Flash Empresas | Investir em Frigoríficos vai contra a estratégia ESG?

Vem se tornando cada vez mais frequente no mercado o seguinte questionamento: é possível manter a estratégia ESG e investir em Frigoríficos? Isto porque as companhias já estiveram envolvidas em casos de corrupção, são fortemente relacionadas a queimadas, principalmente às recentes no Cerrado e Amazônia, devido a maneira como operam sem um rastreamento completo de sua operação, entre outros fatores que as exclui da condição de investimento sustentável.

Um dos fatores citados acima, é que os Frigoríficos, em sua maioria, não rastreiam sua cadeia produtiva como um todo, monitorando apenas seus fornecedores primários, o que pode fazer com que esta pareça regular sem que realmente seja. Dessa forma, as companhias acabam então contribuindo para a deterioração do meio ambiente e consequente aumento da ocorrência de queimadas, o que prejudica suas próprias produções, visto que 25% do rebanho bovino brasileiro é localizado nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Explicando de forma mais detalhada, existem os Guias de Trânsito Animal (GTAs), que consistem em documentos emitidos de forma eletrônica, administrados pelo Ministério da Agricultura, que são obrigatórios a qualquer transação no mercado, que envolva animais vivos dentro do país e deve acompanhar o transporte de gado. Dentro da operação de um frigorífico a indústria tem acesso à GTA que é emitida pelo produtor, no momento da venda do gado gordo para abate, mas não às que são emitidas pelos pecuaristas, a adquirir o gado dos fornecedores indiretos a cadeia, que criam os gados magros.

Como deixam uma etapa do processo isenta de rastreamento, é possível que o gado tenha passado, em algum momento do seu ciclo de vida, por uma área irregular, que consiste em fazendas desmatadas de forma ilegal, gado criado em áreas indígenas, embargados pelo Ibama ou de conservação e propriedades que realizem trabalho análogo à escravidão. Sendo assim, o esforço da indústria relacionado a questões sustentáveis torna-se totalmente ineficaz.

A participação da carne bovina no Brasil na receita total dos frigoríficos é hoje de aproximadamente 15% para a JBS e 20% para a Marfrig. O fato de serem números bastante relevantes, começa a preocupar o mercado. Isto porque as próprias empresas vêm agindo de forma a colocar estas receitas em risco.

A situação atual das florestas vem frustrando o mundo todo, mas ainda não seria capaz de impactar grandes empresas brasileiras do setor, com relação a produção animal. No entanto, caso estas não comecem a se preocupar, passarão a ser altamente impactadas.

Foi a partir disso que estas passaram a tomar algumas atitudes na frente ESG. A Marfrig anunciou há dois meses o Plano Marfrig Verde+, que consiste em um projeto que visa garantir que 100% de sua cadeia produtiva seja sustentável e não desmate até 2030. Durante este período, a empresa fará um investimento de R$500 milhões voltado para questões de sustentabilidade. Também prometeu, que em 2025 toda a sua cadeia presente na Amazônia seja monitorada. A companhia ainda lançou no mês de agosto, a marca Viva, que comercializa uma linha de carne carbono neutro, com baixo impacto ambiental, em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

A JBS lançou no final de setembro o Juntos pela Amazônia, projeto que planeja criar um fundo de R$1 bilhão voltado para investimentos no desenvolvimento sustentável do bioma. Este terá um aporte inicial de R$250 milhões e mais outros, ao longo de dez anos, todos feitos pela companhia, que podem juntos atingir metade desta quantia. O frigorífico criou um conselho de administração, que será composto por pesquisadores, representantes do varejo, do agronegócio e de ONGs de proteção ao meio ambiente para realizarem a gestão deste fundo.

Ainda, as duas empresas discutem desenvolver uma plataforma baseada em blockchain que deverá cruzar dados das GTAs de todos os seus fornecedores. Para isto, será necessária a autorização de todos os pecuaristas presentes em seu processo. Em prol de agilizar o processo, a JBS, que hoje afirma monitorar mais de 50 mil fornecedores pelo Brasil, disse que irá oferecer assistência técnica para que os pecuaristas irregulares consigam regularizar seus negócios.

Acreditamos que as companhias operaram até hoje, de uma maneira bastante nociva ao meio ambiente. Ainda, ao longo dos últimos anos contamos com alguns casos de corrupção dentro das mesmas. No entanto, é necessário reconhecer a intenção de esforço voltada para questões ESG, o que pode mudar a visão do mercado com relação a operação do setor como um todo no Brasil, e assim destravar grande valor aos ativos, que hoje se encontram em patamares descontados. É necessário acompanhar o desenvolvimento dos projetos anunciados, mas por enquanto, reiteramos nossa recomendação de compra no setor, sendo a nossa preferida a JBS devido a diversificação de seu portfólio; atuação internacional relevante; novos posicionamentos ESG, o que deve reduzir o risco percebido; e bom histórico de performance.

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