Semanal Macro – Pandemia e risco fiscal andam de lado

Tempo de leitura: 12 minutos
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Resumo da conjuntura recente….

Internacional

No começo da semana, os mercados começaram otimistas com os resultados da economia chinesa, em 2020, e a consequente possibilidade da criação de condições favoráveis para a recuperação econômica global. A China registrou um crescimento em seu PIB do último trimestre de 6,5%, fazendo com que o resultado do ano superasse os níveis pré-pandemia e atingisse um aumento anual de 2,3%. Esse resultado foi principalmente impulsionado pela indústria do país, a qual foi beneficiada pelos estímulos fiscais e monetários feitos pelo governo e a demanda por equipamentos médicos e produtos usados no recente movimento de home-office. Por outro lado, os resultados chineses também mostraram uma queda nas vendas do varejo e uma diminuição nos investimentos em ativos fixos, que podem ser intensificados por consequências socioeconômicas da pandemia, como a diminuição da renda e o desemprego, e ilustram o desequilíbrio entre a produção industrial e o consumo local do país.

Na terça-feira, a economista Janet Yellen, nomeada pela administração de Biden como a nova secretária do Tesouro americano, foi sabatinada no Comitê de Finanças do Senado dos Estados Unidos. Como esperado, Yellen defendeu a nova política econômica expansionista americana, principalmente o pacote US$1,9 trilhão, com a justificativa de ser atrativo ao governo se endividar à juros baixos, pois a expectativa de crescimento econômico é positiva, levando a trajetória da dívida à tendência de estabilidade, já que o crescimento do PIB superaria o custo de financiamento do setor público. Ademais, a tesoureira também comentou sobre a necessidade de enfrentar as práticas econômicas e comerciais abusivas da China e garantiu que o governo de Biden não pretende enfraquecer o dólar. Consequentemente, o mercado americano reagiu positivamente, com um aumento das expectativas sobre o crescimento da economia e dos lucros corporativos.

Também nesse dia, o índice ZEW de confiança na economia europeia, em janeiro, avançou de 54,5 para 58,3, comparado com dezembro do ano passado. Esse aumento é resultado do otimismo com início da vacinação, na Europa, e a consequente expectativa de crescimento econômico, já que a imunização representa uma amenização da pandemia e o início da recuperação da economia, principalmente de setores afetados pelo distanciamento social, como o de serviços.

No meio da semana, o Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) europeu evidenciou as consequências deixadas pela pandemia, no continente. De acordo com os resultados apresentados, foi confirmada uma deflação de 0,3%, na comparação interanual em dezembro, e um aumento marginal dos preços em 0,3%, o qual não foi suficiente para que o país saísse de uma sequência de 4 meses de deflação, na base anual.  O dado reforçou a continuidade da postura acomodatícia da política monetária do Banco Central Europeu.

Ainda na quarta-feira, Joe Biden tomou posse como o 46º Presidente dos Estados Unidos. Em seu primeiro discurso como líder do país, Biden defendeu a causa democrática e reconheceu o momento desafiante em que assume o cargo, afirmando que está colocando a sua alma para unir o país e solucionar os problemas socioeconômicos presentes na atualidade americana. Diante desse tom positivo e a esperança na resolução das inúmeras crises que afetam a maior potência do mundo, os mais importantes índices americanos tiveram um dia de alta.

Na quinta-feira, o Banco Central Europeu manteve inalterada a sua trajetória de política monetária. Depois dos dados do CPI indicarem a continuidade da deflação, na Europa, e o BCE expandir o programa de compra de títulos públicos e privados (QE) para EUR$1,85 trilhão até pelo menos março de 2022, os formuladores da política monetária reforçaram a sua postura acomodatícia. Assim, foi comunicado que as condições de liquidez e financiamento continuarão em seus níveis atuais até que a inflação atinja a sua meta ou a pandemia acabe, já que a intensificação da doença, no último trimestre, pode induzir uma contração econômica.

Nesse mesmo dia, foram apresentados os dados sobre os pedidos de seguro-desemprego nos EUA. Estes caíram de 965 mil para 900 mil. Os pedidos continuados, que registram a constância com a qual um desempregado pede o pedido, ficaram em 5,05 milhões. É esperado que ocorra uma recuperação mais robusta no mercado de trabalho americano de agora em diante por conta da aprovação das medidas de estímulo à demanda e à oferta e do plano de Biden de vacinar 100 milhões de americanos em seus 100 primeiros dias de governo.

Na sexta-feira, foram divulgadas as informações do Índice de Gerentes de Compras (PMI, na sigla em inglês), na Europa e nos Estados Unidos. No continente europeu, considerando que os resultados inferiores a 50,0 sinalizam uma contração econômica, os dados indicaram uma grande possibilidade de sua economia entrar em recessão novamente por conta da queda do índice composto, que mede a atividade nos setores de indústria e serviços, de 49,1, registrado em dezembro, para 47,5 em janeiro. Nesse sentido, devido à intensificação da pandemia e as consequentes medidas de isolamento social, a Alemanha cresceu em seu menor ritmo desde o início da recuperação em julho, e o restante do bloco observou uma piora, principalmente causada pelo setor de serviços, um dos mais prejudicados pelas restrições de combate ao vírus.

Por outro lado, as informações divulgadas no PMI americano, pela IHS Markit, indicaram uma expansão no setor privado dos EUA, no começo deste ano, com um aumento nas exportações e na demanda interna. Os dados mostram altas em os seus índices Composto (55,3 para 58), de Serviço (54,8 para 57,5) e Industria (57,1 para 59,1), em comparação com as informações de dezembro.  Além disso, o relatório informou um aumento na pressão inflacionária, sentida mais pela indústria do que nos serviços, por conta de atrasos de fornecedores, escassez de determinados insumos e aumento dos preços de transporte e equipamentos de proteção pessoal. Por fim, também foi registrada uma leve diminuição na geração de empregos e um aumento no otimismo do setor empresarial por conta da esperança no sucesso dos planos de vacinação e em uma melhoria no ambiente de negócios promovida pela nova administração de Biden, a partir do segundo semestre de 2021.

Brasil

No Brasil, a semana começou com a divulgação do Índice de Atividade do Banco Central, o IBC-Br.  Em novembro, o índice de atividade do Banco Central voltou a apontar para uma alta da atividade econômica, mesmo que em ritmo de desaceleração. No mês, o avanço foi de 0,59%, em linha com as projeções de mercado. Com este resultado, o índice ficou 0,83% menor quando comparado com os níveis de novembro do ano passado e acumula contração de 4,63% no ano. Como era de se esperar, o avanço do indicador repercutiu o desempenho dos diversos setores da economia (varejo, serviços e indústria) no mês que, apesar de seguir em trajetória de retomada, já apresentam claros sinais de perda de ímpeto.

Mercados locais também refletiram o início, embora informal, da campanha de imunização em massa da sociedade brasileira. Doria, principal adversário político de Bolsonaro, ganhou a corrida das vacinas ao ser o primeiro a sacar a foto simbólica de um brasileiro sendo vacinado. O movimento efetivamente abriu as portas para o início do fim da pandemia, mas notícias relacionadas à falta de insumos para a produção de vacinas criaram apreensão em torno da velocidade da campanha de vacinação. A falta de insumos é indicativa de um atraso na campanha de vacinação e consequente possível prolongamento dos efeitos recessivos da pandemia.

Na terça-feira, as preocupações quanto à evolução da pandemia se transformaram em preocupações fiscais. O contínuo e agressivo alastramento do vírus tem mantido as pressões políticas pela extensão do auxílio emergencial em alta, contribuindo para uma deterioração das condições financeiros. Juros de longo prazo operaram em forte alta na semana passada, enquanto a taxa de câmbio retomou trajetória altista com permanência de elevada volatilidade. É proeminente que Governo e Congresso encontre uma solução que equalize as necessidades financeiras da população com as restrições impostas pelo teto de gastos.

No dia seguinte, de olho no recrudescimento da pandemia, técnicos do ministério da economia estudaram retomar o Programa de Preservação de Renda e do Emprego, que permite a redução da jornada de trabalho e salário com consequente suspensão do contrato de trabalho. Entretanto, técnicos do corpo da pasta de Guedes salientaram que o movimento deve ser feito à luz das restrições fiscais, como o teto de gastos.

No mesmo dia, O comitê de política monetária do Banco Central optou, por unanimidade, deixar a taxa Selic estacionada em seu atual patamar de 2,00%. Ainda, devido à maior proximidade entre as projeções de inflação e as metas, optou-se por retirar o Forward Guidance (promessa de juros baixos por tempo prolongado).

Nesta frente, destacamos a evolução da projeção do cenário básico para a inflação para 2021 que, ao avançar de 3,4% em dezembro para 3,6% na presente edição, contribuiu para que o Banco Central abandonasse a ferramenta adotada em sua 232ª reunião – “o Copom avalia que essas condições deixaram de ser satisfeitas já que as expectativas de inflação, assim como as projeções de inflação de seu cenário básico, estão suficientemente próximas da meta de inflação para o horizonte relevante de política monetária”.

As demais clausulas que permitiam o uso do FG, como a manutenção do regime fiscal e a ancoragem das expectativas de longo prazo, no entanto, continuavam válidas. Ao todo, o tom ligeiramente mais hawkish adotado pelo comitê criou maiores condições de apreciação do real, mas a permanência de um risco fiscal elevado não permitiu que ocorresse.

De qualquer maneira, o corpo decisório do BCB deixou claro que um abandono do Forward Guidance não implica em um aumento mecânico da taxa de juro longo em seguida. O ritmo de crescimento da economia segue com incerteza acima do usual e as condições objetivas da economia continuam prescrevendo um extraordinário grau de estímulo monetária. O desemprego continua em nível extremamente alto, as pesquisas setoriais apontam para constante arrefecimento do processo de recuperação e, em 2021, a ausência de diversos estímulos monetário e fiscal, acoplado ao agressivo ressurgimento da covid-19, deverá pesar sobre o nível de atividade.

Na quinta-feira, atritos políticos em torno das negociações por insumos para a produção das vacinas marcaram o dia e amplificaram as preocupações supracitadas. O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, não tem cooperado nas negociações comerciais com o Embaixador chinês, Yang Wanming, fazendo com que fosse necessária a participação do Presidente da Câmara e de outros Ministérios, como o da Saúde, da Agricultura e das Comunicações, para que houvesse avanços na liberação dos insumos. Tamanha foi a discordância que Beijing pediu a exoneração do ministro para seguir em frente com as negociações.

Ao final da semana, avanços positivos quanto à liberação de insumos foram feitos. O embaixador brasileiro na China, Paulo Estivallet, foi informado pelo Ministro de Negócios Estrangeiros chinês que o Brasil, por ser um grande parceiro estratégico, terá prioridade na exportação da matéria-prima. Não obstante, a volta de medidas mais agressivas de restrição à mobilidade implementadas pelo Governo de SP pesou sobre o sentimento, contribuindo ainda mais para uma piora das perspectivas quanto à evolução da atividade e do gerenciamento das finanças públicas.

O que está por vir…

Na 2afeira, investidores se atentarão ao índice de atividade nacional do Fed. Na 3afeira, índices de confiança do consumidor nos EUA e na Alemanha marcam o dia, junto do índice de encomenda de bens duráveis nos EUA. No meio da semana, o Comitê de Política Monetária do Fed toma a primeira decisão do ano, e outros índices econômicos nos EUA, como PIB do 4T2020 e pedidos de auxílio desemprego semanais, são divulgados na 5afeira. No final da semana, a última leitura do PIB alemão também é divulgada junto do deflator do PCE, a medida de inflação preferencial do Fed.

Como de costume, o boletim Focus abre a agenda de indicadores às 8:25h. Na 3afeira, o investidor dimensiona, ao menos parcialmente, a retirada dos estímulos fiscais e creditícios a partir da divulgação do IPCA-15 para o primeiro mês do ano. No meio da semana, o BCB divulga uma série de estatísticas referentes ao setor externo brasileiro. Na 5afeira, além da divulgação da primeira leitura mensal do IGP-M, o mercado acompanha a divulgação da taxa de desemprego para o mês de novembro, o resultado primário do governo central para o mês de dezembro e dados de emprego do Caged referentes ao mesmo mês. Ao final da semana, a FGV divulga seu clássico Indicador de Incerteza da Economia.

E agora?

No mercado internacional, investidores continuarão monitorando o avanço das campanhas de vacinação e efeito das novas cepas da covid-19 sobre a curva de contágio. Concomitantemente, avaliarão o proceder das negociações por mais estímulos fiscais. Com o processo de impeachment do ex-presidente Trump marcado para ser discutido no dia 10 de fevereiro no Senado, democratas correrão para aprovar o pacote antes disto. A expectativa é que a cifra seja reduzida dos atuais US$ 1,9 tri preconizados pela equipe econômica de Biden.

Localmente, ativos domésticos devem, como de costume, reagir aos movimentos de Brasília. Embora a notícia de que a China entregará insumos para a produção local de vacinas, compreendemos que o relativo atraso em efetivamente iniciar a campanha de imunização manterá as pressões políticas pela extensão do auxílio emergencial em alta. Com isto, as taxas de juros de longo prazo, assim como as movimentações da taxa de câmbio, continuarão caracterizadas pela elevada volatilidade, demonstrando resistência à queda.

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