Flash Macro | Decisão de Taxa de Juros (COPOM) setembro/20

O comitê de política monetária do banco central confirmou expectativas do mercado ao manter a taxa de juro estacionado em seu atual patamar de 2,00% em votação unânime.

Em seu comunicado, o BCB avaliou que devido ao processo de recuperação econômica – embora de forma heterogênea entre setores – e à moderação na volatilidade dos ativos, o ambiente se tornou mais favorável para economias emergentes. Sobre a economia brasileira, mencionou que uma recuperação parcial foi verificada, mas que o nível de incerteza todavia segue elevado. O período final do ano, que ainda resguarda muitas incertezas, também contará com o arrefecimento dos programas de sustento à renda e ao emprego, ofuscando a clareza quanto à verdadeira trajetória da recuperação econômica em direção aos níveis pré-pandemia. 

No que diz respeito à dinâmica dos preços, membros do corpo decisório avaliam que a inflação deve se elevar no curto prazo, refletindo a recente alta no preço dos alimentos e a normalização dos preços de alguns serviços. De qualquer maneira, diversas medidas subjacentes de inflação ainda permanecem abaixo dos níveis compatíveis com o cumprimento da meta de inflação para o horizonte relevante da política monetária. Isso é, o ano-calendário de 2020, 2021 e, em menor grau, 2022.

Sobre o balanço de riscos, permanecem pressões em ambas as direções:

Por um lado, a alta ociosidade da economia preconiza uma pressão baixista no nível de preços. Destaque para a concentração da ociosidade no setor de serviços, cuja participação do PIB roda em torno dos 60%. Tal risco tende a se intensificar caso uma reversão mais lenta das sequelas deixadas pela pandemia se concretize.

Por outro, políticas fiscais e creditícias de suporte à renda e ao emprego podem ocasionar uma queda menor do que a esperando na demanda agregada e, se forem acompanhadas de uma frustração com relação ao ajuste das contas públicas, podem elevar os prêmios de risco no mercado e as expectativas de inflação, produzindo uma trajetória ascendente para o nível de preços. Com isto, o Copom voltou a enfatizar a importância de seguir em frente com as reformas estruturais e que, caso contrário, poderemos verificar uma elevação na taxa de juro estrutural, potencialmente tornando o atual grau de estímulo contraproducente.

Assim, por razões prudenciais e de estabilidade financeira, o Copom reiterou que futuros cortes remanescentes ocorrerão com gradualismo e cautela. Ou seja, o Copom entende que o mercado e a economia como um todo ainda estão se acostumando com o ambiente de juros baixos – algo inédito na história do país.

Por último, os dirigentes do Banco Central voltaram a reiterar o uso do Forward Guidance (prescrição futura) como um instrumento adicional de política monetária para conseguir prover o impulso necessário à economia. Desta forma, o comitê deixou claro no comunicado que não pretende subir a taxa de juro por um longo período de tempo a não ser que as expectativas de inflação, assim como as projeções de inflação do próprio BCB, estejam suficientemente próximas da meta para o ano-calendário de 2021 e, em menor grau, o de 2022. Naturalmente, o uso eficiente deste instrumento e a manutenção dos juros em patamares historicamente baixos dependem crucialmente da manutenção do Novo Regime Fiscal (Teto de Gastos) assim como da ancoragem das expectativas de inflação de longo prazo.

Nossa visão

O Copom confirmou nossas expectativas na sua 233ª reunião ao manter a Selic estável em 2,00% a.a. Assim como no último comunicado, o comitê voltou a reforçar que, apesar do cenário continuar prescrevendo um alto grau de estímulo monetário, há pouco espaço para a utilização da política monetária convencional (cortes de juros). Esta visão corrobora a decisão de manter o juro estável em função do elevado grau de incerteza com relação ao ritmo de recuperação da demanda e ao avanço da pauta fiscalista no Congresso nacional. Desta forma, os formuladores de política monetária se voltam ao uso de uma prescrição futura (Forward Guidance) como instrumento de política monetária adicional, buscando intensificar ao grau de estímulo de maneira mais cautelosa.

Nesta frente, o comitê passou a mensagem importante ao explicitar que não vê reduções no nível de estímulo (alta na taxa de juros), ao menos que as expectativas de inflação, assim como as projeções de inflação de seu cenário básico, estejam suficientemente próximas da meta de inflação para o horizonte relevante de política monetária, que atualmente inclui o ano-calendário de 2021 e, em grau menor, o de 2022. Em outras palavras, os membros do comitê sinalizaram uma Selic em patamares reduzidos por mais tempo, com o intuito de direcionar as expectativas do mercado para um juro mais baixo. Resta saber se o BCB irá conseguir imprimir tal direcionamento no mercado que, até o momento, não parece acreditar na manutenção da taxa referencial de juros em 2,00% no ano que vem (os DIs apontam para pelo menos 3 altas da Selic em 2021).

Ao se deparar com este obstáculo, trazemos de volta a fala do diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central (BC), João Manoel Pinho de Mello, no dia 26 de agosto: “A política monetária é passageiro. O piloto é o fiscal.” Em outras palavras, acreditamos que a ferramenta só terá o efeito desejado se for acompanhada de uma maior previsibilidade com relação à dinâmica das contas públicas. Caso contrário, as expectativas do BCB terão  de convergir em direção às do mercado.

Assim, tendo em vista a mensagem do comunicado frente às nossas projeções com relação às principais variáveis econômicas e à trajetória fiscal no 2º semestre, atribuímos uma maior probabilidade na manutenção do patamar atual na reunião de outubro (27 e 28/10).

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