Semanal Macro – Eleições americanas e vacina animam os mercados

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A semana passada iniciou em tom otimista, com investidores avaliando de forma positiva a eleição de Joe Biden, confirmada no sábado, dia 6 de novembro, após vitória no crucial estado da Pensilvânia. Cientes de que o presidente eleito provavelmente governará de mão atadas devido à elevada probabilidade de os republicanos levarem o Senado – em si um movimento que reduz a chances de um aumento dos impostos corporativos –, investidores balancearam a baixa probabilidade de aprovação de um massivo pacote de estímulos econômicos. Ainda, o fato de que Biden é considerado o tipo de indivíduo que preza pelo multilateralismo e certamente será um ator político mais previsível e menos volátil do que Trump contribuiu para reduzir a aversão ao risco global, forçando uma baixa na cotação do dólar no mercado internacional (DXY).

Agregando ao otimismo do mercado, a Pfizer, junto da BioNTech, divulgou resultados extremamente promissores de sua vacina. As empresas comunicaram que sua vacina preveniu a infecção por covid-19 em 90% da amostra. Anthony Fauci, o principal intelectual no plano de doenças infecciosas nos EUA, disse que os resultados são “simplesmente extraordinários”. O movimento forçou uma rotação setorial em prol de ativos duramente penalizados pela pandemia, como os setores de óleo e gás, aviação e lazer, por exemplo.

Na 3ªfeira, a despeito do otimismo que se instalou com a notícia da vacina da Pfizer, é nítido que o longo processo de produção e distribuição da vacina manterá o comportamento do vírus em foco. Os EUA continuam catalogando novas máximas de casos diários, deixando a necessidade do apoio fiscal em primeiro plano. Não à toa, Kaplan, Diretor do Fed de Dallas, voltou a elevar o tom em torno da questão em entrevista à imprensa. No mesmo dia, a confiança do consumidor europeu seguiu pontuando o agressivo avanço do vírus. Na leitura preliminar de novembro, o dado apontou uma queda de 52,3 para 32,8 e somou-se à cesta de indicadores que sinalizam uma contração da atividade no último trimestre do ano.

No meio da semana, a produção industrial na zona do euro pintou um quadro similar. Em setembro, a produção do setor caiu -0,6%, configurando uma retração interanual de cerca de 7,0%. Diante da ausência da implementação do pacote bilionário e orçamento trilionário acordado entre governantes do bloco há alguns meses, a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, voltou a sinalizar a possibilidade de mais estímulos monetários: “todos os setores da economia têm de ter a confiança de que as condições de financiamento ficarão excepcionalmente favoráveis pelo tempo que for necessário”. Sem grandes segredos, o comunicado deixou claro que o BCE provavelmente ampliará a magnitude do programa de compra de ativos nas próximas reuniões.

A série de altas registradas durante o decorrer da semana forçaram um movimento de realização de lucros por parte dos investidores da 5ªfeira. No mesmo dia, as conversas em torno da aprovação de mais estímulos nos voltaram à tona. No mais recente desenvolvimento, a Casa Branca, de acordo com a Bloomberg, teria deixado as negociações nas mãos dos congressistas republicanos e democratas. Parte da razão parece residir no fato de que, desde que perdeu a eleição, Donald Trump tem iniciado uma série de investidas jurídicas para contornar os resultados das urnas.

Assim, compreendemos que a probabilidade de aprovação de mais um pacote de estímulos até o final do ano é bastante improvável. Vale relembrar que a Casa Branca estava disposta a negociar um pacote de US$ 1,8 trilhão, ainda em dissonância com a cifra preferida pelos democratas de US$ 2,2 trilhões. Republicanos do Senado, liderados por Mitch McConnell, têm sinalizado um suporte bem menor de US$ 500 bilhões, tornando claro que o descompasso de objetivos e desejos entre republicanos e democratas, na ausência da Casa Branca, tende a se sustentar.

Como de costume, investidores avaliaram, no mesmo dia, os pedidos de seguro-desemprego referentes à semana retrasada. Os pedidos voltaram a cair, mas seguem em elevado patamar: 709 mil. Os pedidos continuados, isto é, aqueles indivíduos que fizeram o pedido, experimentaram uma semana de desemprego, e voltaram a pedi-lo na semana seguinte, caíram para 6,7 milhões. Ainda, o mercado avaliou a evolução do Índice de Preços ao Consumidor. A dinâmica dos preços na economia americana seguiu com comportamento predominantemente desinflacionário, apresentando variação nula em outubro. Reforçamos que, na ausência de mais estímulos fiscais, estas pressões verificadas até o momento devem continuar caracterizando a dinâmica dos preços, dificultando o trabalho da política monetária de empurrar a inflação em direção à meta.

No final da semana, a confiança do consumidor americano, mensurada pela Universidade de Michigan, pontuou os efeitos da terceira onda sobre as expectativas das famílias. O dado recuou dos 81,8 registrados em outubro para 77,0 nesta última estimativa. A derrocada de confiança das famílias está umbilicalmente ligada à forte deterioração do quadro sanitário, que conta com forte aceleração na propagação do vírus, responsável pela renovação de máximas non número de casos registrados desde o início da crise. As incertezas quanto à possível aprovação de um novo pacote de auxílio, em meio à manutenção de uma taxa de desemprego de longo prazo elevada também contribui para reduzir a propensão ao consumo.

Brasil: IBOVESPA IMPORTA BOM HUMOR DO EXTERIOR E FIM DAS ELEIÇÕES ABREM ESPAÇO PARA AGENDA DE REFORMAS

Em âmbito local, a proximidade das eleições municipais manteve a agenda de Brasília em forte estado de inércia, dando espaço de atenção para uma leva de dados econômicos como as vendas no varejo, o volume no setor de serviços e o Índice de Atividadade do Banco Central (IBC-Br) além de movimentos políticos relacionadas à vacina chinesa.

Como estaque da 2ª e da 3ª feira no plano econômico, observou-se uma intensa apreciação do real perante o dólar; movimento ocasionado devido ao resultado das eleições americanas e da renovação do otimismo com relação a uma vacina. Apesar disso, uma continua apreciação não deve ser sustentável, tendo em vista que nenhum dos problemas estruturais do Brasil foram endereçados até o momento. Como nem o governo ou o Congresso sinalizaram uma guinada concreta em direção ao ajuste fiscal ou à aprovação de medidas que elevam o crescimento de longo prazo da economia – como a reforma tributária, por exemplo – não há por que crer que tal movimento perdurará.

Na política, as manchetes da manhã de 2ªfeira repercutiam rumores sobre assuntos que poderiam ser pautados no STF. A pressão para que o Supremo julgue a Ação Direta de Inconstitucionalidade apresentada pelo PTB que visa impedir a reeleição de Maia e Alcolumbre gerou especulações, que não viriam a ser confirmadas, que a Cúpula do Judiciário trataria da constitucionalidade da reeleição de presidentes do Legislativo Federal dentro da mesma Legislatura.

Durante o decorrer do dia, o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) abordou possíveis efeitos negativos que poderiam decorrer do atraso na aprovação do Orçamento de 2021. Entre estes, o mais alarmante foi a possiblidade de um futuro rebaixamento da classificação de risco do Brasil por parte das agências de rating. Geralmente, essa aprovação ocorre antes do recesso do Congresso (22/12), mas Mourão previu que a aprovação só ocorrerá em torno de abril.  

Ainda, a paralização dos testes da CoronaVac, ordenado pela Avisa no dia anterior, resultou em uma guerra de narrativas e questionamentos sobre a segurança do imunizante e a independência da agência sanitária. No dia anterior, foi revelado que o a “evento adverso” ocorrido com um dos participantes da pesquisa foi um suicídio ou overdose não diretamente relacionada à aplicação do imunizante.

Em resposta à paralização, o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, criticou a interrupção dos testes por gerar insegurança e sofrimento entre os voluntários. “É impossível que haja relação desse evento (adverso) com a vacina”, afirmou o diretor.

Em resposta, Gustavo Mendes, um representante da Anvisa, afirmou a suspensão foi baseada em o “princípio da cautela”. Em reação ao imbróglio, o ministro do STF Ricardo Lewandowski estabeleceu prazo de 48 horas para que Anvisa prestasse informações mais aprofundadas sobre os testes da CoronaVac.

O presidente Jair Bolsonaro se envolveu na controversa quando publicou no Facebook um comentário que associou a vacina à “Morte, invalidez, anomalia”, criticou a defesa do governador João Doria (PSDB) da obrigatoriedade do imunizante e caracterizou a evolução do assunto como “Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”. O comentário do presidente gerou suspeitas em torno de uma possível ingerência na agência nacional, que tem como diretor-presidente um indicado por Bolsonaro.

Porém, na 4ª feria, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou o fim da suspensão dos testes, dando fim aos questionamentos sobre uma possível ingerência do presidente sobre a agência sanitária.

No mesmo dia, rumores sobre o programa Renda Cidadã voltaram a dominar as manchetes. A mídia agora especulava sobre a possiblidade que a incapacidade da equipe econômica de criar espaço do Orçamento de 2021 para o novo programa assistencial poderia foçar o governo a se contentar com uma meta menos ambiciosa: uma expansão modesta do Bolsa Família. Segundo as matérias que abordavam o tema, o governo estuda como plano de contingência estender a cobertura do Bolsa Família para três milhões de famílias antes do término do auxílio emergencial.

Voltando as atenções para a agenda econômica, as vendas no varejo, divulgadas na 4ªfeira, demonstraram a continuidade no processo de recuperação, embora a uma taxa desacelerando devido, em parte, à redução do auxílio emergencial de R$ 600 para R$ 300 por mês.

Em setembro, o volume de vendas no varejo voltou a reforçar a continuidade no processo de recuperação econômica. No conceito restrito – que exclui as vendas de automóveis e materiais de construção – houve expansão de 0,6% na margem, configurando uma alta interanual de 7,3% e uma variação acumulada no ano de 0,0% e de 0,9% em 12 meses. Já no conceito amplo, o avanço mensal foi de 1,2%. Com isto, o varejo amplo registra alta interanual de 7,4%, mas segue com variação negativa de -3,6% no acumulado do ano e de -1,4% em 12 meses.

Ao observar o desempenho interanual do setor como um todo, observa-se que, a despeito da liberação dos lockdowns, os padrões de consumo das famílias continuam refletindo a alteração da cesta causada pela própria dinâmica social da covid-19. Isto é, as famílias continuam consumindo bens ligados ao estilo de vida derivado do distanciamento social e do home office, e continuam marginalizando o consumo de bens considerados não essenciais. Este é exatamente o caso quando observamos o desempenho de móveis e eletrodomésticos, vestuários, combustíveis e lubrificantes, veículos etc.

Em seguida, na 5ªfeira, o volume no setor de serviços cresceu 1,8%, desacelerando com relação a agosto e julho, quando havia apresentado altas de 2,90% e 2,70%, respectivamente. A despeito do avanço, que configurou a 4ª alta consecutiva para o setor, o movimento ainda não foi suficiente para reverter a queda acumulada de 19,80% de fevereiro a maio. Com o resultado, a taxa interanual de retração passou de -10,0% para -7,2%. No acumulado do ano, a taxa de crescimento passou de -8,8% para -6,0%.

No mesmo dia, o ministro Paulo Guedes (Economia) admitiu em um evento da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) que, caso a ameaça de uma 2ª onda se concretize, a extensão do auxilio emergencial “é uma certeza”, mesmo que o cenário da deterioração da crise sanitária não represente o “cenário A” previsto pela equipe econômica.

No final da semana, o índice de atividade do Banco Central (IBC-Br), proxy mensal para o PIB, refletiu o desempenho positivo das pesquisas setoriais. O dado mostrou um avanço de 1,29% na margem em setembro, reduzindo a retração interanual – isto é, com relação ao mesmo mês do ano passado – de um valor revisado de -3,90% em agosto para -0,77% nesta última leitura. Em 12 meses e no acumulado do ano, o índice registra quedas de -3,22% e -4,93%, respectivamente. Olhando para frente, a economia brasileira encontra uma séria de dificuldades para se recuperar por completo. Estas dificuldades estão, naturalmente, intimamente ligas ao estado do mercado de trabalho, à dinâmica do vírus e ao risco fiscal.

Começando pelo mercado de trabalho, entendemos que a elevada taxa de desemprego, que na última leitura referente ao trimestre encerrado em agosto saltou para 14,4% da força de trabalho, apresenta os mais sérios riscos à retomada.  A elevada taxa de desemprego induz um menor nível de dispêndio no agregado, reduzindo o nível de renda e inibindo um avanço robusto do consumo das famílias. Isto torna insustentável o robusto processo de recuperação verificado até o momento.

Com relação ao vírus, fica nítido que o forte arrefecimento da curva de contágio, que agora está em estado de desaceleração ou estável na maioria das unidades da federação, é bastante positivo. Este movimento tem contribuído para a elevação da confiança dos setores da economia e permitido a continuidade no processo de reabertura econômica. De qualquer maneira, fica claro que a possível reintrodução de medidas de isolamento social proveniente da instalação de uma segunda onda pesaria fortemente sobre o setor de serviços, inibindo uma continuada robusta da recuperação.

Já o risco fiscal, decorrente na enorme inaptidão do governo e do Congresso de dar as sinalizações corretas quanto ao manejo responsável das finanças públicas, tende a retardar o processo de recuperação por duas frentes.

Primeiro, o câmbio. Uma incerteza fiscal persistente força o overshooting (cenário no qual a taxa de câmbio se deprecia além de seu valor de equilíbrio) e mantém os custos de insumos importados desnecessariamente elevados. Isto, se consistente, tende a afetar a indústria forte e negativamente.

Segundo, as taxas de juros. A inércia política do governo para demonstrar um comprometimento efetivo com o teto de gastos, além do desfoque da classe política quanto ao avanço das reformas, impõem uma demanda por maiores prêmios de risco ao longo da estrutura a termo da taxa (curva) de juros. A contínua inclinação da curva contamina as demais taxas da economia. Isto, como pode-se imaginar, tende a subtrair da atividade pois invariavelmente leva a um aumento nos custos de financiamento de longo prazo da economia.

Ainda, compreendemos que o risco de uma segunda onda, na medida em que mantém a pressão política pela extensão dos benefícios fiscais para além de 2020 em alta, tende a amplificar o aperto das condições financeiros. É justamente por causa disto que a apresentação do Renda Cidadã (ou qualquer outro programa social substituto) – dentro do teto – é crucial para acalmar os ânimos dos partidos de oposição em Brasília.

O que está por vir…

Em dia de agenda morna, o destaque ficará com a divulgação do índice Empire State de manufatura, que mede a atividade da indústria do estado novaiorquino, às 10h30. No restante da semana, o investidor ainda espera (i) a produção industrial e as vendas no varejo em outubro nos EUA (3ªfeira); (ii) a leitura final do índice de inflação aos consumidores (CPI) na zona do euro (4ªfeira); (iii) os pedidos de auxílio desemprego semanais nos Estados Unidos (5ªfeira) e; (iv) a leitura preliminar do índice de confiança do consumidor europeu em novembro (6ªfeira).

O boletim Focus do Banco Central abre, como de costume, a agenda às 8h25, trazendo as atualizações das projeções econômicas do mercado. Nos próximos dias, investidores também avaliarão o IGP-M do 2º decêndio de novembro (4ªfeira), os dados de arrecadação federal em outubro (sem data definida) e o monitor do PIB da FGV (5ªfeira).

E agora?

No cenário internacional, a notícia de que a vacina da Moderna é tão eficaz quanto – ou mais – do que a Vacina da Pfizer deve voltar a induzir a tomada de risco. Por causa disto, a rotação setorial em torno dos ativos mais penalizados pela pandemia deve voltar a ocorrer, embora de forma momentânea. Na Europa, a reintrodução das medidas de isolamento social já começa a surtir efeito, criando uma perspectiva mais benigna para a dinâmica do vírus por lá. Nos EUA, a sinalização de que os governadores, e nem o próprio futuro governo do presidente-eleito Biden, pretendem implantar lockdowns generalizados também devem auxiliar no processo de valorização dos ativos.

Aqui no Brasil, o passar das eleições municipais abre as portas para que o Congresso siga em frente com a tramitação das pautas reformistas. Além da aprovação da PEC emergencial e constituição da CMO para definir o orçamento do ano que vem, é proeminente que o governo apresente o Renda Cidadã dentro do teto de gastos. Sua apresentação e forma de financiamento serão cruciais para manter as pressões políticas pela extensão dos benefícios fiscais à beira do mar (isto é especialmente preocupante tendo em vista a possibilidade de uma segunda onda de infecções) e evitar um aperto adicional das condições financeiros (aceleração da depreciação cambial e inclinação da curva de juros). Assim, esperamos que teremos uma semana decisiva no que diz respeito a sinalizações do governo e do Congresso com relação ao seu comprometimento com a agenda fiscalista.

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