas por Powell, presidente do Fed, e Lagarde, dirigente do BCE. Em comunicado à imprensa, o primeiro voltou a adotar um tom cauteloso, além de enfatizar a importância da reimplementação de mais suporte fiscal de tal forma a evitar uma “dinâmica recessiva” no pós-pandemia. Lagarde, por sua vez, sinalizou que a autoridade monetária pode incrementar seu programa de compra de títulos públicos e privados. O intuito, naturalmente, é aumentar a liquidez disponível, induzindo uma elevação no nível de estímulo para reativar o processo de recuperação econômica e forçar a inflação em direção à meta da autoridade. 

No meio da semana, o entrave entre republicanos e democratas para aprovar mais uma rodada de estímulos foi levada ao paroxismo quando Trump ordenou seus negociadores a cessarem as conversas com democratas até depois das eleições. O presidente escolheu focalizar a implementação de estímulos por via de uma liberação de US$ 25 bilhões para as empresas aéreas e US$ 135 bilhões para os pequenos negócios – valores bastante abaixo da cifra democrata de US$ 2,2 trilhões proposta na semana retrasada.

No mesmo dia, a Ata do Fed foi liberada sem trazer grandes novidades. Dirigentes do Fed afirmaram que a recuperação dá economia foi robusta ao longo do 3T20, porém com constantes sinais de acomodação, tornando a presença de mais suporte fiscal – como mencionou Powell no dia anterior – indispensável. A ata reiterou o novo arcabouço de política monetária – mais em prol do emprego e tolerante de uma inflação maior –, e contou como uma revisão altista para as projeções de PIB e emprego. De qualquer maneira, como não se projeta que a atividade volte aos níveis pré-crise até 2022, espera-se que a taxa básica de juros (o Federal Funds Rate) fique em 0,00% – 0,25% até pelo menos 2022.

Na 5aF, investidores receberam de bom grado a reviravolta de Trump. O presidente americano ressuscitou as negociações em torno de mais estímulos. Entretanto, fica claro que este movimento de vai-e-vem para aprovar mais estímulos segue penalizando a economia e, em especial, o mercado de trabalho. Somente na semana retrasada, o número de novos pedidos de seguro-desemprego ficou em 840 mil, resultado ligeiramente abaixo do valor visto na semana retrasada (849 mil). Mais preocupante ainda é, como mencionamos outrora, o ainda elevado número de pedidos continuados, isto é, as pessoas que pediram o benefício, experimentaram uma semana de desemprego, e voltaram a pedi-lo na semana seguinte. Este dado, que também é conhecido como uma medida alternativa para o desemprego, segue girando em torno dos 11 milhões.

Ao final da semana, a volta das conversas entre democratas e republicanos voltou a sustentar o mercado de forma consistente. De qualquer maneira, fica claro que, com apenas quatro semanas faltando para as eleições americanas, uma nova reiteração de um pacote trilionário se torna cada vez mais improvável. Assim, esperamos que no máximo – até que os partidos cheguem em um acordo concreto –, Trump implemente algumas ordens executivas e, no mínimo, nada seja feito. Acreditamos que a segunda opção é a mais provável.

Brasil

Aqui no Brasil, como não podia deixar de ser, as sinalizações trazidas pela esfera político-fiscal voltaram, junto com dados macroeconômicos, a imprimir efeito relevante sobre as mais diversas classes de ativos.

A semana começou em tom positivo, com investidores reagindo positivamente aos comentários enunciados por Márcio Bittar, relator da PEC emergencial, referindo-se ao novo plano de financiamento do Renda Cidadã, que deve respeitar o teto de gastos e estava previsto para ser divulgado na quarta-feira: “toda demanda tem que passar por um filtro, pelo carimbo da equipe econômica do ministro Paulo Guedes. E é isso que estou fazendo aqui.”

A despeito da sinalização estar na direção correta, deve-se manter em mente que ainda não há nada resolvido. Ainda é muito cedo para afirmar que o problema foi deixado para traz, uma vez que diversos atores políticos – principalmente àqueles ligados à ala desenvolvimentista do governo – ainda anseiam levar a política econômica em direção à flexibilização do teto de gastos. Isto torna-se ainda mais preocupante quando lembramos que uma das principais características do presidente tem sido este vai-e-vem entre dar ouvidos à ideologia fiscalista da equipe econômica uma hora, e ignorá-la no dia seguinte, preferindo atender aos anseios da ala desenvolvimentista.

No mesmo dia, índices de confiança marcaram o mesmo movimento observado na Europa e nos EUA. Enquanto o setor industrial, devido à sua menor sensibilidade a variações no quadro sanitário, segue robusto; o setor de serviços, por depender amplamente do contato social, segue com desempenho fraco.

Na 3aF, a reconciliação entre Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, e Paulo Guedes, chefe da pasta da economia, em jantar promovido pelo ministro do TCU, Bruno Dantas, agradou os sentimentos ao reativar a esperança com relação ao progresso das reformas estruturais (administrativa, tributária, emergencial etc.).

De pouco adiantou o ânimo trazido por tal reconciliação, uma vez que o plano de financiamento do Renda Cidadã foi, como antecipamos na edição de 3aF no Apito Final, foi novamente adiado na 4aF. De acordo com a relator, sua divulgação ficaria somente para depois das eleições municipais de novembro, indicando que o presidente, numa tentativa de não impactar os resultados eleitorais de seus aliados, está possivelmente disposto a implementar uma série de medidas socialmente impopulares para financiar a expansão do programa assistencialista ao mesmo tempo em que mantém a integralidade da principal âncora fiscal viva. Ainda assim, esta prorrogação deixa os investidores no escuro e mantém o espectro do risco fiscal vivo, exercendo pressão sobre o dólar e a curva de juros.

No mesmo dia, o Índice de Commodities (IC-BR) divulgado pelo BCB, ao avançar 0,54% em setembro, apresentou forte desaceleração no preço dos produtos agropecuários, metais e energia com relação a agosto, quando havia apresentado alta de 9,39%. Assim, o dado deu sustentação à tese que temos recorrentemente apresentado: a aceleração nos preços dos alimentos – em si uma função dos preços das commodities – é transitória, deixando o cenário inflacionário ainda com carácter benigno.

Na 5aF, rumores de que o governo estaria cogitando desmembrar o Ministério da Economia permearam e estender o auxílio emergencial além de 2020 contaminaram as decisões de investimento. De tamanha preocupação foram os rumores que Guedes e Bolsonaro tiveram que desmenti-los publicamente. Ao longo do dia, as vendas no varejo de agosto animaram os mercados. A despeito de desacelerar com relação a julho, apresentaram alta de 3,4% e 4,6% no sentido restrito e amplo (inclui vendas de veículos e materiais de construção), respectivamente. Enquanto o primeiro já recuperou todas as perdas angariadas ao longo da crise, o segundo ainda acumula baixa de 1,7% no ano.

Acreditamos que este processo de desaceleração no ritmo de recuperação do setor deve continuar em pauta ao longo do último trimestre do ano, principalmente em função da redução do auxílio emergencial pela metade. Ainda, destacamos que, em termos de política monetária, o resultado não altera a atual prática de juros baixos e enfatizamos que o risco fiscal, gerador de uma elevação das taxas de juros de longo prazo, tem potencial de comprometer a continuidade robusta do consumo na medida em que ameaça elevar as taxas de juros cobradas nos cartões de créditos das famílias.

Ao final da semana, na ausência de novos ruídos políticos, investidores reagiram principalmente à divulgação do IPCA de setembro. Este mostrou forte aceleração para alta de 0,64% no mês, ante avanço de 0,24% em agosto.

Sem grandes novidades, a maior pressão veio da categoria de alimentos e bebidas, que segue sob pressão em duas frentes. No lado da oferta, a elevada cotação da taxa de câmbio e dos preços das commodities induz uma retração da oferta doméstica em prol de uma ampliação da oferta internacional. Em relação a demanda, os impulsos trazidos pelo auxílio emergencial, além da recomposição da cesta de consumo produzida pela pandemia, ocasionam um aquecimento da procura por alimentos e bebidas. Naturalmente, a conjugação de ambas estas forças exerce pressão altista sobre os preços dos alimentos, explicando o movimento.

Apesar de apresentar considerável aceleração, entendemos que o resultado não deve alterar o atual plano de voo do BCB, uma vez que está pressão é de fato transitória. Como não vemos uma aceleração adicional nem das commodities – pelo contrário, a leitura mais recente do Índice de Commodities do BC já evidencia desacelerações –, e nem do câmbio, entendemos que o IPCA, assim como os núcleos, deve continuar prescrevendo um extraordinário grau de estímulo monetário. Entretanto, voltamos a enfatizar que a boa condução da política fiscal é condição necessária para manter a política monetária em terreno estimulativo.

O que está por vir…

Em uma semana relativamente morna de indicadores econômicos, investidores se atentarão hoje à divulgação do Índice de Preços ao Consumidor (CPI) para setembro nos EUA e ao índice de expectativas para outubro na Alemanha, maior economia do continente europeu. No restante da semana, o investidor ficará de olho na produção industrial na zona do euro e no IPC e IPP na China (4a feira); nos pedidos de auxílio-desemprego nos EUA (5a feira), assim como no IPC na Europa e nas vendas no varejo, na produção industrial e na confiança do consumidor nos EUA (6a feira).

Além da divulgação da pesquisa Focus do BCB hoje pela manhã, o investidor se atentará, ao longo do dia, ao leilão tradicional de NTN-Bs efetuado pelo Tesouro Nacional. Ao longo da semana, a divulgação da PMS (4a feira), assim como do IBC-Br (5 a), calibrarão as expectativas quanto à retomada da economia como um todo. Para encerrar a semana, o IGP-10 deve continuar em foco, ainda apresentando as pressões vindas da categoria de alimentos.

E agora?

Ativos internacionais iniciam o dia em tom misto, na medida em que investidores ponderam a redução de incertezas eleitorais junto da provável concretização de uma presidência democrata. A perspectiva de uma não judicialização do processo induz uma menor volatilidade esperada, mas as pautas econômicas propostas por Biden têm potencial efeito contracionista sobre os ativos de risco americanos. No pano de fundo, a inércia dentro do Congresso para aprovar mais um pacote de estímulos, assim como ressurgimento relevante de casos da covid-19 na Europa, devem continuar pensando sobre o sentimento ao longo da semana.

Aqui no Brasil, o espectro do risco fiscal segue vivo, com investidores recebendo negativamente o fato de que a proposta de financiamento do Renda Cidadã só deve ficar para depois das eleições municipais. Assim, com as incertezas em relação à sustentabilidade das finanças públicas ainda pairando sobre o ar, entendemos que ativos de risco domésticos devem continuar apresentando movimento altamente voláteis. Resultado macroeconômicos positivos podem aliviar os sentimentos, mas pontuamos que, em última instância, somente as sinalizações corretas trazidas pela política podem colocar a valorização dos ativos em patamar consistente.

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