Semanal Macro – Entre vacinas, estímulos e ruídos

Tempo de leitura: 10 minutos
IBOV R$/US$ CDS DI Jan/27 S&P500 STOXX 600
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Resumo da conjuntura recente….

Internacional

Índices acionários internacionais encerraram a semana passada com ganhos relevantes, refletindo o desfecho das eleições para duas cadeiras no Senado. Como de costume, índices, principalmente ligado à confiança, marcaram a semana, ao passo que notícias relacionadas à covid-19 e ao avanço da campanha de vacinação continuaram influenciando as decisões de investimento.

Logo na 2ªfeira, investidores receberam de bom grado a liberação da vacina da AstraZeneca/Oxford por parte de reguladores do Reino Unido, adicionando ao otimismo que se instalou com o início das campanhas de vacinação ao redor do continente. Verificou-se, em paralelo, esta alta da confiança no índice PMI da indústria, que registrou o maior nível (55,2) em dois anos, criando perspectivas ligeiramente mais otimista no que tange à atividade no bloco. Nos EUA, o mesmo índice seguiu em alta, avançando de 56,7 para 57,1, indicando expansão dos novos pedidos e da produção da indústria durante o mês de dezembro. O setor industrial, ao contrário do de serviços, segue se beneficiando da menor sensibilidade à taxa de propagação do vírus.

Na 3ªfeira, ativos sofreram um novo abalo, reagindo a mais recente implementação de medidas mais restritivas para conter o avanço do vírus na Europa. Enquanto o Reino Unido decretou um novo lockdown, França, Alemanha e Espanha acompanharam o movimento, endurecendo as medidas de restrição à mobilidade. O otimismo com o avanço das vacinas se contrapôs ao vertiginoso aumento de casos e mortes, criando uma reconsideração de perspectivas. Até o momento, as campanhas de vacinação na Europa e nos EUA deixam a desejar, avançando a um ritmo muito aquém do esperado.

Na 4ªfeira, em movimento supreendente, os democratas angariaram as duas cadeiras sendo disputadas no Senado. Investidores internacionais reagiram positivamente ao movimento, tendo em vista que a materialização da onda azul abriu as portas para a aprovação de medidas de estímulo à economia mais abrangentes, tanto pelo lado da demanda (mais suporte financeiro de curto prazo às famílias e empresas) quanto pelo lado da oferta (implementação de projetos de infraestrutura e energia renovável).

O resultado alimentou a rotação setorial verificada desde novembro, enquanto a expectativa por mais estímulos e pressões inflacionárias elevou o rendimento dos títulos públicos americanos. O yield da treasury de 10 anos, por exemplo, subiu e ficou acima de 1,00% — limiar do qual ficou abaixo desde a chegada da pandemia. A onda azul aconteceu em paralelo à invasão do Capitólio americano por parte de um grupo de extremistas pro-Trump, cujo objetivo era interromper o processo de formalização do presidente-eleito. Não obstante, como este caos político não afetou o contexto político-econômico de maneira efetiva, o mesmo não fez preço.

No mesmo dia, o PMI do setor de serviços americano encerrou o ano de 2020 em expansão, ainda que tenha registrado queda de 58,4 para 54,8 entre novembro e dezembro. Naturalmente, o incessante avanço do vírus, mesmo em meio à distribuição da vacina, pesou sobre o sentimento e surtiu efeito, inclusive, sobre o mercado de trabalho: a prévia do relatório de emprego (ADP) apontou para uma redução líquida de 123 mil empregos na economia americana. O setor de serviços foi o principal responsável pela perda, criando 105 mil desempregos enquanto o setor de bens minou 18 mil vagas.

Ainda no meio da semana, o Federal Reserve (BC americano) publicou a ata de sua última reunião de 2020, realizada em dezembro do ano passado. Como destaque, ligou tanto a evolução quanto a composição de seu programa de compra de títulos (QE) à obtenção de seu duplo mandato. Isto é, até que a economia se aproxime do pleno emprego ou a inflação do valor médio de 2,00%, espera-se que o Fed mantenha o atual ritmo de compras, que contempla a aquisição mensal de títulos lastreados em hipotecas (US$ 40 bi) e títulos públicos (US$ 80 bi).

Na 5ªfeira, o índice de inflação ao consumidor europeu marcou o dia. Em dezembro, o IPC avançou 0,30%, mas encerrou o ano com deflação de 0,30% na comparação interanual.  O avanço positivo na margem da inflação repercutiu o aumento nos preços de energia – em linha com a valorização recente do petróleo – e alguma recuperação na inflação de serviços – em consonância com as melhoras evidenciadas pela última pesquisa PMI do ano. De qualquer maneira, a inflação anual continua notadamente abaixo da meta de 2,00% prevista pelo BCE, significando que o programa de compra de títulos público e privados, recém ampliado, continuará, junto com o reduzido nível das taxas de juros, por mais tempo. Ao final da semana, a destruição líquida de 140 mil empregos nos EUA refletiu, novamente, os efeitos tardios, porém recessivos, do ressurgimento da covid-19. Com isto, a taxa de desemprego encerrou o ano de 2020 em 6,7% — patamar quase 100% acima do verificado nos momentos pré-crise. O setor de lazer e hospitalidade cortou 498 mil empregos no período, exemplificando como o agressivo ressurgimento da covid-19 segue pressionando negativamente a recuperação do seto. O recém aprovado pacote de US$ 900 bilhões pode proteger a recuperação entrando em 2021, mas mais esforços serão necessários para levar a economia de volta ao pleno emprego.

Brasil

Localmente, a agenda esvaziada de Brasília manteve a influência dos mercados internacionais em alta, mas comentários proferidos por atores políticos de peso influenciaram a dinâmica do câmbio e das taxas no mercado de juros futuros. Ainda, como destaque da semana, o governo de SP divulgou a eficácia da Coronavac e o IBGE apresentou a produção industrial para o mês de novembro. Dados de confiança e notícias relacionadas à eleição da presidência da Câmara também foram avaliadas ao longo da semana.

No início da semana, investidores reagiram positivamente ao PMI do setor industrial brasileiro. Ainda que tenha registrado queda de 64 em novembro para 61,5 em dezembro, segue em nível historicamente notável. Produtores do setor continuaram alegando uma forte alta dos novos pedidos e da produção. Em linha com o movimento, o mercado de trabalho também continuou em tendência de recuperação, embora a uma taxa menos impressionante. De qualquer maneira, a escassez de insumos ao longo das cadeias produtivas continua dificultando o cumprimento e a agilidade dos pedidos feitos por clientes.

Na 3ªfeira, o PT – principal partido da oposição e com número considerável de deputados (54) – oficializou seu apoio à candidatura de Baleia Rossi na corrida pela presidência da Câmara dos Deputados. Todas as siglas de esquerda, com exceção do PSOL, já sinalizaram que pretendem apoiar Rossi – fato que torna o mdbista o favorito no momento. Apesar da vantagem inicial do seu rival, Lira deve passar janeiro viajando para “roubar votos” de parlamentares dos partidos que prometeram apoiar Rossi.

No meio da semana, Bolsonaro voltou a confundir as expectativas ao mencionar, quando indagado sobre sua promessa de campanha de aumentar a faixa de isenção do IR, que o “Brasil está quebrado”. O comentário repercutiu negativamente sobre a sociedade, pois voltou a fortalecer a narrativa de que o chefe do Executivo não está comprometido com o avanço de sua própria agenda econômica.

Na 5ªfeira, o governo de SP divulgou, após sucessivos atrasos, a eficácia de 78% da Coronavac para casos leve e de atendimento ambulatório.  Para prevenir casos graves, moderados e internação hospitalar, a eficácia foi maior ainda: 100%. A notícia é extremamente positiva, pois sinaliza o início do fim da pandemia, pelo menos no estado de São Paulo. Com isto, o Governo estadual manteve o cronograma de iniciar a campanha de vacinação do dia 25 de janeiro, criando perspectivas bastante positivas para a retomada da economia ao longo deste ano. O resultado é especialmente importante para o setor de serviços, o mais penalizado durante a pandemia devido à sua maior sensibilidade à taxa de propagação do coronavírus. 

No final da semana, a divulgação da Pesquisa Industrial Mensal demonstrou que a indústria deu sequência ao movimento de recuperação verificado desde o início do processo de reabertura da economia que ganhou maior tração no 3º trimestre de 2020. Em novembro, cresceu 1,2%, ainda influenciada pela implementação de medidas fiscais e monetárias que criaram terreno fértil para uma robusta recuperação do setor. Com isto, a indústria caminha para encerrar o ano de 2020 com retração próxima de 5,00%.

A expansão do setor foi verificada dentro das cinco grandes categorias econômicas. Bens de capital cresceu 7,4%; Bem Intermediários, 0,10% e Bens de Consumo, 2,1%. Dentre os Bens de Consumo, o grupo de bens duráveis cresceu 6,2% e o de bens semiduráveis e não duráveis avançou 1,5%. No acumulado do ano, de janeiro a novembro, no entanto, as grandes categorias seguem em patamar negativo. Bens de capital apresenta retração de -12,6%; Bens Intermediários, -1,90% e Bens de Consumo -9,1%. Bens de consumo duráveis e semi e não duráveis apresentaram queda de, respectivamente, -20,50% e -5,90%. Para uma análise mais afundo, veja nosso Flash Macro sobre o assunto no site e app O Guia Financeiro.

Ainda, no mesmo dia, a taxa de câmbio em alta revelou a manutenção das incertezas fiscais que acompanharam o anúncio, de Baleia Rossi, de que convocaria o Congresso em caráter de urgência para discutir medidas de combata à covid-19.

O que está por vir…

Após dias de agenda praticamente esvaziada na 2ª e na 3ªfeira, o investidor aguarda a divulgação da produção industrial de novembro na zona do euro, o índice de preços ao consumidor americano (CPI, na sigla em inglês) de dezembro e o Livro Bege do Banco Central americano – texto que traz a visão dos diretores do Fed com relação à situação corrente da economia americana – na 4ªfeira. Na 5ªfeira, como de costume, saem os pedidos de auxílio-desemprego nos EUA. Por fim, na 6ªfeira, o investidor avalia o resultado da balança comercial europeia em novembro junto das vendas no varejo e a produção industrial em dezembro nos EUA.

Após o Boletim Focus e os dados da balança comercial semanal abrirem a agenda da semana nesta 2ªfeira, o investidor espera as divulgações do IPCA (3ªfeira) de dezembro, o volume do setor de serviços de novembro na 4ªfeira e as vendas no varejo para o mesmo mês na 6ªfeira.

E agora?

Nos mercados internacionais, a concretização da onda azul na semana passada deve continuar fazendo preço. Investidores devem continuar alimentando o que tem se cunhado, até o momento, de “reflation trade”. Isto é, investidores continuará montando posições em cima de ativos sensíveis à retomada do crescimento econômico decorrente da forte expansão dos gastos públicos, tanto pelo lado da demanda quanto pelo lado da oferta. Ainda, a continuidade na campanha de vacinação, assim como o constante suporte monetária provido pelos principais bancos centrais, deve continuar promovendo a redução generalizada da aversão global ao risco, contribuindo para a valorização dos ativos mundo afora.

Aqui no Brasil, ativos domésticos devem continuar refletindo os bons ventos do exterior, mas as incertezas fiscais, assim como o comportamento errático do executivo, devem continuar forçando uma reprecificação de dólar e das taxas no mercado de juros futuros. Como ponto positivo, o pedido de uso emergencial da Coronavac, se aprovado, pode dar um impulso adicional aos ativos de risco domésticos, por basicamente confirmar o tão esperado início da campanha de vacinação, prevista para o dia 25 de janeiro.

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